
Mesmo entre eleitores que votaram em Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022, o sobrenome Bolsonaro passou a ser rejeitado. É o que indica uma pesquisa qualitativa realizada pelo Instituto Travessia, a pedido do Estadão, com oito eleitores do ex-presidente reunidos em São Paulo no dia 16 de dezembro.
O grupo, diverso em idade, gênero, bairro e classe social, foi unânime em recusar votar novamente em alguém da família Bolsonaro. Provocados a definir Jair Bolsonaro em uma palavra, os participantes foram diretos: “maluco”, “covarde”, “falastrão”, “instável”, “mentiroso” e “pilantra”.
Uma entrevistada disse sentir-se “traída”. “Ele prometeu tanta coisa. A gente sentia que haveria uma mudança”, afirmou M., comerciante de 59 anos, identificada apenas pela inicial para preservar o anonimato.
Em outro momento, ela criticou a condução da pandemia: “Ele viu muita gente morrer e não fez nada”, antes de acrescentar que Bolsonaro “falava muita asneira”.
A avaliação negativa também recaiu sobre o excesso de declarações desastrosas e a percepção de que o ex-presidente “prometeu demais e, na hora H, se acovardou”, nas palavras do vendedor D., de 44 anos.
Inelegibilidade e episódios recentes
Embora alguns participantes considerem que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, tenha agido de forma pessoal, a condição de Bolsonaro como inelegível e detido na Superintendência da Polícia Federal não gerou contestação emocional.
Já a tentativa de romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda foi criticada e virou motivo de piada. “Não consigo pensar que um ex-presidente da República meteu um ferro de solda na tornozeleira eletrônica. Você é um ex-militar, como perdeu o controle?”, comentou um participante, ao citar a justificativa de “paranoia” e “alucinações”.
Rejeição se estende à família
A rejeição alcança o sobrenome Bolsonaro como um todo. A relação do ex-presidente com os filhos é vista como problemática, e a maioria descarta votar em familiares.
“Qualquer membro da família Bolsonaro que entrar na política terá Bolsonaro por trás de tudo”, avaliou uma auxiliar administrativa.

Outro participante afirmou que o ex-presidente usou “a máquina para proteger os filhos”. A advogada M., de 41 anos, disse que “qualquer filho do Bolsonaro que disputar uma eleição contra Lula perde”.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro enfrenta menos resistência, mas foi lembrado que ela nunca exerceu mandato. “A gente precisa de político, não de alguém que fique bem nas fotos”, ponderou uma gerente de logística.
Já Flávio Bolsonaro é pouco conhecido pelo grupo. As impressões variam entre “sensato” e “muito manipulador”, com lembranças de “muitas coisas que ele fez e o pai cobriu”. A dinâmica, mediada pelo cientista político Renato Dorgan, não tem valor estatístico, mas ajuda a dimensionar o desafio eleitoral que o sobrenome Bolsonaro enfrenta.