Macklemore, o rapper do bem

Defensor da homossexualidade e adepto das compras no brechó, ele é um fenômeno não só na esfera musical, mas na ideológica também.

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“Quero ser respeitado pela forma como trato as pessoas”

Rapper. Se eu disser rapper, o que vem em sua cabeça? Sim, vai depender. Se falarmos de Estados Unidos é provável que você imagine um cenário com carrões, mulheres bundudas e dentes de ouro; se falarmos de Brasil talvez você logo ouça letras politizadas em tom de desabafo hostil. Mas isso não é regra, claro. São apenas esteriótipos e esteriótipos são perigosos. No entanto, por mais que você ouse na imaginação, dificilmente fantasiaria um defensor da homossexualidade e que gosta de fazer compras no brechó. Isso seria apenas uma piada tosca se Macklemore não existisse.

Macklemore é um rapper americano que está em atividade desde 2000. Talvez você esteja com dificuldade de reconhecer o nome, mas certamente não terá quando ouvir a faixa Thrift Shop ou Can’t Hold Us. No Brasil suas músicas ganharam proporções interessantes, mas foi nos Estados Unidos, Europa e Austrália que o artista realmente bombou, alcançando o topo de diversos rankings musicais por várias semanas consecutivas. No domingo, dia 25, o artista conquistou três astronautas no VMA (Melhor Vídeo de Hip-Hop, Melhor Cinematografia, Melhor Vídeo com Mensagem), uma das maiores premiações musicais do mundo, coroando o grande momento de sua carreira.

Ben Haggerty, seu nome verdadeiro, nasceu em 19 de junho de 1983 em Seattle, Washington. Sua família não tinha raízes musicais, mas seus pais sempre incentivaram o desenvolvimento desse talento no filho. Desde pequeno Haggerty ouvia Hip-Hop e seu primeiro contato com o gênero foi através do grupo Digital Underground. Crescendo no universo do Hip-Hop junto de seus amigos, Macklemore começou a escrever letras com 14 anos, mas somente em 2000 lançou seu primeiro EP, Open Your Eyes, sob o nome de Professor Macklemore. Quando seu álbum de estréia saiu em 2005, no entanto, o “Professor” já havia sido abandonado pelo rapaz.

Mas foi a partir de 2010 que Macklemore começou a ganhar mais notoriedade. Um pouco antes dessa época, ele iniciou a parceria com o DJ produtor Ryan Lewis, que até hoje é seu grande companheiro musical. É impossível e injusto falar de um sem falar do outro. Juntos eles atingiram bons resultados com suas músicas. No entanto, foi somente em outubro do ano passado, com o lançamento do álbum independente The Heist, que a dupla explodiu e se tornou um fenômeno mundial. O disco vendeu mais 78,000 cópias em menos de um mês e é top 10 na lista dos discos mais vendidos em 2013. Já o clipe de Thrift Shop tornou-se viral e teve mais de 400 milhões de visualizações no YouTube.

Macklemore tem chamado a atenção não apenas pela qualidade musical de seu trabalho (que nunca recebeu apoio de gravadoras), mas também pelo conteúdo ideológico que suas músicas carregam. Seu som que tem causado mais polêmica é Same Love, que defende o relacionamento homossexual. No evento de domingo, após receber o prêmio de Melhor Vídeo com Mensagem por essa canção, o rapper fez um discurso onde disse: “Direitos dos gays são direitos humanos, não tem separação.” O clipe é chocante para muitos, pois tem como tema o casamento gay, já que a música foi realizada quando um projeto de legalização do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo estava para ser aprovado em Washington. A canção divide opiniões: muitos admiram, enquanto outros criticam, colocando em cheque sua identidade sexual. Mas, quanto a isso, Macklemore diz não se preocupar nem um pouco.

As letras inteligentes, no entanto, não se limitam a Same Love: diversas outras composições refletem o conteúdo relevante dos questionamentos do rapper. Em seus clipes com produções e roteiros impressionantes, Macklemore demonstra seu talento teatral enquanto indaga sobre valores da sociedade. Mas ele constrói suas obras de forma inteligente. Às vezes utiliza de ironia, às vezes usa liguagem literal. Em Wings, o artista bota em cheque – simplesmente – o ideal americano do jogador de basquete, que, de certa forma, acaba patrocinando o consumo quase que obrigatório de produtos do ramo.

Parece que Macklemore sempre teve esse empenho em fazer a diferença de alguma forma. No começo de sua carreira ele realizava workshops musicais em um programa cultural educacional chamado Gateways for Incarcerated Youth (que trabalhava com jovens presidiários) com o intuito de influenciar positivamente os adolescentes com sua música. Em um documentário o músico falou sobre o seu desejo de superar a dificuldade com substâncias ilícitas (ele foi para uma clínica de reabilitação em 2008) pois queria ser alguém que é respeitado não apenas musicalmente, mas também pela forma como trata as pessoas. O cara é diferente, destemido e talentoso. Separamos um depoimento que ele deu ao portal The Independent que pode resumir um pouco de seus ideais que tantos admiram. Inclusive nós. Senhores, Macklemore por ele mesmo:

“Eu quero ser um artista que escreve sons diferentes. Eu não quero escrever a mesma coisa que todos escrevem. Eu quero me desafiar, eu quero desafiar a sociedade, eu quero ser o melhor que posso e o jeito para fazer isso é me expressando e falando sobre coisas que ninguém vai falar, que as pessoas têm medo. Eu quero ser capaz de falar sobre essas coisas aberta e honestamente, quero ser capaz de me descobrir e ajudar aqueles que ouvem meu trabalho a se descobrirem também”.

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