
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer conversar com Donald Trump para insistir em uma cooperação no combate ao crime organizado e evitar medidas capazes de prejudicar o sistema financeiro brasileiro. A iniciativa ocorre após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Segundo o g1, ainda não há data para a conversa entre os dois presidentes. Lula também pretende tratar da possibilidade de novos aumentos de tarifas sobre produtos brasileiros, tema que já provocou tensão entre Brasília e Washington em outros momentos.
O impacto mais imediato da decisão estadunidense pode ser sentido no sistema financeiro. O receio é que empresas brasileiras que invistam ou transfiram recursos em setores com possível infiltração do PCC e do CV fiquem expostas a sanções, mesmo sem relação direta com as facções.
No governo, a preocupação é que a medida afugente investimentos dos Estados Unidos no Brasil e gere efeitos sobre operações econômicas legítimas. A avaliação é que a classificação anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio pode abrir uma nova frente de tensão diplomática.
Lula deve continuar insistindo no discurso de defesa da soberania nacional. A estratégia política também passa por associar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a eventuais consequências econômicas negativas da medida, como ocorreu no debate sobre tarifas contra produtos brasileiros.

Na equipe de Flávio, a avaliação é que a decisão dos Estados Unidos permite ao senador sair da defensiva e insistir no discurso de que Lula defende o PCC e o CV. O parlamentar esteve nos Estados Unidos em articulações com integrantes da direita estadunidense e aliados de Trump.
Mesmo assim, aliados de Flávio reconhecem que ele seguirá pressionado pelas relações com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e pelo financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL). “Ganhamos tempo, mas não podemos ter nenhuma nova surpresa e explicar de forma crível sobre como o filme Dark Horse foi financiado”, disse um interlocutor do filho do ex-presidente.
Segundo o Valor Econômico, bancos não descartam atuar ao lado do governo Lula para tentar convencer autoridades estadunidenses a reverem a medida caso ela afete fluxos de capital e a economia nacional. O setor financeiro não questiona o combate ao crime organizado, mas teme efeitos colaterais sobre instituições brasileiras.
O principal ponto de preocupação é a falta de definição clara sobre quem poderá ser considerado vinculado ao PCC e ao CV. “A designação de organização terrorista é algo gravíssimo, mas não é algo concreto a ponto de sabermos exatamente quais são os elos que estão conectados com PCC e Comando Vermelho. Se tiver uma lista dos integrantes, isso é algo muito bem-vindo, porque aí começa uma busca para saber se existem possíveis relacionamentos bancários”, afirmou uma fonte do setor financeiro ao Valor Econômico.
Os bancos esperam que Washington divulgue uma lista oficial de pessoas enquadradas nessa condição, como ocorreu no México. A fonte também citou riscos mais amplos. “A gente tem consequências que podem ser econômicas, financeiras, reputacionais, para o setor financeiro e para o Brasil”, disse.
Caso os efeitos atinjam a economia brasileira de forma relevante, o setor admite apoiar uma articulação diplomática do governo. “Obviamente que não se trata de defender PCC e Comando Vermelho, mas se chegar a uma situação em que isso passe a ter um impacto relevante na economia, por que não se juntar ao poder público para tentar reverter? O setor bancário tem camadas fortes de integridade e robustez e não pode ser alvo de especulações, ser desacreditado globalmente”, afirmou a fonte.