Mais que pandemia, queda do PIB reflete política econômica do governo Bolsonaro, diz economista

O presidente, Jair Bolsonaro (PSL), e o economista Paulo Guedes (TV Globo/Reprodução – Daniel Ramalho/AFP)

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR CAROLINE OLIVEIRA

A retração do Produto Interno Bruto (PIB) em 1,5% no primeiro trimestre de 2020, conforme dados divulgados, nesta sexta-feira (29), pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não é uma surpresa, segundo a análise da especialista em economia social e do trabalho e mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Iriana Cadó.

Segundo a economista, o país já não tinha grandes perspectivas de crescimento antes mesmo da chegada da pandemia de covid-19.

De forma geral, ela explica, os cenários nacional e internacional já vinham sendo de recessão.“Não é uma grande surpresa que nós teríamos uma taxa muito baixa ou até mesmo em decréscimo como a gente viu agora”, afirma Cadó.

As projeções de baixo crescimento da economia começaram no período anterior à pandemia do novo coronavírus. A queda divulgada nesta sexta abrange apenas as primeiras semanas de isolamento social, em março, e a perspectiva é de os efeitos da pandemia apareçam de forma mais consistente no segundo semestre, com a expectativa de uma retração ainda maior, quando já serão contabilizadas as primeiras semanas de abril.

Políticas econômicas do governo vão na contramão

Para a economista, as políticas de austeridade do governo federal, encabeçadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, fazem “com que esses dados que estamos assistindo hoje, daqui a um mês, dois meses, três meses, sejam muito piores mesmo.

Há um estudo feito pela UFRJ que diz que no pior dos cenários a gente pode ter uma contração do PIB de 11% acumulado no ano, ou seja, se a gente somar todas as quedas”, alerta Cadó.

Isso significa, na leitura da economista, que parte dos resultados negativos poderia ser revertida se as políticas econômicas fossem mais efetivas e “contra-cíclicas”, ou seja, agissem no sentido de manter as políticas de transferência de renda, por exemplo, o que estimularia o  aumento do consumo, da produção e do emprego, mesmo em pequena escala, diante das medidas de isolamento social para conter a pandemia.

O que tem sido implementado, no entanto, é o contrário, o que explica a retração no setor industrial e de consumo das famílias.“[O governo] não tem colocado grandes perspectivas de manutenção da renda das famílias, ou seja, essas famílias não terão condições de fato de retomarem o consumo, então aprofunda esse aspecto de diminuição de consumo das famílias, e que tem desdobramentos para o conjunto da economia como um todo, por que se as famílias não consomem, não mantém a demanda e não há estimulo para a produção”, afirma Cadó.

Em relação ao consumo das famílias, que significa 65% do PIB, houve uma diminuição de 2%, o que representou o maior recuo desde a crise de energia elétrica, em 2001. No setor da indústria também houve um recuo, de 1,4%. De acordo com o IBGE, o recuo foi influenciado pelos seguintes destaques: setor extrativo (-3,2%), construção (-2,4%), indústrias de transformação (-1,4%) e atividade de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-0,1%).

Cadó também cita a “fatídica reunião ministerial”, na qual o ministro Paulo Guedes afirma que as pequenas e médias empresas não devem receber auxílio do governo federal, diferente das grandes empresas. “Os resultados de falas como essa ou de escolhas econômicas como essa se mostram nesses números, que vãos e aprofundar muito mais no próximo período.”

Isso porque, explica a economista, as pequenas e médias empresas foram responsáveis por 72% das vagas ofertadas no último trimestre de 2019, de acordo com o IBGE, por exemplo. “Se você não salva esses setores você joga um contingente enorme de pessoas numa situação de nenhuma possibilidade de manter demanda, consumo”, afirma Cadó.

Sistema de Contas Nacionais Trimestrais

De acordo com o IBGE, a retração da economia também pode ser explicada principalmente pela diminuição de 1,6% nos serviços, setor que tem um impacto de 74% do PIB.

Nessa área, os destaques são todos negativos: transporte, armazenagem e correio (-2,4%), informação e comunicação (-1,9%), comércio (-0,8%), administração, saúde e educação pública (-0,5%), intermediação financeira e seguros (-0,1%), outros serviços (-4,6%). O único destaque positivo foi para as atividades imobiliárias, com um aumento de 0,4%.

A queda do resultado do PIB, interrompe uma sequência de quatro trimestres em crescimento, sendo o menor resultado no período desde o segundo trimestre de 2015, quando houve uma queda de 2,1%. Sendo assim, a economia brasileira se encontra, em termos de PIB, no mesmo nível do segundo trimestre de 2012. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, houve um recuo de 0,3%.

A agropecuária foi um dos únicos setores que apresentaram um aumento (0,6%), ao lado do setor de investimentos, que cresceram 3,1%. Segundo o IBGE, este segundo aumento foi puxado pela importação líquida de máquinas e equipamentos pelo setor de petróleo e gás – diferente da produção nacional de máquinas e equipamentos, que diminuiu. Isso também representou uma queda de 0,9% nas exportações de bens e serviços e um aumento de 2,8% nas importações de bens e serviços.

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