Make balbúrdia great again: estudante conta como revolta contra cortes na Educação tomou Curitiba

Cerca de 10 mil curitibanos defendem sua universidade, faculdades e educação (Foto: Paulo Rafael)

POR RAFAEL GARCIA RIBEIRO, ESTUDANTE DA UTFPR

Ô Bolsonaro, presta atenção.
Balbúrdia é cortar da educação
(grito entoado em Curitiba, em frente a um prédio da UFPR, na última quarta-feira (8))

Como em muitas das aulas a que fui na vida, cheguei atrasado ao ato organizado pelo Movimento Estudantil em protesto aos cortes anunciados pelo governo Bolsonaro, marcado para as 18h da última quarta-feira, em Curitiba.

Cheguei lá pelas 18h35. No caminho, vi algumas pessoas com agasalhos da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e bandeiras passando por mim. Fiquei com medo de ter me atrasado demais. Ao chegar lá, no entanto, na Praça Santos Andrade, em frente ao prédio histórico da universidade, local combinado para o encontro, eu me deparei com uma cena linda, linda: mesmo no escuro, dava para ver que a praça estava cheia, uma miríade de bandeiras e cartazes coloriam o frio começo de noite curitibano. Dez mil estudantes, professores e simpatizantes da luta pela educação pública e gratuita no Brasil, que sofre um terrível ataque de quem deveria defendê-la e promovê-la.

Enquanto eu me dava conta do tamanho do ato, comecei a notar o que gritava em uníssono a maior parte dos presentes:

“A nossa a luta é todo dia!
Educação não é mercadoria!”
.

Poucos minutos depois, o coro gritava:

Ô Bolsonaro, presta atenção.
Balbúrdia é cortar da educação!“.

E os gritos foram mudando; alguns ganhavam mais adesão, principalmente os mais bem humorados, que não economizavam nos palavrões – mas, né, quem pode culpar os estudantes por estarem exaltados diante desta situação esdrúxula?

Estudantes em frente à UFPR, em Curitiba. Movimento sem bandeiras de partidos (Foto: Paulo Rafael)

E assim, aos poucos, o grupo começou a sair da praça pela Avenida Marechal Deodoro. Eu, que ainda estava sozinho e tirando várias (péssimas) fotos e gravando vídeos, comecei a notar que minha bateria estava prestes a acabar e comecei a procurar por alguns amigos.

Até encontrá-los, passei por muitas pessoas: rostos conhecidos dos colegas de balbúrdia nos bares da Sete de Setembro; galera da militância partidária, principalmente PSOL e PCB; caras cabeludos e meninas carecas; patricinhas e mauricinhos; nerds com visual mais comportado e agasalho do curso; professores queridos e outros nem tanto; duas meninas de mãos dadas, uma delas de óculos escuros e segurando uma guia para deficientes visuais – que depois postou um lindo depoimento sobre como se sentiu segura naquele mar de gente; enfim, gente de todo tipo unida na luta pelo direito de estudar, dar aulas ou mesmo pelo direito de ter um país que acredita na capacidade de seu próprio povo de se aprimorar para o mercado de trabalho, sim, mas também de produzir ciência e tecnologia e de pensar, com todo rigor do método científico e com toda liberdade e pluralidade que ainda são garantidas pela Carta de 1988, uma sociedade mais livre e justa.

Bom, minutos depois de meu celular desligar por falta de bateria e eu perder a esperança de encontrar meus amigos no meio da multidão, avistei uma grande amiga que, após me cumprimentar efusivamente, foi logo me dizendo que se a foto dela aparecesse na Gazeta [do Povo], ela perderia o emprego.

Caminhamos pela Marechal atrapalhando o trânsito – o que era justamente a ideia; não atrapalhar por atrapalhar, mas garantir que seríamos notados, claro – e, estranhamente, recebendo mais gritos de encorajamento (em geral passantes no sentido contrário e pessoas nas janelas engrossavam nosso coro, repetindo o que gritávamos) do que buzinadas ou gritos de ódio. Aliás, não ouvi um único grito de ódio sequer, o que achei bem estranho numa cidade que é a capital mais fria do país e que confiou 76,54% de seus votos válidos ao nosso glorioso líder.

De qualquer maneira, os gritos estavam lá:

Ô Bolsonaro, vai se fuder.
Os estudantes não têm medo de você!

Trabalhador, venha pra rua;
Esta luta também é sua!

Trabalhador, presta atenção.
O Bolsonaro tá do lado do patrão!” (este o meu segundo favorito)

Fora, Bolsonaro!” (este o meu favorito)

Respeito os que querem ver Bolsonaro tirado pelo voto em 2022 e que já me apresentaram várias razões convincentes de por que esperar, mas confesso que vibrava e gritava mais alto o bom e simples “Fora, Bolsonaro!”

Bolsonaro conseguiu colocar os estudantes de volta nas ruas  (Foto: Milton Alves)

Para não dizerem que sou enviesado (o que seria verdade), muitos estudantes pareciam incomodados com a presença de militantes claramente identificados com seus partidos políticos por bandeiras, camisetas, broches e adesivos, que, apesar de puxarem a maioria dos gritos e palavras de ordem, não demonstravam neles sua identificação partidária.

Alguns conseguiram emplacar uns “Tira os partidos!”, mas receberam uma rápida (e malandra, alguns diriam) resposta com “Tira Bolsonaro”. Tudo que conseguiam era reforçar o coro do “tira”; “os partidos” era praticamente inaudível diante do coro de “Bolsonaro” – sempre precedido pelo “tira”, só para deixar bem claro.

Era óbvio que, assim como eu, muitos ali eram novatos de protesto, mas isso só me deixava mais animado. Minha amiga me disse que tinha medo que aquilo virasse um novo 2013, que gerou crias como o MBL (Movimento Brasil Livre), o golpe e, por que não, o próprio fenômeno Bolsonaro.

Eu, meio tímido por contrariar uma veterana que já havia até organizado atos como aquele – sim, a mesma com medo de perder o emprego; com medo, mas ali, protestando -, disse que aquilo fazia sentido, mas que tinha bastante esperança ao ver cartazes e faixas contrários também à reforma da previdência e, mais do que isso, nos já mencionados gritos de “Fora, Bolsonaro”.

Disse que acreditava que a ultrapolítica olavete é insustentável e se autofagocitaria; que muitos ali protestariam contra quem quer que vissem como o sistema; ora, é inevitável, eventualmente, que se enxergue o presidente da República e seus lacaios como parte dele.

Bem, o que era para ser um relato está virando uma peça de opinião. É a primeira vez que escrevo para um veículo de comunicação e peço que me deem uma colher de chá e perdoem qualquer deslize.

Voltando ao protesto em si, seguimos até a Praça Rui Barbosa, importante ponto de conexão de linhas de ônibus no Centro de Curitiba, sempre gritando e recebendo muito apoio, mas também muitos olhares perplexos e silêncio.

Um pouco antes de chegarmos lá, um motoqueiro acelerou e subiu na calçada para desviar da multidão, fez muito barulho, mas, no final, não foi nada; e isso foi a maior demonstração de repúdio que eu notei.

Mas, de novo, 76,54% das pessoas por quem passávamos – talvez mais, visto que estávamos no centro e muitos trabalhadores já haviam voltado para os bairros e para a região metropolitana – provavelmente haviam votado em Bolsonaro.

Ao chegar na frente da rua da Cidadania Matriz, pequeno complexo de prédios já fechado no horário, que abriga o Restaurante Popular e diversos outros serviços públicos, bem como bastante comércio ambulante, éramos esperados por dezenas de policiais militares, muitos de moto e/ou armados com escopetas calibre 12, muito provavelmente carregadas com munição não letal (espero).

Muitos manifestantes demonstraram estar claramente incomodados, mas tudo correu bem.

Foi ali que, depois de um lindo discurso de uma talentosa oradora que não notei o nome, feito em sua maioria sem megafone, à la Lula, sendo repetido pelos próximos e passado adiante no berro, e da pequena gafe de um de seus companheiros de “palco” – eles haviam subido numa mureta – que não conseguia de jeito algum dizer UTFPR (por isso muitos ainda chamam a instituição criada no final do primeiro governo Lula de CEFET, antigo nome de uma instituição bem menor que foi expandida por todo Paraná; CEFETÃO, para os mais íntimos) -, partimos em direção da UFT.. UTTF.. TFP.. UTFPR.

Assim que a marcha recomeçou, alguns bem intencionados, mas provavelmente calouros de protesto, começaram a gritar “Fala baixo pro hospital”. Estávamos chegando perto da Santa Casa, e os gritos em poucos segundos forma substituídos por “shh” e passamos, para minha surpresa, em quase absoluto silêncio pela frente do hospital.

A partir daí, tudo seguiu um roteiro parecido com o começo, a não ser por outra demonstração de organização quando o grupo rapidamente abriu caminho para uma ambulância um pouco antes do CEFETÃO. Passamos por lá, alguns alunos e professores demonstraram apoio. e muitos, de fato, não esboçaram muita reação.

Quando o pessoal começou a passar do Shopping Estação, minha amiga e eu conversamos sobre como os comércios – restaurantes, gráficas, papelarias e o próprio shopping – nos arredores da Universidade sofreriam caso os cortes causassem a interrupção das aulas.

Lembrei de vários restaurantes que fecham nas férias e fecharam durante a greve de 2013 – para quem diz que a “balbúrdia” é só porque é o Bolsonaro, teve uma greve gigante em 2013. Assim que vimos que estávamos perto das 21h, eu tinha que entregar este texto e ela tinha que preparar umas coisas para o trabalho, e que muitos estavam indo embora, decidimos partir também.

Animados com o que vimos e tendo aceito o convite de participar de um novo protesto que acontecerá nesta sexta-feira, às 17h, na frente do Palácio Iguaçu. Mas não sem antes pararmos no Boteco do Didi, a duas quadras da Universidade, tomarmos uma cerveja e, roucos, batermos papo por mais uma hora, mais ou menos. Ah, a balbúrdia…

 

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