Maia como vice de Lula é um delírio insustentável. Por Carlos Fernandes

Uma vez livre, o mundo político volta todos os olhares para cada passo que Lula decide tomar.

A reunião que está prometida para acontecer entre o ex-presidente e Rodrigo Maia abriu a temporada de especulações para as eleições presidenciais de 2022.

O surgimento da hipótese que Lula procura no presidente da Câmara dos Deputados o seu vice é tão inócua quanto irresponsável.

Imaginar que um político de tamanha experiência iria queimar a largada num debate dessa magnitude faltando tanto tempo para 2022 e sem sequer saber se de fato poderá concorrer, é subestimar demais o político que levou o Partido dos Trabalhadores a quatro vitórias presidenciais consecutivas.

Muito mais razoável é compreender que Lula procura Maia, o homem responsável pela pauta da Câmara, para tentar costurar um acordo que vise barrar as atrocidades do governo Bolsonaro que com tanta facilidade vem sendo aprovadas no Congresso.

Esse sim um gesto político de diálogo pluripartidário responsável e de combate efetivo às medidas ultraliberais do governo Bolsonaro.

Fora tudo, o ex-presidente sabe a rejeição que uma chapa Lula/Maia encontraria na sua base.

A essa altura do campeonato, com tudo o que essa gente fez contra a democracia desse país, não seria inteligente provocar aqueles que tanto lutaram por sua liberdade.

E o episódio da golpista Marta Suplicy como possível candidata do PT à prefeitura de São Paulo está aí para mostrar as consequências.

Como se vê, tudo não passa de meras especulações e é natural que elas existam. Afinal, ninguém pode ser ingênuo o suficiente para imaginar que algum partido de esquerda chegue ao poder em 2022 de forma isolada.

E aqui chega-se ao cerne da questão.

Do ponto de vista tanto prático quanto político, o DEM de Rodrigo Maia nunca apareceu sequer como opção secundária.

Fora todas as barreiras ideológicas existentes, trata-se de um partido hoje sem muito poder de voto nacional.

Maia, da mesma forma, apesar de político experiente e com forte trânsito no Congresso, não possui inserção popular que lhe permita ensaiar voos além do que já lhe foi permitido.

Dessa maneira, se for para ter alguém de vice que não seja do campo progressista, que pelo menos seja alguém que tenha algo de mais consistente a oferecer.

É nesse ponto que a esquerda brasileira terá que quebrar alguns paradigmas.

Cruze-se os dados do TSE, do censo demográfico de 2010 e das pesquisas realizadas em 2018 para o segundo turno das eleições presidenciais e veremos que foi a comunidade evangélica que garantiu a vitória a Jair Bolsonaro.

Segundo as últimas pesquisas antes do pleito, Haddad ganhou em meio aos fieis de religiões de matrizes africanas, eleitores que se declararam sem religião e entre os ateus e agnósticos.

Bolsonaro por sua vez foi o preferido entre os evangélicos, espíritas e outras religiões.

Católicos apareceram rigorosamente divididos entre um e outro.

Detalhando-se os números, veremos que a maior disparidade de intenção de votos pró-Bolsonaro se deu justamente entre os evangélicos. Fatia da sociedade que a esquerda historicamente sempre teve mais dificuldade de diálogo.

Independentemente dos motivos que possam ser apresentados para essa questão, o fato é que chegamos a um momento em que uma eleição para presidente nesse país não pode ser vencida ignorando-se esse público.

Dessa forma, não importa qual seja o candidato, ter alguém na aliança partidária com forte influência na população evangélica, tornou-se uma condição que garante importante acesso a uma gigantesca parcela do eleitorado.

Tudo exposto, se a intenção é ganhar as eleições e banir Bolsonaro da vida pública, é preciso expandir o diálogo entre os mais diferentes estratos da sociedade.

E para isso, se for para ter um fariseu como Rodrigo Maia como vice, muito melhor que seja um evangélico.

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