Lula esperava a reação à liminar do STF e manda um recado: preso ou solto, vai liderar a oposição. Por Joaquim de Carvalho

Lula, que não receberá visitas no Natal, manda um recado aos brasileiros: “Que a luta pela Verdade e ela Justiça nunca saia do horizonte”

 

Indignado, mas não frustrado. Foi com estas palavras que um interlocutor de Lula definiu o estado de ânimo do ex-presidente.

Os dois se encontraram na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba, onde Lula está preso desde 7 de abril.

“Lula tem consciência de que sua prisão é política, e sabe que haverá reação a qualquer medida que possa resultar na sua liberdade”, disse o visitante.

Livre, Lula seria, certamente, uma voz decisiva na oposição ao governo de Jair Bolsonaro.

Só isso explica o empenho das autoridades de Estado alinhadas ao movimento que retirou Dilma Rousseff da presidência, condenou e prendeu Lula, e, assim, colaborou na eleição de Bolsonaro.

Elas se empenharão, além dos limites legais, para bloquear qualquer iniciativa que devolva Lula à plenitude da vida pública.

“O presidente sabe disso, e é por isso que não se abate com esse vaivém nas decisões judiciais”, comentou.

Não é possível identificar quem movimenta as peças desse xadrez, mas se vê claramente as peças se movimentando fora da sua ordem natural.

Enquanto o alto comando do Exército vazava a informação de que realizava uma reunião de emergência para avaliar a liminar de Marco Aurélio Mello, a juíza de primeira instância Carolina Lebbos peitava a autoridade do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em seu despacho para negar cumprimento à decisão de Marco Aurélio, ela, na prática, funcionou como autoridade revisora da decisão do ministro.

Disse que a prisão em segunda instância já tinha sido decidida pelo colegiado do STF e, portanto, se considerava livre para não cumprir a liminar.

Numa atitude sem previsão legal, encaminhou o pedido de liberdade de Lula ao Ministério Público Federal, para que se pronunciasse.

Os procuradores não têm autoridade para vetar decisão de ministro do Supremo Tribunal.

Podem buscar caminhos para derrubá-la, mas jamais vetá-la.

O que pretendia a juíza com o ato de ouvir o MPF para decidir se acata ou não a decisão de um ministro do Supremo?

Aparentemente, ela só queria tempo, já sabendo que Dias Toffoli estava sendo convencido a cassar a liminar de um colega ministro.

Até os estagiários de Direito conhecem o ditado: ordem judicial não se discute, se cumpre.

Mas não é mais assim no Brasil.

Na sua petulância — para não dizer atitude ilegal —, Carolina Lebbos seguiu o que já se pode chamar de “doutrina Moro”.

Com seu despacho, ela repetiu os argumentos do juiz que condenou Lula e impediu o cumprimento do alvará de soltura expedido pelo desembargador plantonista do TRF-4, em julho deste ano.

A diferença é que essa jovem magistrada subiu alguns degraus em sua atitude de desrespeito e indisciplina. Peitou o segundo ministro mais antigo do STF.

Não é pouca coisa, e é revelador de um empenho pessoal de autoridades para que se mantenha atrás das grades o maior líder popular da história do Brasil.

Enquanto isso, em frente à Superintendência da PF em Curitiba, brasileiros que apoiam Lula choraram.

Foi primeiro um choro de alegria, na iminência da liberdade do ex-presidente, depois de revolta e agora de esperança.

A violência institucional contra Lula gera efeito contrário nos seus apoiadores: em vez de afastá-los, os fortalecem.

Enquanto Lula comemorava o seu Natal com três filhos, uma neta e uma bisneta, na cela de 15 metros quadrados, amigos cantavam do lado de fora.

A deputada federal Benedita da Silva, do PT do Rio de Janeiro, puxou um coro de “Lula, eu te amo”, e depois, a caminho do aeroporto, desabou.

Chorando, disse: “É uma dor muito forte. Tinha esperanças de passar o Natal com Lula”.

Lula, sabendo que a informação de que passará as festas de fim de ano sem receber visitas já estava circulando, chamou Marco Aurélio, assessor do Instituto Lula.

O objetivo era transmitir uma mensagem de força — ânimo que impressiona, principalmente em se tratando de um homem de 73 anos de idade.

Segundo Marco Aurélio, Lula pediu para todos “se reenergizarem” neste período natalino.

“O ano que vem será um período de muita luta, ele vai precisar muito de vocês aqui. Ele vai precisar muito de vocês para passar esta energia que vocês estão passando para ele diariamente. Ele pediu para dizer que ele quer, no início do ano, receber representantes da vigília”, disse.

Sobre o Natal, o ex-presidente tranquilizou seus apoiadores.

“Vai estar fechado aqui, mas ele pediu para lembrar a vocês que ele não estará sozinho. Ele disse: ‘Pô, eu não vou estar sozinho, eu vou estar com eles. Eles estão comigo aqui.’ Ele pediu para vocês não se preocuparem, que ele não vai estar sozinho. Ele não vai estar sozinho aqui no Natal, no dia 24, não vai estar no Ano Novo. Vai estar com todos nós aqui”, destacou.

No final, o recado mais importante, próprio de quem não se abate:

“No ano que vem, ele disse: se tem uma pessoa que está disposta a fazer oposição neste país, é o Lula.”

Aplausos, gritos de apoio, a militância pró-Lula está viva.

Uma mulher que ouve atentamente as palavras de Marco Aurélio, de violão em punho, toca a música que foi símbolo das campanhas políticas vitoriosas do ex-presidente:

“Passa o tempo e tanta gente a trabalhar.

De repente essa clareza pra notar.

Quem sempre foi sincero e confiar.

Sem medo de ser feliz.

Quero ver chegar.

Lula lá, brilha uma estrela.

Lula lá, cresce a esperança

Lula lá, o Brasil criança.

Na alegria de se abraçar.

Lula lá, com sinceridade.

Lula lá, com toda a certeza pra você.

Meu primeiro voto.

Pra fazer brilhar nossa estrela.

Lula lá, é a gente junto.

Lula lá, valeu a espera.

Lula lá, meu primeiro voto.

Pra fazer brilhar nossa estrela.”

É de chorar, mas não de desespero nem de dor, mas de esperança.

Lula é uma ideia que se fortalece na ação de quem procura enfraquecê-lo.

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