
Mariana Lúcia da Silva Ramos Mota, ex-chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), foi apontada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como responsável pela arrecadação de dinheiro de assessores antes de Fabrício Queiroz assumir essa função no suposto esquema de “rachadinha”. Além da atuação no gabinete, ela mantinha vínculos pessoais com integrantes da família Bolsonaro.
Mariana era uma das melhores amigas de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro e ex-madrasta de Flávio. A proximidade entre as duas também envolvia relações profissionais e familiares, identificadas durante as investigações sobre funcionários dos gabinetes da família.
Enquanto Mariana chefiava o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, Ana Cristina ocupava função equivalente no gabinete de Carlos Bolsonaro, então vereador do Rio de Janeiro. Durante esse período, Ana Cristina empregou sete parentes na estrutura parlamentar do enteado.
A maior parte desses familiares residia em Resende, no interior do Rio de Janeiro. Uma cunhada de Ana Cristina, que também ocupou cargo no gabinete durante anos, morava em Juiz de Fora, Minas Gerais. As nomeações integraram os questionamentos sobre a utilização de cargos públicos nos gabinetes ligados à família Bolsonaro.
Mariana recebeu R$ 39,4 mil de assessor, segundo o MP
De acordo com relatório do Ministério Público apresentado à Justiça, Mariana Lúcia recebeu R$ 39,4 mil do ex-assessor parlamentar Jorge Luis de Souza entre janeiro de 2007 e março de 2008.
Os investigadores identificaram 15 transferências bancárias realizadas pelo servidor à ex-chefe de gabinete. Os repasses correspondiam a aproximadamente 45% do salário de Jorge Luis e foram identificados após a quebra dos sigilos bancário e fiscal.
Mariana permaneceu na chefia do gabinete de Flávio até dezembro de 2007, quando foi substituída por Miguel Ângelo Braga Grillo. Posteriormente, foi transferida para a Comissão de Defesa Civil da Alerj, onde permaneceu lotada até dezembro de 2008.

Segundo o Ministério Público, após a saída de Mariana da chefia do gabinete, os repasses feitos pelo assessor passaram a ser direcionados à conta de Fabrício Queiroz, posteriormente identificado como personagem central das investigações sobre as chamadas rachadinhas.
“Aponta-se, deste modo, que Mariana Lúcia exerceu a função de arrecadação dos valores repassados por assessores, à época em que ocupava a Chefia do Gabinete do Deputado Flávio Bolsonaro, antes da referida função ser assumida por Fabrício Queiroz”, afirma o relatório do MP.
A investigação também apontou movimentações financeiras realizadas pela própria Mariana. Segundo a promotoria, ela sacou aproximadamente 40% dos salários que recebeu enquanto trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro. O montante chegou a R$ 134 mil.
Filha de Mariana tinha ligação empresarial com ex-mulher de Bolsonaro
Outro vínculo identificado pelo Ministério Público envolve Catarina Ramos Mota, filha de Mariana Lúcia. Ela foi nomeada assessora parlamentar no gabinete de Flávio Bolsonaro e também participou de uma empresa ligada a Ana Cristina Valle.
Catarina integrava o quadro societário da Siscomp Sistema de Telefonia Computadorizada, empresa de Ana Cristina, que havia sido casada com Jair Bolsonaro.
A ligação empresarial entre a filha da ex-chefe de gabinete e a ex-mulher de Bolsonaro acrescentou outro elemento às relações entre pessoas que ocupavam cargos parlamentares e integrantes do círculo familiar do ex-presidente.
Os dados reunidos pelo Ministério Público indicam que as suspeitas de arrecadação de parte dos salários de assessores no gabinete de Flávio Bolsonaro remontam pelo menos a 2007, antes da atuação de Fabrício Queiroz como responsável pelos repasses investigados.
As informações fazem parte de investigações anteriores sobre o gabinete de Flávio Bolsonaro e não representam, por si só, uma nova denúncia ou condenação judicial. O relatório atribui a Mariana a função de arrecadadora, mas essa conclusão deve ser apresentada como uma alegação do Ministério Público.