Mayra Pinheiro mente na CPI após apontar que era “inadmissível” não usar cloroquina em Manaus

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

Por Tiago Pereira

Versões contraditórias apresentadas por Mayra Pinheiro sobreo uso do aplicativo TrateCOV em Manaus irritaram o presidente da CPI – Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira (25), a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, confirmou ter informado à secretaria de Saúde do Amazonas que era “inadmissível” não adotar a orientação para utilização da cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina para o tratamento de pacientes com a covid-19. No entanto, em aparente contradição, ela negou que a pasta recomendasse o uso desses medicamentos. Segundo ela, tratava-se de orientações para o “uso seguro” dessas substâncias.

Em ofício encaminhado ao Amazonas em janeiro, ela chegou a ressaltar a “comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde”. Contudo, além de não se tratar de antivirais, o uso dessas medicações foi abandonado na maioria dos países. Além disso, em julho do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS), paralisou testes com a hidroxicloroquina em função dos seus efeitos colaterais graves.

“Nós estabelecemos doses seguras para que médicos brasileiros pudessem utilizar esses medicamentos com o consentimento dos seus pacientes”, afirmou a secretária, que ficou conhecida como “capitã cloroquina”. Sobre as orientações da OMS, Mayra afirmou que “o Brasil não é obrigado” a segui-las, repetindo alegação do ex-ministro de Saúde Eduardo Pazuello, na semana passada.

Ela disse ainda que nunca recebeu ordens superiores, nem dos ministros que passaram pela pasta, nem do presidente Jair Bolsonaro, para defender a utilização dessas substâncias. Também negou saber quem teria participado da decisão relativa à ampliação da produção de hidroxicloroquina pelo laboratório do Exército.

Imunidade de rebanho

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da Comissão, apresentou vídeo em que Mayra Pinheiro critica medidas de isolamento adotadas por prefeitos para manter as pessoas em casa durante a pandemia. O resultado, segundo ela na peça, além de “causar mais pânico na sociedade”, atrapalhou a “evolução natural da doença”. Apesar da evidência, ela negou que apoiasse a tese da imunidade de rebanho. Mayra afirmou que a “estratégia não pode ser usada indistintamente”.

A secretária afirmou que ninguém no governo defendeu essa tese. E justificou a declaração alegando que apenas defendia que as crianças não fossem retiradas das escolas durante a pandemia. Contudo, no vídeo ela defende o isolamento apenas de idosos e vulneráveis. Além do retorno das crianças às escolas, pregou que “a indústria e estabelecimentos comerciais” voltassem a funcionar, seguindo orientações de distanciamento social.

TrateCov

Mayra também confirmou à CPI que sua secretaria foi a responsável pelo desenvolvimento da plataforma TrateCov, colocada no ar em “versão prototípica”, segundo ela, no dia 11 de janeiro. Ela também afirmou que o então ministro Pazuello foi apresentado ao aplicativo durante o evento de apresentação do mesmo, sem ter havido autorização prévia. O uso da plataforma, que recomendava a prescrição da hidroxicloroquinha e demais medicamentos do chamado “kit covid” foi retirado do ar em 21 de janeiro. No entanto, ela negou que a plataforma tivesse sido “hackeada” ou “roubada”, como alegou Pazuello na semana passada.

Segundo a secretária, o que houve foi uma “extração indevida de dados” realizada por um jornalista, que começou a divulgar o uso indevido da plataforma. “Ele não conseguiu hackear. Hackear é quando usa a senha de alguém, entra dentro de uma plataforma. Foi uma extração indevida de dados. O termo que foi utilizado foi um termo de leigos. Hoje temos um laudo pericial que classifica a operação feita de extração de dados”, afirmou.

O aplicativo recomendava cloroquina até para bebês. Nesse sentido, apesar de negar que a suposta invasão teria afetado os parâmetros da plataforma, a secretária não soube responder porque a sua utilização não foi retomada. “A senhora disse que o TrateCov salvaria muitas vidas, mas por que foi retirado ar?”, questionou o senador Omar Aziz, presidente da comissão. Senadores da base governista alegaram então que Aziz havia mudado de posição, pois anteriormente havia se manifestado contra a plataforma. Ele disse então se tratar de uma ironia.

Oxigênio

A “capitã cloroquina” também afirmou que não foi informada do problema da falta de oxigênio no período em que esteve atuando em Manaus, em missão do ministério, entre 2 e 5 de janeiro. “Não houve uma percepção que faltaria.” Posteriormente, ela disse que foi informada da escassez do insumo no dia 8 de janeiro. Pazuello, no entanto, disse à CPI que apenas foi informado do problema na noite do dia 10. Ainda assim, Mayra Pinheiro afirmou que o fornecimento do insumo não era competência do Ministério da Saúde, mas da secretaria do Amazonas.

Ela foi rebatida pelo senador Humberto Costa (PT-PE). O parlamentar destacou que, de acordo com a legislação, em casos de insuficiência, o governo federal tem a obrigação de socorrer estados e municípios. Mais especificamente, ela disse não se tratar de uma atribuição da sua secretaria, que tem foco na gestão de “recursos humanos em saúde”. Também atribuiu às autoridades estaduais e municipais o “caos” encontrado em Manaus, com superlotação de UTIs e enfermarias.