Marcelo, da Cidade de Deus, vestirá no caixão a roupa que ganhou da filha no Ano Novo: “Têm noção disso?’

Vitória e o pai, assassinado em operação da PM

A morte de Marcelo Guimarães durante operação policial da PM na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, deveria ser motivo para uma explosão de protestos por segurança pública, o que significa menos policiais corruptos, violentos e assassinos.

Mas não.

O que temos é a voz quase isolada de sua filha, Vitória Guimarães. E ela tem feito desabafos na rede social que só não comove quem perdeu a humanidade.

Logo depois que soube da notícia de que o pai, um homem de 38 anos, havia sido assassinado a tiros quando passava por uma viatura de guerra da PM, o Caveirão, ela escreveu no Twitter:

“TE MATARAM PAI, NA CRUELDADE, O SENHOR ERA TRABALHADOR, ESTAVA INDO TRABALHAR E TE MATARAM  tão novo, 38 anos, cheio de vida, coração bom!!!!”.

E acrescentou:

“Eu, minha mãe, meu irmão (que tem apenas 5 anos), famílias e amigos NÃO ESTAMOS AGUENTANDO COM TANTA DOR”.

O que pediu, com uma hashtag, foi “Justiça por Marcelo”.

Poucos atenderam ao pedido dela, porque #justicapormarcelo não ficou muito tempo entre os assuntos mais comentados na rede social.

O post teve 13,6 mil retuítes e 2,6 mil comentários, muito menos do que o da chef de cozinha Paola Carosella, que tem casamento heterossexual e a rede inventou de achar que ela é gay.

Uma internauta decidiu fazer uma montagem com uma foto de Paola sobre a notícia da morte de Marcelo, e postou #Paola para tentar chamar a atenção para o genocídio em curso no Brasil.

Vitória Guimarães agradeceu ao apoio dela e, principalmente, das poucas pessoas que fecharam a Linha Amarela para chamar a atenção para o crime:

“OBRIGADA A TODOS QUE ESTÃO AÍ, OBRIGADA POR TUDO, A TODOS QUE ESTÃO APOIANDO. É POR VOCÊ, PAI, A JUSTIÇA É POR VOCÊ, E SERÁ FEITAAAA”.

Não só por Marcelo, que foi assassinado depois de deixar o filho pequeno na creche e se dirigir para seu local de trabalho, uma marmoraria.

A luta, espera Vitória, será também “por todos aqueles que foram mortos pela PM: Negro, pobre, crianças e trabalhador!!!!”.

Dados divulgados há seis meses mostram que, apesar da pandemia, que reduziu a circulação de pessoas, a PM do Rio nunca matou tanto.

Nos cinco primeiros meses de 2020, foram 741 vítimas, o que corresponde a cinco pessoas mortas por dia.

Entre as mortes que têm PMs suspeitos de autoria em 2020, estão doze crianças — média de uma por mês, como as primas Rebecca Beatriz Rodrigues Santos, de 7 anos, e Emilly Victoria da Silva Moreira Santos, de 4, que moravam em Duque de Caxias.

Todas pretas e pobres.

Vitória, a filha de Marcelo de Marcelo Guimarães, mencionou o assassinato de crianças em suas mensagens.

E descreveu a dor que sente pela morte do pai. “Separei a roupa que dei pro meu pai no Ano Novo pra ele vestir no seu velório. Vocês têm noção disso?”

Não, Vitória, não temos. Mas permita que choremos com você.

Vitória convida a todos para o enterro de seu pai, que será hoje às 15 horas no cemitério de Inhaúma.

Também convida para o protesto por justiça para Marcelo hoje, às 17 horas, no Viaduto Linha Amarela, local onde ele foi morto.

Jéssica postou a foto do policial que, segundo testemunhas, atirou em Marcelo pelas costas. “O coração dele saiu pra fora”, contou.

A foto é uma boa dica para a polícia investigar, se é que quer investigar.

Vitória define assim o PM: “Além de feio, narigudo, é assassino”.

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