Mães solteiras e seus filhos não formam uma família? Por Nathali Macedo

Solteira, Gloria Maria adotou duas filhas
Solteira, Gloria Maria adotou duas filhas

Foi uma semana difícil para os defensores da igualdade no Brasil. Por 17 votos a 5, a Câmara dos Deputados decidiu que o conceito de família está restrito a núcleos familiares formados por um homem e uma mulher.

Isso não significa apenas um retrocesso dos direitos homoafetivos e da igualdade. Significa que mães solteiras e seus filhos não formam uma família; avós que criaram seus netos não formam uma família; irmãos órfãos que se cuidam mutuamente não formam uma família.

Segundo pesquisa do Instituto Data Popular, 31% das mães brasileiras são solteiras. Vinte milhões de mulheres que são, de fato, a única referência de família de seus filhos e não foram reconhecidas como tal pelo Estado. É oficial: nosso país cria leis que nos violentam.
Há apenas uma coisa que espanta mais do que a proporção assustadora de votos: o argumento utilizado para a aprovação. Segundo o Deputado Federal Diego Garcia (PHS), “relações de afeto” não podem ser a base para decidir o que é uma família.

Além de paradoxalmente contrariar toda a lógica do próprio direito de família, assusta a incoerência desse argumento. Senão o afeto, o que mais pode ser considerado para que se determine o que é uma família? Laços sanguíneos, ignorados todos os dias por pais que abandonam seus filhos biológicos?

Este é o resultado do lamentável avanço da bancada evangélica: a religião tem ditado as regras. E a aprovação deste projeto é a prova de que não existe coerência quando decisões políticas são influenciadas por ideologias religiosas. É uma prova de que o fundamentalismo é o novo câncer da política brasileira, que vem se espalhando silenciosamente e tomando proporções inacreditáveis. É a demonstração clarividente de que a guerra entre o conservadorismo e a igualdade tem atingido a todos nós indistintamente.

A aprovação do estatuto da família é um claro ataque aos direitos homoafetivos, mas representa, no plano prático, muito mais do que isso: a involução do conceito de uma das mais importantes instituições sociais. Isso não atinge apenas as famílias – sim, famílias – homoafetivas, mas a todas as famílias não nucleares do Brasil, e o Congresso Nacional sabe disso. Mas a vitória do conservadorismo é e sempre será o mais importante.

Oficialmente, a bancada evangélica venceu a coerência.

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