Maradona como ser político incomodava demais, diz estudiosa

“Admiro sua conduta por várias razões, tive o privilégio de lhe conhecer quando triunfaram as ideias mais justas de nossos povos e nenhum poder conseguiu esmagá-las”, escreveu o líder cubano Fidel Castro em carta à estrela do futebol argentino Diego Maradona. (Foto: Roberta Namour)

Originalmente publicado em TUTAMÉIA

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

“Maradona é essa figura heroica, que teve uma vida épica. Representa a alma do povo argentino: passional, jogava com o coração na ponta das chuteiras, era um espetáculo. Jogava como uma criança, com o prazer que a criança tem de praticar esportes; ao mesmo tempo, era uma pessoa situada politicamente, que usava de sua visibilidade planetária em prol de algumas ações. Ele é contra a ditadura, ele é a favor de Fidel Castro, ele abraça Evo Morales, ele prova que a assertiva de que política e esporte não se misturam não é uma afirmativa do atleta, mas sim de quem usa o esporte como meio de apagamento das questões sociais. Maradona, por sua vez, vai lá, e afirma: Não, não, não, não. Estou aqui como um ser do meu tempo, atento a tudo o que acontece. E dessa posição, visível, de porta-voz de um grupo, ele efetivamente fazia uso de sua voz em prol de causas sociais maiores.”

Esse é o legado de DIEGO ARMANDO MARADONA, ídolo planetário, morto hoje, 25.11, aos 60 anos, na avaliação da professora Kátia Rubio, coordenador do grupo de Estudos Olímpicos da USP e uma das maiores estudiosas de esportes no Brasil. Em entrevista ao TUTAMÉIA no meio desse dia de luto, Rubio afirma que o legado de Dieguito vai muito além do espetáculo que ele fazia nos campos de futebol:

“Maradona afirma o esporte como um fenômeno muito maior do que simplesmente a competição. Maradona afirma o futebol como um fenômeno sociocultural, um fenômeno histórico. Vejo o Maradona como um crítico ao sistema que fagocita o atleta, que engole o atleta, que espreme o atleta como laranja e depois joga o bagaço fora. A prova maior disso é que o Maradona teve uma sobrevida na transição de carreira como poucos. Ele continua tendo uma visibilidade em torno de causas que ele abraçou, que o perpetuam naquele mesmo patamar que ele gozava como esse atleta espetacular que ele havia sido”.

A percepção de Katia Rubio, por sinal, é compartilhada por muitos outros admiradores do atleta, nos mais diversos terrenos. O ex-presidente Lula, por exemplo, afirmou: “Poucas vezes vi um jogador de futebol parar de jogar, e não parar. Maradona continuou jogando. Ele continuava jogando em pensamento, em suas opiniões políticas, em suas críticas. Continuou jogando pelo povo pobre no mundo inteiro”.

Por seu lado, a estudiosa situa o atleta no seu tempo: “Maradona participa de uma geração que vê o futebol ser transformado em máquina, mas ele não pactua com isso no momento em que usa o poder da sua imagem para dançar no campo, para fazer um aquecimento ao som da música que toca no estádio. E ele dança: ele dança com a bola, ele dança sem a bola, ele cria uma empatia com o público de modo que quem o viu fazendo isso jamais vai esquecer”, diz Katia Rubio .

Ela prossegue: “Ele era um grande comunicador. Uma das virtudes dele, dentro do campo, fora de campo, como atleta ou como pós-atleta, era essa capacidade de ser ouvido. Ele causava, no bom sentido. Era polêmico, não tinha vergonha nem medo da polêmica. Mesmo sendo idolatrado, ele não se escondia atrás de um sistema que o escondesse, que pasteurizasse. Maradona não se permitiu ser engolido pelo sistema.”

Exemplo disso foi a pequena biblioteca de autores progressistas e contestadores do sistema que levou na bagagem quando foi à África do Sul comandar como técnico da seleção argentina. “Quando ele, como técnico, vai para uma concentração levando elementos de sua história, de sua cultura, ele não só promove conhecimento entre aqueles que não detêm aquele conhecimento, mas principalmente ele afirma uma identidade nacional. Que é uma identidade formada a partir de todos esses elementos: o indígena, o europeu, mas também essas gerações que nascem dessa mescla de culturas, que vai ser o argentino”.

Sua atuação se choca com tudo e todos que querem segurar, emparedar, reprimir o povo e a democracia: “Maradona coloca em xeque essa ladainha de que esporte e política não se misturam. Ele bate de frente com essa afirmação. Ele não tinha problema algum em se colocar politicamente, e se sentia respaldado o suficiente para suportar qualquer crítica. Aquela clássica cena da criança que diz: Vem ni mim! Pode vir! Ele se colocou, ao longo de sua trajetória, nessa posição de ser político. E até seus últimos dias ele afirmou a sua condição de cidadão, cidadão que tem direito a voto. Dentro ou fora de campo, ele era capaz de dizer aquilo que ele pensava, defender aquilo em que ele acreditava, e isso certamente incomodou muita gente. Principalmente numa América Latina que vive uma montanha russa em seus sistemas políticos. Tivemos a fase de regimes democráticos, em que se dá espaço e visibilidade a discursos como o de Maradona, mas também outros momentos, de retrocesso, como o que estamos vivendo agora no Brasil, em que esses discursos precisam ser calados, e calados rapidamente. Independentemente de quem estivesse no governo, Maradona sabia de que lado estaria. Isso causa muitos problemas para quem está do outro. Porque ele, Dieguito, do tamanho que ele tinha, aonde ele fosse ele poderia mostrar não só a marca da tatuagem [de Che Guevara] no seu corpo, mas o poder de sua voz. Como ele incomodava! Ele incomodava demais! Porque era um sujeito absolutamente autêntico, coisa que muitos atletas de hoje, com muita visibilidade, não chegam nem ali na cutícula dessa capacidade de mobilização que o Diego tinha”.

Isso, apesar de viver em um período de grande pressão e repressão sobre os atletas, como afirma a professora da USP: “Por mais de um século, os atletas foram silenciados. Aqueles que se manifestaram, que usaram sua imagem em prol de alguma causa, pagaram um preço muito alto por isso, pagaram com suas carreiras –principalmente no esporte olímpico. Quando a gente pensa nos jogos de 1968, no México, quando atletas dos Estados Unidos fazem o gesto dos Panteras Negras no pódio, era um momento em que ainda prevalecia o amadorismo, quando o atleta ficava ainda mais à mercê desse jogo de poderes que transita nas instituições esportivas.”

Com o advento do profissionalismo, destaca ela, e por causa de manifestações como aquela e de atletas como Maradona, novos ventos sopram no tempo presente: “Agora, na virada do século 21, o atleta começa a entender, cada vez mais, que ele não é apenas um cavalo puro sangue, que corre em um estádio para ser aplaudido. Não! Ele começa a ser perceber que há milhões em jogo, milhões de dólares, milhões de euros. Na medida em que os atletas começam a ter consciência de que eles são a razão de ser do esporte, que sem eles não há espetáculo, que sem eles não há negócio, que sem eles não há indústria, que sem eles não meios de comunicação, eles falam: ôpa, então eu posso falar. A questão é organizar esse discurso, organizar essa ação. É muito difícil um atleta sozinho mudar o sistema. Mas, quando pessoas têm essa coragem, essa disposição de enfrentamento, assim como teve a Carol Solberg, a gente começa a falar de um outro esporte, de uma grade virada, eu diria que é quase uma virada epistemológica do esporte. O Lewis Hamilton, quando faz manifestações contra o racismo a Fórmula, ela faz isso porque ninguém melhor do que ele sabe o que é racismo, ninguém melhor do que ele sabe o que é discriminação, o que é preconceito. Mesmo sendo ele hoje um dos maiores ídolos da Fórmula Um. Talvez o Hamilton não tivesse essa atitude se o Maradona não tivesse feito o que ele fez, se os atletas de 1968 não tivessem feito o que fizeram, porque é um processo cumulativo. Por isso o Maradona é um cara tão importante”.

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