Lula Livre X America First. Ou: É a economia, estúpido. Por Edmundo M. Oliveira

POR EDMUNDO M. OLIVEIRA

O que você lerá aqui só pode ser dito por um fiscalista ortodoxo-heterodoxo, como me considero, ou um socialista-liberal, como a mulher do Stephen Hawking o definiu. (Dependendo da circunstância, sou um falcão ou uma pomba, porque o mundo é uma metamorfose ambulante, com pessoas de carne e osso embaixo, não um modelo matemático elegante do Ilan Goldfajn, presidente do nosso BC.)

  1. A crise de 2008 não terminou e não terminará tão cedo. É estrutural, é mal secular e só será resolvida pelo Armagedon (barbárie) ou por um novo Bretton Woods global (civilização). Todo o resto são idas e vindas.
  2. O nome da bomba que desequilibra o mundo e faz renascer o fascismo na Hungria, na Polônia e aqui no Brasil (pontas de lança do reacionarismo global), e de quebra nos oferece o ridículo Beppe Grillo na Itália, mesmo não havendo comunismo para combater, atende pelo nome de dívida global de US$ 60 trilhões.
  3. Um terço da dívida global, ou US$ 20 trilhões, é do governo americano. Como meus parcos conhecimentos de física me permitem, sei que corpos maiores atraem corpos menores, pelo conhecido princípio de Newton. Ou seja, a dívida está concentrada nos EUA e pulverizada no mundo. Os instrumentos, os modelos, de sua gerência nascem, portanto, ali onde há mais volume, certo?
  4. Wall Street é a banca que movimenta essa montanha de papel, de moeda virtual, seja para financiar o Tesouro americano, seja para manter rodando a roda do consumo conspícuo da classe média americana (que vai encolhendo, porque as ruas de LA estão bombando de barracas de moradores de rua, não é mesmo?). Quando você ouvir falar em “flying to quality”, para explicar a disparada atual do dólar, não se iluda. É só o viralatismo mundial achando que tem segurança nas Treasuries americanas (títulos do Tesouro). Não tem e 2008 mostrou que, quando o tsunami vem, não sobra pedra sobre pedra. Naquele entonces, as pedras foram mais ou menos rearrumadas à custa da guitarra americana, quer dizer do Fort Knox. Depois do double dip (segundo mergulho da crise, em 2011, na Grécia), a Europa adotou a mesma receita.
  5. Você ouviu falar das expressões “stress test” (teste de estresse dos bancos) e “quantitative easing” (relaxamento monetário), não ouviu? Pois é, vamos usar uma imagem forte, isso foi nada mais nada menos do que administração controlada de morfina. Ou seja, os Estados Unidos elevaram o seu endividamento de 55%-60% do PIB para os 105% de hoje. Só que muita morfina de uma vez mata o paciente, certo? Então o FED foi administrando as doses para ver quanto estresse o paciente ia suportando. O paciente se recompôs e voltou ao jogo, com o simpático (em foto) Jamie Dimon (presidente do JP Morgan-Chase) no posto de novo “Senhor do Universo”. His salary? US$ 29,5 milhões (2017). Net Worth (riqueza pessoal)? US$ 1,3 bilhão (abril de 2018). Mas nada pessoal aqui, amigos. Apenas o retrato de uma elite inteira, a mosca da sopa das Finanças mundial. Alhures e aqui em Pindorama, onde temos os nossos meninos travessos também, não é mesmo Itaú-Bradesco-Santander-Safra e satélites?
  6. Roda que gira, roda que vem, o danado do chinesinho do Xi Jin Ping sempre quebrando a banca e o Rust Belt (cinturão da ferrugem) sofrendo. Vem o Trump com o discurso de America First. O que é o America First? É produzir de novo nos Estados Unidos, porque não há como criar emprego só consumindo, certo? Alguma indústria há de ter (alô, Pedro Parente, alô “Ponte para o Futuro”…). E tome enterrar o TPA (acordo de comércio transpacífico) e tome sabotar a Organização Mundial do Comércio. Só que americano é gente fina, não quer saber de poupança; formiga é pros outros, a gringalhada gosta mesmo, há décadas, é de ser cigarra. Então, o Trump vai lá e reorganiza o seu governo com apoio de Wall Street (Rex Tillerson foi apenas uma mesura à indústria, uma ponte para voltar aos braços dos camaradas da bufunfa). Rust Belt + Wall Street + John Bolton (põe ferrabrás nisso, logo saberá o Irã) é a nova combinação do perigo. Gaza já arde dramaticamente por isso.
  7. Vale a pena um break. A alternativa à quebradeira de 2008 foi oferecida pelo Paul Krugman, para mim, a coisa mais sensata e realista possível. Estatização temporária do crédito e das instituições financeiras, para disciplinar, impor regras ao mercado e freio na fome de ganhos dos “Senhores do Universo”. Krugman talvez tenha se inspirado no nosso (sim, amigos, somos bons nisso em nosso Banco Central) RAET – Regime de Administração Especial Temporária dos bancos privados (e públicos), quebrados. A nossa lei está pronta faz tempo e eventualmente poderá nos ser muito útil para, de forma preventiva, ser combinada com um ajuste fiscal muito forte e relevante que teremos de fazer de modo a consertar os desastres do governo Temer.
  8. Como não se pode pedalar a bicicleta tão facilmente hoje em dia, como era o caso da ciranda financeira dos subprimes de 2008 e dos esquemas Ponzi de então, a fome de remuneração dos investidores saiu catando rendas pelo mundo com voracidade ainda maior. Se, no limite, for preciso colocar Pinochets mundo afora para garantir a grana nova dos investidores americanos e de sua indústria de petróleo, com privatizações (Petrobras) e desnacionalizações (Embraer), não tenham dúvidas que eles o farão. E a velha litania da luta anti-corrupção sempre estará à mão, com juízes e procuradores provincianos e deslumbrados das Pindoramas da vida sendo treinados em convênios com o DOJ (Departamento de Justiça) e vigilância da CIA, NSA e o que mais for necessário (IV Frota, se me entendem…). Antes de me acusarem de ser adepto de teorias conspiratórias, leiam amigos, conheçam Michael Levine, estudem o caso Irã-Contras, olhem como vivem o Snowden e o Assenge… Toda a legislação americana foi moldada, depois das torres gêmeas de 2001, para grampear o dinheiro que circula pelo mundo e, de um modo ou de outro, ele passa pelos bancos americanos já que referenciado em dólar.
  9. Tá confuso com o #LulaLivre X America First? Veja, nós só não estamos numa crise maior, escalafobética, porque não temos (por ora) os twin déficits (déficits gêmeos, fiscal e de conta corrente) de 2002. Isso foi obra de Lula, digam o que disserem. Se beneficiado ou não pelo ciclo de ouro das commodities, pouco importa; foi ele que teve a sabedoria de fazer o poderoso ajuste fiscal de 2003-2005 (Carta ao Povo Brasileiro), entesourar o nosso superávit externo, montar esse fantástico colchão de reservas de US$ 380 bilhões que temos, liquidar a fatura com o FMI e tornar o Brasil o quarto maior credor do mundo do Tesouro americano. O que nos custa muito caro, diga-se.
  10. Tudo isso, para desespero da classe média que frequentava com exclusividade os acanhados aeroportos que tínhamos; botando o pobre no orçamento; espalhando cisternas, bolsa família e luz para todos; moradias novas; universidades novas; escolas técnicas; empregos e o escambau. O mercado interno tornou-se solução, não uma velha miragem que nunca se realizava.
  11. É possível admitir que houve erros, excessos, conivência (involuntária e até ingênua) com a bandalheira, voluntarismo etc, etc, etc. O que não é possível é aceitar o despeito de muitos economistas e “analistas” de nossa brava mídia que se apegam a agendas micro, isolam o micro e o macro, são completamente insensíveis à praga do desemprego por desalento, e ao desemprego tout court, e querem criminalizar os 14 anos de Lula-Dilma. Isso é velhacaria, mesmo que o sujeito possa ter razão aqui e ali.
  12. Mas voltando ao principal, Lula projetou o Brasil com alguma relevância, que nunca tivemos, no mundo. Deu um olé no Obama na questão do Irã, tanto que o próprio Obama passou recibo, sendo depois obrigado a voltar atrás pelo establishment americano. O que não perdoam no Lula é a petulância de pensar fora dos limites pavlovianos que nos reservam. O que não perdoam é ter demonstrado ao brasileiro que ele não precisa cuspir na própria imagem para tentar ser alguém no mundo. É por isso que ainda precisamos do Lula.
  13. Lula nunca foi e nunca será um caudilho, um populista rasteiro, como quer parte da mídia. Pela simples razão de que nunca veio caudilho, em lugar nenhum do mundo, do seio da classe trabalhadora. E também porque Lula sabe como poucos o valor da negociação e de se conseguir reduzir custos nas brigas entre interesses distintos, que sempre ocorrem. Principalmente na arena internacional, onde ele se mostrou um ativo de grande valor do País ao dar todo o respaldo ao desenvolvimento de uma política externa ativa e altiva.
  14. O ponto, agora, é que #LulaLivre, Lula presidente, poderia trazer o Brasil de novo ao cenário mundial, pois ele é um dos poucos caras do mundo que – fazendo a coisa certa aqui dentro para superar a ruinosa crise fiscal produzida pelo golpe e retirar a camisa de força da rigidez da Emenda Constitucional 95, de modo a retomar o desenvolvimento com o pé no chão – pode contrapor World First ao America First. Ele, Xi Jin Ping, Putin e N. Modi, para começar (Outro dia eu explico por que o euro patina e por que penso que deva ser criado, no âmbito dos Brics, uma ECU, que era uma cesta de moedas referencial da Europa, antes do Euro. Na verdade, penso na criação de uma BCU, Brics Currency Unit, como passo intermediário para um novo Bretton Woods global. Também direi por que a geopolítica nunca sumiu e por que o mundo precisa de uma bi ou tripolaridade).
  15. O que é retomar o desenvolvimento com o pé no chão? É focar em usar todo o dinheiro que as rendas do Estado conseguir reunir, para investimento em saneamento básico (uma vergonha o nosso esgoto a céu aberto e a poluição de nossas águas); educação fundamental, básica e técnica; infraestrutura ferroviária e ciência e tecnologia. Como as quatro grandes reformas do Chu En Lai, esses deveriam ser os quatro Nortes de nossas vidas por todo o século XXI. Isso é a agenda da produtividade. E esta é a deficiência maior que vejo no PT: não entender ainda que a riqueza não brota da simples vontade Estado e do governante de fazer o bem, mas da decisão correta do governante, de sua prudência fiscal, do exemplo e da motivação que ele provoca nas pessoas. E, ainda, da motivação dos cidadãos de produzir mais e melhor, com confiança no vizinho e na Boa Fé mútua. Tudo o mais – moeda, poupança, previsibilidade, Justiça que funciona, equilíbrio institucional etc – é consequência. Essas coisas não brotam da matemática tecnocrática. São criações humanas e, como tudo que é humano, suscetível a avanços e recuos.

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