Macron diz em Davos que EUA querem subordinar a Europa: “Preferimos respeito”

Atualizado em 20 de janeiro de 2026 às 12:10
O presidente da França, Emmanuel Macron no Fórum Econômico Mundial. Foto: Reprodução

O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou nesta terça-feira, em Davos, que a Europa “não deve hesitar em usar os instrumentos de que dispõe” para defender seus interesses. A declaração foi feita durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, num momento de desgaste diplomático provocado pela divulgação de mensagens privadas e pela intensificação das ameaças comerciais de Donald Trump, às vésperas do aguardado pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no evento.

Diante de uma plateia atenta, Macron criticou a concorrência norte-americana e afirmou que ela busca “subordinar a Europa”. Segundo ele, o continente precisa resolver seus próprios problemas estruturais, com foco em inovação e aumento do investimento privado em setores estratégicos.

Sem citar Trump nominalmente, Macron deixou recados claros. Abriu o discurso dizendo que vivemos um “tempo de paz, estabilidade e previsibilidade”, frase que arrancou risos do público. Em seguida, afirmou que o mundo se aproxima da “instabilidade e do desequilíbrio” e que o conflito passou a ser tratado como algo normal.

Ao mencionar que 2025 foi marcado por dezenas de guerras, ironizou: “Ouço dizer que algumas delas foram resolvidas”. Mais adiante, voltou ao tema ao afirmar que “não é tempo de novo imperialismo nem de novo colonialismo”, mas de cooperação para enfrentar grandes desafios globais.

“Preferimos respeito a intimidações”, concluiu. “E preferimos o Estado de Direito à brutalidade.”

“Meu amigo, eu não entendo”

O discurso ocorre após Trump divulgar mensagens privadas nas quais Macron demonstra perplexidade com a questão da Groenlândia e com a proposta de um encontro do G7 em Paris, nesta quinta-feira, com a participação de representantes russos à margem das reuniões.

Nas imagens publicadas na rede Truth Social, Macron sugere sediar uma reunião com “ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos” e convida Trump para um jantar em Paris. Em uma das mensagens, escreve: “Meu amigo… eu não entendo o que você está fazendo com a Groenlândia. Vamos tentar construir coisas grandes”.

As mensagens vieram à tona depois de Macron recusar o convite para integrar a iniciativa de Trump chamada “Conselho da Paz”. Em resposta, o presidente norte-americano ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses.

“Ninguém o quer, porque ele vai sair do cargo muito em breve”, disse Trump a jornalistas na segunda-feira. “Vou impor tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes dele e ele vai aceitar.”

Antes do discurso em Davos, o Palácio do Eliseu foi direto ao criticar a estratégia tarifária de Trump. Segundo a presidência francesa, tarifas não resolvem problemas globais nem desequilíbrios econômicos. Autoridades descreveram a abordagem como coercitiva, contrária à cooperação e estruturalmente equivocada. Ao mesmo tempo, ressaltaram que os movimentos de Trump reforçam a defesa antiga de Macron pela autonomia estratégica europeia.

Emmanuel Macron e Donald Trump. Foto:Al Drago/Reuters

Cúpula emergencial e mecanismos de resposta

A participação de Macron em Davos coincide com a cúpula extraordinária da União Europeia marcada para quinta-feira, o mesmo dia em que ele propôs receber Trump em Paris para um jantar e uma reunião ampliada do G7.

Autoridades francesas lideram a reação europeia e defendem a ativação do instrumento anticoerção da UE, um mecanismo de emergência que pode limitar a atuação de empresas dos EUA no mercado europeu.

Na segunda-feira, Trump concordou com a realização de um encontro em Davos durante conversa com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, mas afirmou que não há possibilidade de recuo no controle norte-americano sobre a Groenlândia, que considera essencial para a segurança dos Estados Unidos e do mundo.

No domingo, Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, relacionando suas exigências sobre a Groenlândia ao fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Na mensagem, compartilhada com outros líderes da Otan, afirmou que, “considerando que seu país decidiu não me conceder o Nobel da Paz por eu ter encerrado oito guerras ou mais, não me sinto mais obrigado a pensar apenas na paz”.

Støre respondeu lembrando que o governo norueguês não concede o prêmio, atribuição do Comitê Nobel, órgão independente. O Nobel da Paz de 2025 foi concedido à líder da oposição venezuelana María Corina Machado, que apresentou simbolicamente sua medalha a Trump na Casa Branca na semana passada. Pelas regras do instituto, o título não pode ser transferido, embora medalhas já tenham sido doadas ou vendidas em outras ocasiões.

“Para permanecer livre, é preciso ser temido”

O embate em torno da Groenlândia ocorre após Macron prometer reforçar a presença militar francesa na região do Ártico. Cerca de 15 soldados franceses já participam de exercícios em Nuuk, com reforço previsto de meios terrestres, aéreos e navais.

Em discurso recente na base aérea de Istres, Macron afirmou que 2026 será um ano difícil para a defesa francesa e confirmou planos de gastar € 36 bilhões adicionais entre 2026 e 2030. “Para permanecer livre, é preciso ser temido; e para ser temido, é preciso ser poderoso. Neste mundo brutal, precisamos agir com mais rapidez e força”, declarou.

O discurso de Macron será seguido, nesta quarta-feira, pelo pronunciamento especial de Trump, que deve dominar o fórum, encerrado na sexta-feira. Ainda não está claro se o presidente francês permanecerá em Davos para um possível encontro com Trump, embora fontes próximas não descartem sua participação em discussões sobre a Ucrânia.

Veja trechos do discurso de Macron: