Mamãe

Mamãe (abraçada por mim) entre filhos, netos e amigos

Papai e mamãe morreram com 30 anos de intervalo.

Reagi de maneira completamente diferente à morte de cada um. Me revoltei, infantilmente, quando papai morreu. Não fui nada filosófico, o que é em parte desculpável pela minha idade. Eu tinha 26 anos. Blafesmei. Atirei meus óculos numa parede. Chutei o vento. Me tornei, ali, diante do caixão de papai, um órfão eterno e incurável. Minha doçura se foi, substituída por uma melancolia não raro sarcástica ou até raivosa. Achava que minha dor era maior que a de todos os outros, tomado por uma morbidez vaidosa e egocêntrica.

“Não se agaste contra os fatos”, escreveu um sábio. “Eles não dão a mínima importância para sua raiva.”

Pois eu me agastei contra os fatos, em minha desolação ignorante e explosiva. Só anos depois pude entender que eu apenas piorara, e muito, um acontecimento já em si suficientemente ruim.

Na morte de mamãe, agora em julho, eu já era outro. Nos últimos dois ou três anos, viver se tornara um fardo para ela. O Parkinson se agravara, ela falava com dificuldades, e os remédios fortes tomados por longos anos em grandes doses tinham cobrado seu preço inevitável e cruel. (Tenho agora diante de mim a imagem da caixinha em que os remédios eram guardados e organizados para que soubéssemos a hora de cada um.)

Aceitei. Pelo menos em parte, aceitei. Era um homem maduro, e desde a morte de papai lera compenetradamente grandes filósofos dissertarem sobre a arte de viver e de morrer: Sêneca, Marco Aurélio, Montaigne.

Mamãe já tinha mais de 80 anos. Criara os filhos, vira crescerem os netos e conhecera até duas bisnetas.

Não me agastei contra os fatos.

Vi, com relativa tranquilidade, mamãe ser enterrada numa cerimônia que se pareceu com seu espírito alegre, positivo. As pessoas a lembraram entre sorrisos. Uma aluna – mamãe foi professora de português – disse que ela jamais levantara a voz para os alunos. Pensei na hora: e nem para nós, filhos. Hoje penso que perdi algumas coisas que herdara de mamãe – a doçura, por exemplo – com a morte de papai. E nos comparo: ela jamais deixou de ser doce, a despeito dos golpes infligidos pela vida. Suportou-os filosoficamente.

Era melhor que eu.

Faz pouco mais de um mês que mamãe morreu. Hoje é seu aniversário, o primeiro 3 de setembro sem ela.

Volto a pensar em papai e em mamãe, e em como é bom que de alguma forma eles estejam juntos, ali no Gethsemane.

Lidei com a morte dela muito melhor. Não me ocorreu atirar os óculos na parede. Mesmo sem crer, concordei com um gesto de cabeça com uma tia querida quando ela disse que Deus nos traz conforto em situações que seriam insuportáveis. Na morte de papai, quando essa mesma tia falou em Deus, eu o xinguei imediatamente. Tive a sensação de que minha tia gostou da mudança de atitude do sobrinho.

Sim, lidei melhor.

Mas que saudade, mãe, que saudade.

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