“Macho alfa'”: tenente-coronel cobrava que PM morta fosse “fêmea beta obediente e submissa”

Atualizado em 19 de março de 2026 às 7:16
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e a soldado Gisele Alves. Foto: reprodução

Mensagens obtidas pela investigação revelam que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso sob acusação de feminicídio, se apresentava como “macho alfa” e exigia que a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, fosse “obediente e submissa”. O conteúdo, extraído de conversas de WhatsApp, integra o inquérito da Polícia Civil que apura a morte da vítima, ocorrida em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, em São Paulo.

Segundo os investigadores, as mensagens evidenciam um comportamento controlador e autoritário. Em uma delas, o oficial afirma: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

O teor das conversas também inclui imposições sobre a rotina da vítima, como restrições a roupas e interações sociais. “Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços”, escreveu. Em outra mensagem, declarou: “Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto”.

A investigação aponta ainda que o oficial estabelecia regras rígidas no relacionamento, baseadas na ideia de controle e submissão, como discursos redpill.

As mensagens trocadas entre o tenente Geraldo e a PM Gisele Alves. Foto: reprodução

“Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito… Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir”, escreveu. Ele também afirmou: “Se você quer ter liberdade, não fique casada” e “são as minhas regras e do meu jeito”.

Em outro trecho, o coronel associa a condição de provedor à exigência de relações íntimas. “Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo”. Ao responder críticas da esposa, afirmou: “Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano”.

Para o Ministério Público, o conjunto das mensagens reforça a motivação do crime, classificado como feminicídio por envolver violência baseada na condição de gênero. A denúncia sustenta que o oficial matou a esposa por ciúmes e possessividade e tentou simular suicídio ao manipular a cena do crime.

A Justiça aceitou a denúncia e decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, que está detido no presídio militar Romão Gomes. O caso deve ser julgado pelo Tribunal do Júri, responsável por crimes dolosos contra a vida, e a Promotoria pede indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima.

A defesa nega as acusações e afirma que o caso deve ser analisado pela Justiça comum. O episódio ocorre em um contexto de endurecimento das leis contra feminicídio, que passou a ter pena de até 40 anos de prisão no Brasil.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.