Marcos Nobre: A oposição ao governo Bolsonaro está dentro do próprio governo. Por Charles Nisz

Marcos Nobre, professor da Unicamp

POR CHARLES NISZ

Professor do IFCH/Unicamp, Marcos Nobre é dos mais argutos analistas da política brasileira nos últimos 20 anos. Suas opiniões geralmente vão no contrapé da maioria dos comentaristas e trazem mais lições à esquerda do que à direita. Ele conversou sobre a conjuntura política brasileira, a crise do governo Bolsonaro, entre outros temas, no congresso comemorativo dos 50 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), principal think tank brasileiro de ciências humanas.

Recém-eleito presidente da instituição da qual é um dos principais pesquisadores, Nobre reafirmou a importância da universidade pública e dos institutos de pesquisa brasileiros num momento no qual o presidente Jair Bolsonaro desfere ataques contra a Academia brasileira.

Segundo ele, apesar dos grandes protestos desta quarta-feira (15), reunindo dois milhões de manifestantes em todo país, o governo ainda não está acuado. “Hoje, Bolsonaro tem 34% de apoio. A situação só começará a ficar dramática para o governo se esse percentual de apoio baixar de 30%”.

Segundo o pesquisador do Cebrap, o fato de Bolsonaro ter a Educação (Weintraub), Itamaraty (Araújo) e Direitos Humanos (Damares) como seus cavalos de batalha não é algo aleatório: “Bolsonaro quer fazer da política uma guerra cultural, assim ele consegue manter acesa a chama desses 34% de apoiadores. Por mais que aparente ser bagunçado, o governo não esgtá descontrolado, nem de longe”, diz Nobre.

“A principal oposição ao Bolsonaro está, por incrível que pareça, dentro do governo”, diz Nobre. Para o filósofo do IFCH/Unicamp, há uma guerra interna entre os militares e os bolsonaristas das redes, ligados ao escritor Olavo de Carvalho. “E os militares são o lado mais sensato dessa briga”, adiciona Nobre.

De acordo com o pesquisador do Cebrap, essa inusitada situação e mesmo a eleição de Bolsonaro são justificadas porque o sistema político como um todo está em “modo de autodefesa”, na definição de Nobre. Por autodefesa Nobre chama toda a situação criada no sistema político desde 2014, com a eclosão da operação Lava-Jato.

“O PT está acuado, tentando se reerguer do baque sofrido nas eleições de 2016”. A dificuldade de reorganização da centro-esquerda, para Nobre, passa por dois nós górdios: o PT é grande demais para ser ignorado ou superado. “Porém, os outros partidos desse campo não conseguem organizar a oposição sozinhos. Como o PT quer ter a liderança desse processo, temos um impasse”, continua Nobre.

“Ciro Gomes e Marina Silva estão numa postura mais próxima ao centro, tentando se afastar do “legado tóxico” do PT. Já o PT aposta numa total implosão do sistema político como conhecíamos entre 1985 e 2014 – os 30 anos da Nova República – confiando que emergirá com sua fiel militância quando o furacão bolsonarista passar”, adiciona o docente da Unicamp.

Imobilismo em movimento

Segundo o professor, o sistema político falhou ao se reorganizar após a Lava-Jato, no caso brasileiro. “Nas eleições de 2018, o sistema partidário deu ao povo a escolha entre preservar o establishment ou “quebrar tudo”, com a aposta Bolsonaro. “A eleição do capitão é o resultado do peemedebismo em não ter se reorganizado”, afirma Nobre.

A tese mais famosa de Nobre é justamente a que explica a prevalência do PMDB na política nacional. De acordo com esse conceito, batizado de imobilismo em movimento, numa tentativa de explicar os protestos de 2013, o PMDB é o síndico da política nacional desde 1985, com PSDB e PT se revezando como os inquilinos desse condomínio”.

Esse equilíbrio foi rompido com a Lava-Jato, na opinião de Marcos Nobre. O filósofo reconhece os méritos da operação na luta sistemática contra a corrupção, mas também critica os defeitos da intromissão do Judiciário no sistema político. “A Lava Jato tentou consertar as regras do jogo político, mas o Judiciário não faz política, então entramos num vácuo institucional”.

Junho de 2013

Nobre diz que as raízes dessa crise institucional remetem a Junho de 2013. Para ele, as duas teses criadas para entender o cenário político atual não são capazes de explicar, de modo isolado, tanto Junho de 2013 quanto a eleição de Bolsonaro. A primeira delas fala da quebra das regras do jogo democrático. A segunda, versa sobre o chamado “ovo da serpente”, uma ascensão fascista, que tirou as esquerdas das ruas há seis anos atrás.

De acordo com a primeira hipótese, o ativismo judicial, capitaneado pelo STF, rompeu com o equilíbrio dos três poderes. “O ativismo do STF começou na AP 470 (mensalão) e continuou com a cláusula de barreira e culminou na Lava-Jato”, diz Nobre. De acordo com ele, isso deu fim ao pacto proposto pelo PT, cujo símbolo foi a aliança com o PT, após o segundo mandato de Lula.

Já de acordo com a segunda, a crise econômica e os protestos por melhores serviços públicos foram centrais para a queda de Dilma. Nesse caso, a crise institucional causada pela Lava-Jato foi a pá de cal para soterrar os 30 anos da Nova República. A Lava-Jato, ao tomar para si o papel de representante da “voz difusa das ruas”, minou o sistema político tradicional.

Movimento global

O presidente do Cebrap também comparou o cenário brasileiro com o restante do globo. Nobre corrobora a tese do cientista político alemão e professor da Universidade de Princeton (EUA) Jan-Werner Muller e diz que o mundo vive uma onda de populismo. “As vitórias de Duterte, Trump, Orban e Bolsonaro mostram que algo não vai bem com a democracia”.

Para Nobre, as radicais mudanças trazidas pelo colapso climático são outro desafio aos políticos mundo afora. “Como lidar com um cenário no qual países desaparecerão e populações inteiras serão deslocadas? ”, exemplifica o professor da Unicamp.

Além disso, as mudanças sociais e políticas causadas pela Internet mudaram a forma de pensar e vivenciar a política. “Estamos passando para uma política baseada em algoritmos e bolhas, pois vivemos cada vez mais tempo online”, diz Nobre. Esse cenário delineado por Nobre prenuncia mudanças: “O sistema político caducou no mundo todo – precisamos de novos movimentos e novas estruturas partidárias, novas formas de competição política”, finalizou o docente da Unicamp.

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