Lula foi cordial demais com as molecagens do bolsonarista. Por Moisés Mendes

Atualizado em 19 de outubro de 2026 às 8:18
Lula e Flávio Bolsonaro durante debate
Lula e Flávio Bolsonaro durante debate promovido pela Bandeirantes. Foto: Reprodução

A Bandeirantes produziu o primeiro vale-tudo da era digital, mas na TV, como se fosse um duelo em ambiente virtual. E Lula caiu na arapuca do formato do debate com Flávio Bolsonaro, do qual nenhuma outra figura pública sensata poderia sair vencedora.

Flávio e Lula perderam, mas Lula não precisava ter perdido desse jeito. Primeiro, porque sua assessoria e seu comando de campanha aceitaram algo inimaginável como arena de debate.

Não deu certo com Lula e não daria com Simone Tebet, Fernando Haddad, Marina Silva ou qualquer outro candidato, mesmo de direita, que se dispusesse a enfrentar Flávio num ringue em que todo tipo de golpe baixo foi aceito.

A Bandeirantes tirou, com esse formato em que os dois passaram o tempo todo se agredindo, a possibilidade de propor pautas e formular perguntas sobre temas essenciais.

A Bandeirantes se afastou da sua tarefa de gerir um embate sob o ponto de vista do jornalismo e entregou Lula e Flávio ao que chamam de trocação nas lutas ‘modernas’, com socos, chutes, joelhadas e cotoveladas.

A direção de jornalismo da Bandeirantes lavou as mãos, eximiu-se da responsabilidade de mediar o debate e largou Lula numa jaula com Flávio. Foi o que se viu e que poderia ter sido pior.

Flávio Bolsonaro produziu lacrações para cortes e ficou, durante todo o tempo em que Lula falava, atrás do adversário. Para desviar o foco, criar imagens com cara e bocas em tom de deboche, que serão usadas nos cortes, e para tentar desconcentrar Lula.

Flávio se comportou como moleque, e Lula foi cordial demais com um sujeito que tem conexões com milícias.

Os primeiros blocos foram favoráveis a Lula, que encurralou Flávio com perguntas sem reposta, mas o bolsonarista reagiu no final. E usou o último bloco para fazer o que ao extrema direita mais gosta: dizer que vai caçar e prender bandidos, que fará um governo dedicado ao combate não só ao crime organizado, mas também à repressão aos ladrões de celulares.

Lula o desafiou a abrir sigilo telefônico e de contas bancárias, para que o eleitor saiba quem é corrupto, mas também aí parece que o desafio não funcionou. Flávio já havia assumido o controle da situação, depois de ser quase nocauteado nos dois primeiros blocos.

Folha e Estadão ofereceram a Lula a chance de dizer a Flávio, com fatos concretos, que ele é investigado por vínculos com mafiosos das fraudes do INSS. Duas chamadas nos dois jornais pareciam ter sido feitas pelo mesmo editor.

O Globo estampou na capa: “PF investiga Flávio por suspeita de lavagem de dinheiro com advogado Willer Tomaz”. E a Folha chamou a notícia com este título: ”Flávio Bolsonaro é investigado no STF por suspeita de lavagem com advogado do caso INSS”.

Manchete da Folha sobre investigação contra Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

Lula não fez nenhuma referência a essas investigações, que os dois jornalões ofereceram como pauta, e de graça, para que fosse usada no debate.

Lula não disse, ao final, quando Flávio tentou fazer palhaçada às suas costas, que aquele é o sujeito que pretende governar o Brasil.

Mesmo que sua fala tivesse sido interrompida, que a mediadora tivesse pedido a Flávio que ficasse quieto e mesmo que o sujeito continuasse tentando aparecer mais do que o presidente, Lula não disse uma palavra no sentido de denunciá-lo como um palhaço sem condições de governar o país.

O que ficou provado de novo não traz novidades. Lula é um gênio num palanque e tem desempenhos geralmente brilhantes em entrevistas, como aconteceu na semana passada na sabatina com Renata Lo Prete na Globo.

Mas é mediano em debates, porque também ele não consegue ser perfeito. Lula foi cordial demais com o ogro da extrema direita.

Faltou entre os que o alertam para armadilhas, a sabedoria dos velhos companheiros, que certamente diriam: não entra nessa que é bucha.

Lula entrou numa fria e precisa evitar a repetição do vale-tudo na Globo, no debate de sexta-feira na Globo.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/