“Manter o colapso institucional é o modo de Bolsonaro garantir seus eleitores”, diz filósofo Marcos Nobre

Marcos Nobre. Foto: Reprodução/YouTube

O filósofo e cientista político Marcos Nobre fez uma reflexão importante na Revista Piauí sobre o presidente e como ele precisa “manter o colapso institucional é o modo de Bolsonaro garantir a fidelidade de seus eleitores”. “Ibope divulgou de uma só vez os resultados de pesquisas que fez desde janeiro até março sobre a popularidade de Bolsonaro. A avaliação positiva do governo (ótimo ou bom) caiu de 49% para 34%. De forma correspondente, a avaliação negativa (ruim ou péssimo) subiu de 11% para 24%. Os números indicam que ninguém que ocupou o cargo em primeiro mandato, desde Fernando Henrique Cardoso, registrou índice tão baixo em início de governo”.

O intelectual desenvolve o raciocínio: “De imediato, muita gente saltou dos resultados dessa pesquisa para a certeza de que o governo não se sustenta. E, ao somar a queda vertiginosa na popularidade com a incapacidade de articulação política e as trapalhadas diárias do Planalto, houve quem desse um pulo ainda maior, concluindo que um processo de impeachment será inevitável. Acontece que a pesquisa revela também um estilo de governar. Pode-se considerar que esse projeto não é sustentável, que é suicida, que Bolsonaro acabará se rendendo a algum princípio de realidade, ou qualquer outra expectativa semelhante. Mas quem acha imaginável dar um salto mortal rumo ao impeachment parece desconhecer que há método no caos. Ou, mais exatamente, que o caos é o método. Em um texto publicado em dezembro (‘A revolta conservadora’, piauí_147), arrisquei descrever essa lógica nos seguintes termos: ‘A tática geral é simples. Não há pretensão de governar para todo mundo. Esse discurso e essa prática seriam típicos do velho mundo da velha política, que era pura enganação. Trata-se, agora, de governar para uma base social e eleitoral que não é maioria, mas é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30% e 40% do eleitorado. Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder. Em momentos críticos, como o das disputas eleitorais, a tática consiste em produzir inimigos odientos o suficiente para conseguir uma ampliação forçada dessa base e assim conquistar a maioria'”.

Ele também frisa: “Ou seja, a pesquisa sobre a popularidade mostra que Bolsonaro recuou para o bastião inicial a partir do qual construiu sua candidatura. Esse bastião, desde junho de 2017, foi o seguinte: eleitorado com ensino superior, faixa de renda acima de cinco salários mínimos, majoritariamente masculino e com forte presença de evangélicos. Não é um bastião homogêneo. Apesar de haver intersecções entre esses eleitores (uma mesma pessoa pode pertencer a diferentes grupos), trata-se de uma confluência inédita, especialmente quando se pensa que nada menos do que treze candidaturas se apresentaram às eleições presidenciais de 2018. Nunca antes tinham confluído para uma única candidatura presidencial, como ocorreu com a do capitão reformado do Exército, as figuras do ‘lava-jatismo’, do antipetismo, do antissistema, do voto nulo, do abstencionismo, do conservadorismo de costumes, do desejo de ‘lei & ordem'”.

E explica as razões: “É possível manter a fidelidade desse bastião? É sustentável governar apoiado unicamente nessa fiel trincheira? Como nada parecido foi experimentado até hoje no país, é difícil encontrar comparações. O que se pode fazer é tentar entender como Bolsonaro tem organizado essa novidade em termos de modelo de governo. Sei que, para muita gente, falar em modelo de governo parece absurdo no caso do atual presidente. Mas repetir que não existe método no caos não apenas impede ver o que realmente está acontecendo; também bloqueia a ação que pode barrar o caminho da revolta conservadora em curso. Em tempos de instituições operando de maneira disfuncional, convém não ver organização onde não há, evidentemente. Qualquer governo se forma de maneira mais ou menos improvisada, mas o grau de improvisação importa. O que parece realmente exagerado é dizer que Bolsonaro vai fracassar se não parar de ser Bolsonaro. É dizer que o atual governo não conseguirá funcionar se não aceitar jogar o jogo segundo as regras. As regras continuam as mesmas, foi o jogo que mudou”.

E completa, citando os principais ministros: “O conjunto do governo se move entre esses dois polos: o mobilizador das bases sociais em rede e o organizador, representado pelos militares. Até os dois grandes senhores feudais do governo, Sergio Moro e Paulo Guedes, estão submetidos a essa lógica. Se o núcleo duro bolsonarista não concordar com alguma decisão, mesmo esses ministros terão de se curvar aos exércitos nas redes sociais. Enquanto isso, a organização militar cuida para que esse paredão de reality show não inviabilize o funcionamento da máquina do Estado e, portanto, do governo. São dois senhores feudais muito diferentes. Moro sabe operar entre os dois polos, as redes sociais e o polo militar. Orquestrou um ataque brutal ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que acusou o golpe e tentou revidar como pôde, mas sem encontrar qualquer apoio social significativo. Moro é obediente, recua sempre que ordena o presidente das redes. Mas, ao mesmo tempo, busca alianças com o polo militar para que seu ministério não emperre. Conseguiu fazer a transferência de presos como Marcola, chefe do PCC, para um presídio em Brasília, sem nem sequer consultar o governador do Distrito Federal. Guedes não sabe lidar com os exércitos das redes. Quando viu que Bolsonaro não iria mexer um único dedo para aprovar a reforma da Previdência, estabeleceu imediatamente diálogo direto com Rodrigo Maia. O presidente da Câmara topou a conversa, mas exigiu o empenho pessoal do presidente. Recebeu insultos e esculachos em massa na rede como resposta”.

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