
Lula participa nesta sexta-feira (17), em Barcelona, de um encontro com líderes da esquerda mundial promovido pelo primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. O evento de “Mobilização Progressista Global” reúne debates sobre ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero e marca o início da agenda do presidente brasileiro na Europa.
O DCM acompanha a passagem de Lula pela Espanha com a correspondente Sara Vivacqua. Depois de Barcelona, o presidente seguirá para Hanôver, na Alemanha, no domingo (19), e encerra a viagem em Lisboa, na segunda-feira (20), em uma agenda que inclui encontros políticos, compromissos diplomáticos e discussões sobre comércio e parcerias internacionais.
O encontro aproxima Lula de lideranças da esquerda internacional justamente no momento em que o espanhol se tornou uma das vozes mais contundentes contra a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irã.
É nesse ponto que a viagem passa a ser vista como um terreno sensível. À BBC Brasil, o professor Guilherme Casarões, da Universidade Internacional da Flórida, avalia que Lula deve “tomar cuidado para não apertar os botões errados” ao tratar de Trump diante da imprensa internacional.
A preocupação é política e diplomática. Uma fala mais dura pode agradar aliados de esquerda e parte de sua base, mas também pode gerar desgaste com um setor do eleitorado que considera importante preservar uma boa relação com Washington. Esse equilíbrio se torna ainda mais delicado porque o senador Flávio Bolsonaro (PL), apontado no texto como principal adversário de Lula, aparece numericamente à frente em pesquisa de segundo turno da Quaest, com 42% contra 40% do petista.
Além da disputa narrativa em torno de Trump, a viagem também passa pelo debate sobre o acordo Mercosul-União Europeia, que deve entrar em vigor em 1º de maio após mais de duas décadas de negociação.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o tratado deve eliminar tarifas para 92% das exportações do Mercosul, em um montante estimado em US$ 61 bilhões. No Brasil, produtos agropecuários e calçados aparecem entre os setores mais beneficiados, enquanto consumidores podem sentir redução de preços de itens importados, como vinhos, azeites, queijos e lácteos, além de possíveis impactos sobre veículos, medicamentos e insumos do agronegócio.
Mas o acordo também esbarra em outra questão estratégica: a tentativa de diversificar a balança comercial brasileira e reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos. Nesse contexto, podem surgir perguntas sobre o uso do dólar nas transações internacionais e sobre a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Pix.
O sistema brasileiro foi citado em relatório de março como uma das possíveis barreiras comerciais a empresas estadunidenses, e o USTR abriu um inquérito para apurar se ele configura “prática desleal”. Para Oliver Stuenkel, da FGV, a viagem pode ser positiva se for bem conduzida.
“A Europa é um parceiro ideal para o Brasil, apesar das divergências. Há uma sobreposição enorme em temas como o Oriente Médio e a governança digital. E o Brasil precisa de parceiros para não ser confrontado pelos Estados Unidos sozinho”, afirmou. “Precisa de terceiros para aumentar sua margem de manobra na hora de negociar tanto com Washington quanto com Pequim”, concluiu Stuenkel.