Lula vira o jogo nos EUA, tratora bolsonaristas e cala mídia que dizia que o governo “acabou”

Atualizado em 8 de maio de 2026 às 10:46
Lula e Trump na Casa Branca

O ponto de partida era desfavorável. A rejeição do nome de Jorge Messias ao STF e a derrubada dos vetos presidenciais no PL da dosimetria consolidaram, nos corvos, a percepção de um governo acuado. Congresso, imprensa e setores do “sistema” político passaram a operar com a leitura de que o Lula acabara.

Era um pato manco.

Mark Twain é autor daquela famosa tirada depois de os jornais americanos publicarem seu obituário: “Os boatos sobre a minha morte são muito exagerados”.

A viagem a Washington não era apenas agenda internacional. O encontro com Donald Trump, por si só, já representava uma resposta à descrença interna, mas o efeito dependeria da forma como seria conduzido. Lula alterou o protocolo, antecipou a reunião de trabalho e reorganizou a agenda.

Deu todas as cartas. O cachorro louco Marco Rubio estava dando uma bola de futebol americano de cristal para um incrédulo papa Leão XIV. O tatuado Pete Hegseth, secretário de Defesa, estava sabe Deus onde.

Lula saiu da reunião afirmando estar “muito satisfeito” e ainda deu conselhos ao imperador: “Eu sempre acho que a fotografia vale muito e vocês perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia e eu fiz questão de dizer para ele: ria um pouco, é importante, alivia a nossa alma se a gente rir um pouco”.

As fotos com Trump, marcadas por sorrisos e cordialidade, passaram o recado.

O que era para durar 45 minuto durou três horas. Trataram de terras raras, minerais críticos, tarifas comerciais e estratégias de combate ao crime organizado. Também foi definida a criação de grupos de trabalho com meta de apresentar propostas conjuntas em trinta dias, abrindo frentes de negociação que extrapolam o encontro pontual.

Ao final, Lula optou por uma coletiva própria, sem dividir o palco ou participar do circo trumpista.

A viagem cumpriu um papel que já era antecipado nos bastidores: dilatar o prazo para decisões internas e aliviar a pressão. Em um ambiente em que o governo vinha sendo pressionado pelo Congresso e por articulações envolvendo STF e Senado, a agenda externa distensionou tudo.

Enquanto a mídia se refestela no Banco Master e seus desdobramentos, preparando Powerpoints, Lula abriu um espaço de retomar a — perdão — narrativa.

A poucos meses da eleição presidencial, na qual o governo buscava reativar a interlocução que o bolsonarismo outrora desfrutou com representantes da extrema direita na Casa Branca, o governo brasileiro alcançou um feito diplomático enorme.

Adicionalmente, o momento político nos Estados Unidos, com os EUA iniciando a retomada da agenda internacional de Trump após o desastre no Irã, contribuiu para o cenário favorável. A comitiva americana contava com o vice-presidente JD Vance, que se manteve calado, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e a chefe de gabinete, Susie Wiles.

Para este ano, não há expectativa da presença de Trump ou de qualquer membro de sua comitiva no Brasil. Embora exista um convite formal, é improvável que a visita se concretize antes de dezembro. Diversos fatores pesam nessa decisão, incluindo a Copa do Mundo nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato e, principalmente, a campanha eleitoral brasileira. 

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.