Lula, G20 e o protagonismo do Brasil no Sul Global. Por Marcio Pochmann

Atualizado em 10 de setembro de 2023 às 14:14
Lula participa de reunião do G20, na Índia. (Foto: Reprodução)
Marcio Pochmann

Após o fim da Guerra Fria (1947-1991), os Estados Unidos se lançaram na implementação do projeto para o Novo Século Americano, induzido pelos neoconservadores republicanos, para alçar a liderança assentada no tripé (i) de princípios morais do bem contra o mal, (ii) da diplomacia enérgica a se distanciar dos acordos do fim da segunda Guerra Mundial e (iii) do regime da superioridade da força militar.

A globalização neoliberal foi a via pela qual foi imaginada a concretização de um novo salto tecnológico produtor do desenvolvimento econômico compatível com a sustentabilidade ambiental e social. Mas as crises sistêmicas frequentes, base do capitalismo neoliberal, passaram a apontar o quanto era frágil e inibidor a materialização do projeto de novo século 21 a ser liderado pelos EUA. O resultado foi a impossibilidade de repetir o esperado período dos trinta anos gloriosos, conforne observado no segundo pós guerra após a derrota do nazifascismo. Inicialmente porque o modelo econômico neoliberal imposto à periferia capitalista logo gerou diversas manifestações de sua ingestão.

As crises financeiras dos anos de 1994 a 1999 contaminaram e desorganizaram as economias periféricas. Aquelas situadas no rastro da América Latina ao Sudeste da Ásia foram submetidas, em geral, ao regresso do subdesenvolvimento primário-exportador, cada vez mais como consumidor-importador de bens e serviços digitais de maior valor agregado, conteúdo tecnológico e emprego decente.

A ideologia do Norte Global, repercutido pelo Fórum Econômico Global e suas ramificações, era a da predominância da destruição generalizada de postos de trabalho, desestimulando, assim, os países periféricos de constituir os seus próprios sistemas autônomos nacionais. Em contrapartida, os países de maior investimento tecnológico e incorporação digital, robôs e inteligência artificial como Cingapura, Taiwan, Coreia do Sul, Alemanha, China, EUA e outros, não têm registrado até agora o desemprego tecnológico em massa, somente em países sem quase investimentos tecnológicos como na África e América Latina e Caribe.

Na sequência das frequentes crises na periferia, a contaminação do modelo econômico neoliberal foi se propagando no interior do próprio centro dos países do Norte Global. Logo nos primeiros anos da década de 2000, a crise financeira nos Estados Unidos, definida por bolha da internet, generalizou-se pelas empresas ponto com.

Em 2008 foi a crise financeira global do subprime, cuja origem também nos EUA terminou por anunciar a incompatibilidade da valorização especulativa do rentismo dos ativos financeiros sem compatibilidade na economia real. Dois anos depois, em 2010, a crise financeira ganhou novos capítulos na Europa, tendo a Grécia antecipando a realidade de quanto a economia da Europa Ocidental se encontrava combalida e comprometedora, inclusive, das bases de sustentação da União Europeia.

Representação do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Reprodução

Assim, em 2016, a Grã-Bretanha optou por deixar a União Europeia, demarcando as incongruências do modelo econômico neoliberal na continuidade do projeto de mercado único e de união aduaneira. Pelo conflito no território da Europa Oriental entre Rússia e Ucrânia desde 2022, a realidade se impôs diante do funesto projeto para o Novo Século Americano, cujo expansionismo da Organização do Tratado do Atlântico Norte, desde 1949, não finalizou mesmo com a queda da União Soviética, em 1991.

Diante disso, o presidente Lula na reunião do G20 na Índia reforçou a visão de outro mundo: “Nós não podemos deixar que questões geopolíticas sequestrem a agenda de discussões das várias instâncias do G20. Não nos interessa um G20 dividido. Só com uma ação conjunta é que podemos fazer frente aos desafios dos nossos dias. Precisamos de paz e cooperação em vez de conflitos.”

Em síntese, a cúpula do G20 na Índia confirmou a volta do protagonismo do Brasil que sob a liderança do presidente Lula busca consolidar a posição dos países do Sul Global.

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