Marroquinos tomam as ruas de Amsterdã para comemorar vitória sobre a Holanda

Atualizado em 30 de junho de 2026 às 11:01
Marroquinos comemorando classificação em Amsterdã. Foto: John van der Tol/EPA

A vitória do Marrocos sobre a Holanda nos pênaltis, pela fase de 16 avos da Copa do Mundo, provocou comemorações entre torcedores marroquinos em Amsterdã, mas também expôs tensões sociais e terminou com confrontos e prisões em Haia, no país europeu. A partida, vencida pelos Leões do Atlas após empate no tempo normal e na prorrogação, tinha um peso que ia além do futebol em um país onde vivem cerca de 440 mil pessoas de origem marroquina.

Em Amsterdã, a classificação foi celebrada de forma pacífica em bairros com forte presença da comunidade marroquina. Torcedores com bandeiras do Marrocos e da Holanda acompanharam juntos o jogo em bares e espaços públicos. Em alguns locais, mulheres de véu cantaram o hino holandês, enquanto jovens com camisas laranja aplaudiram o hino marroquino.

A convivência nas ruas contrastou com o ambiente digital, marcado por ataques e provocações de setores da extrema-direita. O político Geert Wilders, conhecido por discursos contra muçulmanos e contra a comunidade marroquina, publicou antes da partida uma imagem feita por inteligência artificial em que aparecia como árbitro mostrando cartão vermelho a um jogador do Marrocos. Após o jogo, porém, usou as redes para parabenizar a seleção marroquina.


O tema da identidade foi central antes da partida. Muitos holandeses de origem marroquina foram questionados sobre qual seleção apoiariam. O ex-jogador Ibrahim Afellay, que defendeu a Holanda 53 vezes, explicou na TV sua torcida pelo Marrocos. O dilema também aparece entre atletas: Noussair Mazraoui, Sofyan Amrabat e Anass Salah-Eddine nasceram na Holanda, mas escolheram defender a seleção marroquina.

Em Amsterdã, torcedores trataram o jogo como uma noite de pertencimento múltiplo. Brahim, de 42 anos, acompanhou a partida em um bar da zona oeste e resumiu o sentimento. “Para mim, este é um jogo em que todos ganham. Não me importo com quem vença. Nasci e cresci na Holanda. Minhas raízes estão no Marrocos, e também sinto amor por esse país”.

A partida terminou empatada após o gol holandês de Cody Gakpo e o empate marroquino de Issa Diop nos acréscimos. Nos pênaltis, Ismael Saibari, destaque do PSV, converteu a cobrança decisiva e levou torcedores marroquinos à euforia.

Em Haia, porém, o clima ficou tenso. A emissora pública NOS informou que policiais foram atingidos por garrafas e fogos de artifício. Segundo a Omroep West, ao menos dez pessoas apontadas como torcedores do Marrocos foram presas após ataques à polícia. Em Roterdã, quatro torcedores também foram detidos, sem que o motivo fosse informado.

Nas ruas de Nieuw-West, em Amsterdã, a festa seguiu pela manhã, com buzinas, bandeiras e fogos. Ilias, de 20 anos, observava a multidão no Plein ’40-’45. “Você está vendo, está uma loucura, todo mundo está feliz”. Ele tentava ir ao trabalho, mas o trânsito estava parado. “O trânsito está completamente travado. Não há táxis circulando”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.