“Me bateram, jogaram no chão e me algemaram”, diz ao DCM professor agredido em ocupação de escola em SP

 

Diante da tentativa de empurrar goela abaixo seu plano de reestruturação das escolas, o governo do estado de São Paulo tem colhido derrotas na justiça. Os mandados de reintegração de escolas ocupadas estão sendo cassados e a Braz Cubas, uma escola de Santos que é referência na educação inclusiva de estudantes com deficiência, não será mais fechada também por medida judicial.

Apesar disso, a truculência da polícia tem aumentado. No sábado, dia 14, o colégio José Lins do Rego, no Jardim Ângela, no extremo sul da cidade, viveu um dia dramático. Professores foram duramente agredidos.

O DCM conversou com Edivan Costa, professor de história do Ensino Fundamental e Médio, que juntamente com a professora de filosofia Jaiane Estevam, apanhou por tentar entrar no momento em que policiais militares buscavam fechar a unidade. O vídeo da sova de Edvan viralizou nas redes sociais.

Nós conversamos com ele.

DCM: O que aconteceu no último sábado?

Edvan Costa: A direção nos convidou para uma reunião com a comunidade escolar onde seriam comunicadas oficialmente as mudanças promovidas pelo governo. Quando cheguei havia um contingente ostensivo da PM dentro da escola e viaturas no portão. Um movimento social estava presente.
Depois da reunião, muitos alunos continuavam na escola e outros chegavam.
Em determinado momento a PM tentou fechar a porta, tivemos medo pela integridade física dos alunos. Não queríamos que o portão fosse fechado deixando a PM os alunos fora do nosso campo de visão. Depois de um momento de tensão , combinamos com a PM que o portão ficaria aberto e nós ficaríamos lá fora. Tudo que sentimos foi medo. Medo por nossos estudantes, medo de um desfecho violento.

Como foi a agressão?

Por um instante fiquei paralisado, sem acreditar. A professora Jaiane estava segurando o portão sob uma chuva de cacetadas e chutes. Ela caiu e mesmo agredida conseguiu colocar a perna entre os portões que eram empurrados pelos policiais. Corri para ajudar. Conseguimos tirá-la de lá bem machucada. Quanto a mim, senti pancadas na cabeça e muitos chutes no corpo. Colocaram-me no chão e me algemaram, meus olhos ardiam em brasa pelo gás de pimenta. Não houve diálogo e não resisti. Alunos e pais gritavam e tentavam se aproximar mas eram afastados pela PM de cacetetes em punho.

Como está sua condição psicológica após o ocorrido?

Sinto-me devastado. Tento me manter forte mas a ansiedade e o pensamento recorrente estão me fazendo muito mal. Ontem passei o dia no hospital em consulta com clínico geral e ortopedista. Estou tomando analgésicos, antiinflamatório e calmante.

Como vê a determinação de convocar a polícia para uma questão que envolve apenas alunos, professores e diretores de escolas?

Desnecessário e inadequado. Não havia hostilidade ou ameaça ao patrimônio. Do ponto de vista educacional pedagógico, uma aberração.

A polícia alega que um soldado da PM foi ferido por uma garrafada na cabeça por um ‘notório militante do sindicato’.

Categoricamente: isso não é verdade. Não vi nada parecido e as imagens não deixam dúvidas. Não sou militante do sindicato, sou sindicalizado como milhares de professores. Dou aulas de manhã, à tarde e à noite em três escolas. Evocar a imagem de  “notório militante do sindicato” é uma falácia que não encontra respaldo na realidade. Não feri o policial, fui agredido.

Havia integrantes do MTST na ocasião? Que análise o senhor faz da adesão de movimentos sociais em apoio à causa da educação?

Havia. Homens, mulheres e crianças. Gente humilde. Minha avaliação é que o fechamento de escolas, sobretudo em períodos noturnos, tem impacto negativo no tecido social. Os mais pobres trabalham durante o dia e estudam a noite. Neste sentido a presença daquelas pessoas não era uma contradição.

Qual sua opinião a respeito da proposta do governo de separação por ciclos?

Não sou contrário a mudanças que tenham como objetivo a melhoria da educação pública. Os índices ruins de aprendizado são vergonhosos.
Contudo, uma mudança desta dimensão requer um amplo debate com a comunidade escolar: professores, famílias, estudantes. Não aconteceu.
No início deste ano, a mídia denunciou a superlotação de salas e agora, poucos meses depois, o governo anuncia o fechamento de 94 escolas e a desativação de períodos noturnos em muitas escolas.
Não vejo lógica.

A escola José Lins do Rego será desativada ou permanecerá com apenas um ciclo?

Ela já é uma escola de ciclo único, na prática não haverá alteração. Contudo, é uma escola cujas salas já sofrem com a superlotação –  várias escolas da região terão o período noturno fechado – e há uma clara e lógica percepção de que o problema da superlotação tende a se agravar. O argumento de que não há motivos para insatisfação nesta escola não dialoga com a realidade dos estudantes e da comunidade.

Como está a situação lá nesse momento?

Nenhum professor da unidade participou da ocupação. O movimento social já não está por lá. Decidimos ajudar os estudantes em termos de mantimentos e na medida do possível resguardar a segurança do local.

O governo vem sofrendo derrotas na justiça contra as reintegrações que tem pedido. Que projeção o senhor faz para o futuro das ocupações?

Não sei sobre o futuro destas  ocupações. Quero que isto acabe, quero dar minhas aulas,  me sentir bem novamente. Quero que o governo tenha sensibilidade com estes jovens, que ouça suas vozes e dialogue.

E qual o futuro do ensino público?

Os índices e as condições de aprendizado  são assustadoramente ruins. Não sou contra mudanças, vejo-as como necessárias. Contudo, é preciso dialogar, ouvir, ser sensível às demandas das comunidades.

Investir em educação em termos materiais, em formação de pessoal e valorização do espaço escolar e seus profissionais é de suma importância. Acredito que uma sociedade incapaz de educar seus filhos caminha inexoravelmente em direção a barbárie.

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