Lula marca encontro com “pai do Plano Real” que critica juros do BC

Atualizado em 1 de novembro de 2026 às 10:24
O economista André Lara Resende, ex-diretor do Banco Central. Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem um encontro marcado para a próxima semana, em Brasília, com o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A reunião ocorrerá em meio às críticas do economista à política monetária brasileira, especialmente à manutenção dos juros elevados. Com informações de O Globo.

Lara Resende voltou ao centro do debate econômico depois de publicar o artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, no qual questiona os fundamentos utilizados pelo Banco Central para justificar a taxa básica de juros. Para ele, a política monetária brasileira contribui para agravar o desequilíbrio das contas públicas, em vez de combater suas causas.

O economista argumenta que o peso dos juros sobre a dívida pública representa um problema maior para o equilíbrio fiscal do que o próprio resultado das receitas e despesas primárias do governo. Na avaliação dele, a manutenção de taxas elevadas aumenta os gastos com o serviço da dívida e dificulta a estabilização do endividamento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu o economista.

No artigo, publicado originalmente em setembro, Lara Resende também critica a abordagem predominante no mercado financeiro e na imprensa sobre a situação fiscal brasileira. Segundo ele, o debate costuma concentrar as atenções nos gastos públicos, enquanto deixa em segundo plano o custo dos juros pagos pelo Estado.

O economista calcula que o serviço da dívida pública alcançava valores superiores a 10% do PIB ao ano. Ele sustenta que esse custo compromete a capacidade do governo de equilibrar as contas, mesmo quando o déficit primário permanece relativamente baixo. Trata-se de uma interpretação que contrasta com a visão convencional de que juros elevados são necessários para conter a inflação e preservar a estabilidade econômica.

Presidente Lula

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Reprodução

André Lara Resende propõe mudança na política de juros

Além das críticas, Lara Resende apresentou uma proposta de reorganização da política econômica. O economista defende a redução gradual da taxa básica de juros, acompanhada de uma coordenação mais estreita entre as políticas fiscal e monetária.

Em seu texto, ele sugere a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas conjuntas para inflação, juros e contas públicas. A intenção seria substituir a condução isolada dessas variáveis por um planejamento de médio prazo, com objetivos definidos para um período de quatro a cinco anos.

Uma das medidas propostas prevê reduzir gradualmente a taxa básica de juros para aproximadamente 7,5% ao ano, ao longo de cerca de 12 meses. Posteriormente, o índice poderia se aproximar de um intervalo relacionado à meta de inflação e ao crescimento potencial da economia.

Lara Resende sustenta que a mudança reduziria o custo de financiamento da dívida pública e abriria espaço para investimentos produtivos. Ele também reconhece a possibilidade de efeitos sobre o câmbio e a inflação no curto prazo, mas argumenta que as reservas internacionais brasileiras oferecem condições para administrar eventuais pressões.

A proposta contraria a abordagem tradicional da política monetária, segundo a qual juros elevados ajudam a reduzir a demanda, conter pressões inflacionárias e manter as expectativas de preços sob controle. Para Lara Resende, entretanto, essa estratégia pode produzir efeitos contraproducentes quando prolongada por períodos excessivos.

O economista também afirma que o custo elevado do crédito prejudica famílias e empresas, desestimula investimentos e amplia a concentração de renda. Na interpretação apresentada em seu artigo, os juros beneficiam os detentores de ativos financeiros enquanto impõem custos ao conjunto da economia.

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