“Lula, viemos te buscar!”: militantes prometem resistir e se recusam a sair do acampamento. Por Renan Antunes, de Curitiba

Vigília de partidários de Lula ocupa adjacências da Superintendência da Polícia Federal

POR RENAN ANTUNES DE OLiVEIRA, de Curitiba 

FOTOS RAMIRO FURQUIM

Ele atrai centenas de peregrinos de vários cantos da terra brasileira para o bairro curitibano Santa Cândida. Todos os dias, cada dia mais.

Um grupo de discípulos d’Ele levanta antes do sol sair para preparar o pão, café com leite e manteiga, servidos de graça para os viajantes.

Ele emociona gentes de diferentes raças, credos políticos e orientações sexuais que frequentam seu acampamento, sempre com cerca de 300 pessoas entrando e saindo.

Os fiéis estão acampados ao relento por toda extensão de uma enorme cruz, formada pelas ruas Barreto Coutinho e Guilherme Matter.

Três nomes aparecem gravados tantas vezes nas vestes de fiéis que dá a impressão de que Ele fez mesmo ressuscitarem uns sujeitos conhecidos por Guevara, Lamarca e Marighella.

Logo depois que o sol levanta todos se voltam para parte de cima da cruz das ruas, no alto da ladeira.

Em uníssono, quase em transe, entoam cânticos e agitam bandeiras direcionados ao que parece ser o Templo da Virtude da República de Curitiba, a sede da Polícia Federal, onde Ele está trancafiado numa sala de 3 por 5, com TV.

Aí o povão grita: “Lula, bommmm diaaaa”.

Variação sobre o tema: “Bom dia, presidente”.

Claro que o ex-presidente condenado a passar 12 anos e pico ali naquela solitária não consegue responder como gostaria, porque está confinado.

Aí o povão promete: “Lulaaaa, viemos te buscaaarrrr”!

A massa lulista só não cumpre a promessa porque a Polícia Militar do Paraná protege a Polícia Federal.

APOCALYPSE NOW

Neste finde eu fui ver o que leva aquela multidão a desafiar o frio – garoa, vento e 13 graus na madrugada – apenas para saudar um cidadão comum condenado por aquele juiz da 13ª Vara e dos três desembargadores de Palegre que você sabe quem são.

É fato consumado: Lula, que representa uma leve ideia do que foi o melhor da democracia brasileira, está condenado como sendo dono de um triplex, do qual Ele não tem “escritura de não-dono” para provar que não é dono – fácil de entender, né?

Trata-se de uma pílula de Justiça à moda Sergio Moro: não podendo provar que NÃO era dono, cana nele.

A massa dá aquele bom dia caprichado e promete resgatá-lo da cadeia, mas não chega nem perto de causar o apocalipse – um colunista da FSP se regozijou com a passividade do “exército do MST” porque passados sete dias, os supostos bagunceiros não tinham feito nada para livrar o homem das grades.

Cheguei no acampamento esperando ver sangue nas sarjetas, até que vi os tão temidos milicianos mstianos – uns 30 ou 40 cordeirinhos, em todos os aspectos.

Me deram boa noite. E uma moça loira me apontou um canto bom para armar minha barraca, o que fiz, junto com o fotógrafo Ramiro Furquim.

Do nosso lado havia um mastim feroz digno dos cordeirinhos, chamado Resistência, adotado como mascote do acampamento. Veja a foto desta coisinha, toda trêmula e encarangada de frio…

O pessoal do MST faz a guarda, ou “disciplina” do camping, mas a maioria é de gente, digamos, instruída. Universitários, professores, profissionais liberais. Professorada em peso, de Sampa, Rio, Palegre. A maioria estava lá pagando as despesas do próprio bolso – e muita gente fez questão de deixar isto claro.

Olhando sem mais nem menos, parece mesmo um caos aquela centena de barracas e puxadinhos de plástico espalhados em forma de cruz.

Mas existe uma disciplina férrea. Bebuns e arruaceiros sempre aparecem, quando são contidos, banidos e entregues à meganha que cerca o acampamento – cada um dos quatro cantos da cruz de ruas tem um destacamento da PM.

De manhã, hordas de fiéis fazem limpeza, recolhendo sacos de lixo, separando os recicláveis e varrendo as ruas, parece um santuário  – mesmo assim o youtube e o face tão cheio de vizinhos reclamões.

Pra cada reclamão há um morador solidário. Dezenas de pessoas estão albergadas de graça nas casas de moradores simpatizantes do lulismo.

Uma parede inteira da última casa da rua Coutinho está tomada de banheiros químicos. Xixi na rua era o que mais apavorava os donos de algumas casas de jardins manicurados.

Tem uma na parte de baixo da cruz em que a grama está protegida por tocos envernizados e uma corda – os modernos peregrinos respeitam a propriedade privada.

QUEM SÃO ELES

A mais empolgada das cantoras do bom dia Lula é uma cearense que mora na Suíça e veio de lá pro acampamento.

Dona Kátia Primavera, uma professora aposentada da USP, chegou de Sampa numa carona com amigos mineiros que despencaram das Gerais só para a cantoria e a recolheram no caminho.

Um professor de inglês de Brusque trouxe mulher e filhas para as cerimônias.

Uma mãe curitibana levou quatro crianças Bárbara, Valentina, Gregório e Teodoro para a domingueira – o marido foi junto mas não quis sair na foto porque tem um cargo qualquer onde não pega bem ser lulista.

O professor catarinense Ricardo Pinho passou a madrugada lendo “A Elite do Atraso”, de Jessé Souza, “ Da Escravidão à Lava Jato” – leitura recomendada para quem quer entender a big picture política.

E tem os chinelões. Todo acampamento precisa dos humildes tarefeiros.

Gente que descasca batatas, faz sopão, quentão, cachorro quente, recolhe agasalhos, distribui sapatos para quem se molhou na chuva – o mais humilde deles tem na ponta da língua o discurso de defesa da democracia ante o avanço você sabe de quem.

Uma barraquinha Cult:  para quem quer escrever ou ler cartas em voz alta – dirigidas a Ele, é claro. Vive cheia. Todas às tardes há leituras, não se sabe se um dia Ele as receberá.

RELAÇÕES COM A IMPRENSA EM ALTO NÍVEL

Todo mstiano tem um olho para reconhecer repórteres na cena. Não hostilizam. Gostam de puxar papo, pra dar seus recadinhos.

Um deles, nas horas ociosas da vigília, numa rodinha de leituras, puxou um artigo de Demétrio Magnoli, em que o intelectual explica tim tim por tim tim como o processo contra Lula não é político, que sua condenação se deve a que o Brasil tem um Judiciário altivo, independente, isento – huuu, nessa hora o leitor foi vaiado.

A maioria das barracas traz uma mensagem política encapsulada.

“Demoracia Corintiana de Luto”, todo mundo sabe da paixão de Lula pelo Coringão.

“Lula vale a luta”.

Uma delas dá uma lição de direito baseado no Êxodo 23.2: “Não seguirás a maioria para o mal, nem deverás, numa demanda, para favorecer a maioria, torcer o direito”.

NINGUÉM ARREDA O PÉ

No sábado um juiz sem noção sapecou uma multa de 500 mil nos organizadores do acampamento – são trocentas entidades, do MST até um grupo de teatro amador de Guarapuava, difícil saber quem vai pegar a conta.

A multidão estava desafiante. A toda hora havia anúncios: “Chegando pessoal de Ribeirão Preto”. “Mais um ônibus de Minas”.

Um oficial aposentado da Brigada Militar gaúcha tomou o microfone da praça Olga Benário e deu seu brado  “quero Lula Livre”!

Praça Olga Benário? O que a mulher de velho comunista Luís Carlos Prestes tem a ver com isso? Alguém rebatizou o centro do acampamento, o encontro das ruas Coutinho e Matter, pichando o nome dela em letras garrafais no asfalto.

O acampamento é um repositório de queixas. Professoras se queixam de salários, a turma do campo pede reforma agrária.

 

Lula lá

LGBTs apresentaram suas demandas e circularam seguros entre a multidão – no ar, pura fraternidade. Ódio, só ao ódio: dois psicanalistas deram palestras concorridas, apontando nesta direção.

Um tal de André subiu no palanque para criticar o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, que foi à Justiça contra o Sintrasem (dos trabalhadores municipais grevistas na capital catarinense) e pediu uma vaia, prontamente atendido – não era ódio, só apoio de classe.

Falar, desabafar, cantar e pedir liberdade pra Lula virou uma cerimônia quase religiosa.

Acontece todos os dias desde que o juiz Sergio Moro mandou trancar Lula na sábado 7.

Impossível saber se a decisão dos fiéis é de continuar mesmo naquelas duas ruas fustigando a Justiça.

O mais provável é que Moro mexa os pauzinhos para que a juíza de execuções penais que é sua fiel seguidora isole Lula em alguma prisão de segurança máxima no Mato Grosso do Sul para desmobilizar os apoiadores.

Outro fator preocupante pro pessoal é a quase certeza de que a pena vai aumentar com mais processos.

Assim, Lula deve ficar preso até… bem, pelo menos até as chances d’Ele concorrer à presidência irem do alto das pesquisas para o beleléu.

SEM CELEBRITIES

Este domingo, dia nublado, amanheceu sem celebridades políticas – este pessoal gosta de aparecer depois do almoço e em tempo de, se der, pintar em algum noticiário.

Manuela Davila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), cujos nomes ele aparentemente ungiu como seus apóstolos, estavam em outros compromissos.

Ao anoitecer, a cantoria se repete, quando é hora do “Boa noite, Lula!”.

Advogados e familiares contam para Lula do apoio popular, ainda pequeno, mas crescente.

Dizem que ele se emociona e chora ao saber como o povo está se mobilizando na defesa dele, apenas um cidadão comum.

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