Matt Damon e Ben Affleck explicam como a Netflix mudou o cinema para pior

Atualizado em 17 de janeiro de 2026 às 13:29
Ben Affleck e Mat Damon em entrevista a Joe Rogan

Em entrevista ao podcast de Joe Rogan para promover o filme “The Rip”, os atores e produtores Matt Damon e Ben Affleck falaram abertamente sobre como o avanço das plataformas de streaming, especialmente a Netflix, transformou profundamente a linguagem, a estrutura e até as ambições do cinema contemporâneo. Segundo eles, a mudança central está no comportamento do público, hoje muito mais disperso.

Damon explicou que um dos principais desafios atuais é lidar com espectadores distraídos, que assistem aos filmes enquanto mexem no celular. Para evitar que o público se perca, roteiros passaram a repetir informações importantes várias vezes nos diálogos. Segundo ele, o enredo costuma ser reiterado três ou quatro vezes ao longo do filme para garantir que o espectador acompanhe a história mesmo sem atenção total.

Essa mudança também afetou diretamente os filmes de ação. Affleck comentou que, no modelo clássico do cinema, a narrativa era dividida em três atos, cada um com grandes sequências de ação que cresciam em intensidade, reservando o momento mais caro e espetacular para o final. No streaming, isso mudou. Como as plataformas precisam fisgar o público em poucos minutos, cenas de grande impacto passaram a aparecer logo no início, muitas vezes nos primeiros cinco minutos, para evitar que o espectador abandone o filme.

Outro efeito citado pelos atores é a perda de incentivo estético. Damon afirmou que muitos diretores sabem que seus filmes serão vistos em telas pequenas, como celulares e laptops, o que reduz a pressão para criar imagens pensadas para salas de cinema. Isso altera decisões de fotografia, enquadramento e até de direção de arte, já que o impacto visual acaba diluído fora da tela grande.

Por outro lado, ambos reconhecem que o streaming abriu espaço para projetos mais arriscados. Damon explicou que, no modelo tradicional de cinema, um filme independente com orçamento de 25 milhões de dólares precisava gastar praticamente o mesmo valor em marketing. Como a bilheteria é dividida com as salas de exibição, o longa teria de arrecadar cerca de 100 milhões de dólares apenas para empatar. Esse cenário empurrou os estúdios para franquias, sequências e super-heróis. As plataformas, por não dependerem diretamente da bilheteria, conseguem apostar mais em ideias originais.

Na conversa, Rogan definiu o cancelamento como ser “expulso da civilização para sempre” por um erro tratado de forma exagerada, e Matt Damon concordou que esse tipo de punição social tem um caráter permanente.

“Imagino que algumas dessas pessoas prefeririam cumprir 18 meses de prisão, ou algo do tipo, e depois sair dizendo: ‘Paguei minha dívida, acabou’”, afirmou o ator.

Para Damon, o ponto central do cancelamento é a ausência completa de redenção ou de um fim claro da punição. Segundo ele, trata-se de algo que passa a acompanhar a pessoa pelo resto da vida, sem possibilidade real de encerramento.

O comentário não vem do nada. Em 2021, Damon foi alvo de fortes críticas depois de relatar um episódio em que a filha o repreendeu por usar um termo homofóbico em uma conversa familiar. A repercussão foi imediata, e o ator acabou publicando um longo esclarecimento à revista Variety, no qual afirmou nunca ter usado insultos contra ninguém e reiterou seu apoio à comunidade LGBTQ+. Na ocasião, explicou que apenas contextualizava como determinadas expressões eram banalizadas durante sua infância em Boston.