
Por Aldo Fornazieri
A última pesquisa Datafolha para o segundo turno, na qual Flávio Bolsonaro aparece com 46% e Lula com 45% — número que se repete se a eleição fosse disputada com Ronaldo Caiado ou com Romeu Zema, que aparecem com 42% — surpreendeu muita gente e semeou um sentimento de apreensão no governo e nos partidos governistas. Mas não surpreendeu os poucos analistas que vêm adotando um olhar crítico, chamando a atenção para a falta de comando, de sentido e para a apatia política no terceiro mandato de Lula.
O governo adotou uma embocadura errada desde o início. Assumiu de forma desprevenida, sem aquela prontidão estratégica que se exige de quem tem o controle do poder político. Foi surpreendido pelo 8 de janeiro, o que revelou falta de prudência e de capacidade preditiva.
Na sequência, o governo e o campo político-partidário que o apoiam adotaram um rosário de renúncias de protagonismo político, terceirizando a luta pela democracia e contra o golpismo ao STF. Negaram-se a impor uma derrota política ao bolsonarismo por tudo o que ele representava de mal nas várias oportunidades que surgiram.
O defensivismo político, com repercussões graves na comunicação e na articulação política no Congresso, foi a marca desse governo e do agregado de centro-esquerda. Não dirigiram o bloco de aliança que se estendia ao centro. Deixaram-se dirigir pelo centro.
Outro erro de embocadura consistiu em que o governo Lula 3 não se assumiu como um governo novo e inovador, capaz de colocar em marcha projetos concernentes à inovação e à mudança. Colocou sua fantasia no passado, na repetição de fórmulas que já tinham dado adeus, pois a realidade dos fatos e o rumo dos ventos haviam mudado.
Entre os governos petistas do passado e 2023, aconteceu o aprofundamento da revolução tecnológica, da revolução digital e robótica, a uberização das relações de trabalho, a informalização, novas leis e novas relações de trabalho, mudanças na composição e estratificação social, mudanças culturais, emergência da extrema-direita, fragmentação social… Em pouco tempo, o mundo, em suas coisas e relações humanas, tornou-se outro.
O governo Lula 3 nunca teve um comando político estratégico, um estado-maior dirigente que fizesse uma gestão diária da política, dos riscos, das insuficiências, dos embates, da governança e das crises. A crise do PIX é o exemplo mais evidente dessa falha.

O governo e os partidos de sustentação não perceberam que, aos poucos, foi se instaurando um mal-estar social, produto de múltiplos fatores. O problema do endividamento das famílias é apenas um deles. O governo foi incapaz de percebê-lo a tempo. Só agora soou o alarme. O índice de endividamento é monitorado mensalmente e, há meses, ele vem alto. Quer dizer: o governo dormiu no ponto.
A lista é longa: corrupção com as emendas, escândalos do Master e do INSS, penduricalhos e supersalários, endividamento com as bets, controle da inflação em um patamar alto dos preços dos produtos e juros elevados, feminicídios, violência, facções criminosas e crise na segurança pública, degradação ambiental e crise climática, secas e desastres naturais, alta tributação, falhas na saúde e no saneamento, tarifaço e guerras externas.
Embora o governo não esteja ligado a nenhum dos principais escândalos de corrupção, a falta de um posicionamento claro fez com que eles, de alguma forma, resvalassem para o seu colo. O governo e o PT, traumatizados psicologicamente, foram incapazes de assumir de forma assertiva a agenda republicana do combate à corrupção, aos penduricalhos e aos privilégios. Parte dessa agenda ficou com a oposição, que apresenta diariamente Lula e o PT como corruptos.
O resultado desse conjunto de problemas produziu um ambiente de mal-estar social, caracterizado por angústias, insatisfações e sofrimentos generalizados. O desalento político, a desconfiança nas instituições e níveis elevados de ansiedade potencializam as sensações de degradação moral e social. Uma pesquisa do Datafolha captou esses sentimentos: 59% dos brasileiros se sentem tristes, 61% estão desanimados e 61% sentem medo em relação ao futuro. A pesquisa do IBGE com os adolescentes é aterradora: entre outros indicadores ruins, 22% dos jovens sentiram vontade de se machucar.
O problema das bets vai além do gasto e do endividamento. Vicia os jovens e cria uma saída desastrosa para os idosos de baixa renda. Irritabilidade, sentimentos de culpa, insônia, ansiedade, depressão e aumento do risco de suicídio são algumas consequências doentias que esse crime legalizado proporciona.
Esse ambiente de mal-estar não será superado com a promessa de “picanha com cerveja”. Desde Aristóteles, sabe-se que a felicidade de uma polis requer a combinação de bens materiais com bens espirituais; desde Maquiavel, sabe-se que o bom governo precisa combinar autoridade e liberdade e uma série de outros pares antinômicos; e, desde Gramsci, sabe-se que a hegemonia requer o atendimento das necessidades e dos direitos, combinado com uma sutura de natureza ideológica, ética, moral e cultural. Em outras palavras: o governo não tem uma narrativa, não mobiliza afetos e paixões. Não aponta um caminho, uma perspectiva de futuro, um viver comum melhor.
A sociedade está perplexa, desorientada e se sente abandonada. O governo não a ajuda a vislumbrar uma esperança, um caminho de superação. Essa omissão, essa ausência de caminhos, alimenta a ousadia crescente da oposição. Reclamar que ela mente e semeia o ódio chega a ser ridículo. Ela faz isso desde sempre. A pergunta que cabe fazer é: qual a estratégia das esquerdas para rebater esses ataques? A esquerda não pode ficar choramingando, dizendo “mamãe, o Flavinho roubou meu pirulito”.
Mais graves que os números das pesquisas eleitorais são os da avaliação do governo: a avaliação negativa vem consistentemente superando a avaliação positiva. No último Datafolha, 40% consideram o governo ruim ou péssimo, contra 29% que o consideram bom ou ótimo.
Em 2023 e 2024, embora a avaliação negativa tivesse números relativamente altos, ela não superava a avaliação positiva. A virada ocorreu no início de 2025 e, de lá para cá, a avaliação negativa se manteve mais alta do que a positiva. Nada de significativo foi feito para reverter essa tendência, que indica que a sociedade quer mudar.
O governo ainda tem tempo, meios, ativos, máquina e recursos para mudar esse jogo a seu favor. Os problemas estão na ausência de comando e de capacidade e na construção de um projeto com uma narrativa e um discurso persuasivos e mobilizadores. Por enquanto, não surgiram sinais que indiquem a capacidade de se fazer um bom diagnóstico e a vontade de triunfar.