“Me sentiria enganado se Moro diminuísse o ritmo da Lava Jato”: a festa dos coxinhas na Paulista. Por José Cássio

A Paulista em festa
A Paulista em festa

 

Na avenida Paulista, em frente ao prédio da Fiesp, o público explodiu de felicidade por volta das 23h deste domingo, 17, com o sim do deputado Bruno Araújo (PSDB-PE).

O voto, de número 342, selava a autorização para ter prosseguimento no Senado o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, por 367 votos favoráveis e 137 contrários.

Imediatamente o edifício Luiz Eulálio de Bueno Vidigal foi iluminado com as cores da bandeira brasileira.

As milhares de pessoas que acompanhavam a votação pelo telão começaram a cantar o hino nacional, enquanto outros gritavam palavras de ordem conta Dilma e o PT – um grupo mais exaltado gritava “nossa bandeira nunca será vermelha”, e “Fora Lula, fora Dilma, fora PT”.

No Metrô até minha casa presenciei diversos bate-bocas entre contrários e favoráveis ao impeachment da presidente.

Mas o fato que mais me chamou a atenção estava em outro lugar: no plenário da Câmara dos Deputados.

Como é possível que Dilma, se até nós alertamos isso aqui no DCM, não tenha percebido que o mandachuva do PSD, Gilberto Kassab, no ministério das Cidades tramava pelo impeachment com o grupo de Temer e seu grande aliado, José Serra?

Um governo que abriga Kassab e Guilherme Afif Domingos em dois ministérios é acomodado. E, neste caso, não tem o direito de reclamar de fatores externos para justificar a derrota. Nem da mídia golpista, muito menos de setores conservadores e despolitizados da sociedade.

Na avenida, o que deu para notar é que o povo que torceu pelo impeachment tem uma certa noção sobre o que está se passando no país.

Perguntei ao consultor de investimentos Décio Camargo, 41 anos, se ele tinha ódio do PT.

– Eu não tenho ódio, mas acho que o momento é da população se envolver e apoiar iniciativas que levem a mudanças no país, ele disse.

Décio Camargo
Décio Camargo

 

Insisti dizendo que aquele que presidia a sessão de impeachment era Eduardo Cunha, um político que dispensa apresentações.

– Então, esse é o ponto, disse Décio. – Penso que temos de resolver uma coisa por vez. Assim que sair o impeachment, definimos a próxima etapa, e o Cunha não pode ficar impune por tudo o que fez.

Falamos de Sérgio Moro, e eu disse que achava que agora ele vai tirar o pé do acelerador até que tudo volte a ser como antes.

– Não acredito, ele disse. – E nem a sociedade vai permitir. Eu acho que esse processo de cobrança é sem volta. Não há como retroceder.

Décio não acredita também em Michel Temer.

– É um bandido. Um corrupto.

Com a mulher Helen Venturini na garupa da sua motoca, o microempreendedor Rogério Souza, 30 anos, saiu de Itu para acompanhar a votação em São Paulo.

– Hoje é um divisor de águas na vida do país, dizia ele, empolgado.

– Espero que agora os homens públicos comecem a pensar duas vezes antes de se envolverem em roubalheira.

Sobre Cunha, Temer e Cia, a mesma opinião de Décio Camargo.

– Na verdade, não confiamos em ninguém. Votei nulo na última eleição.

Fabio Brete, 42 anos, analista de sistemas, foi à Paulista com a namorada, Jéssica Notários, que trabalha como farmacêutica.

É outro que aposta no passo a passo e espera que a onda de punições para as irregularidades praticadas não se encerre por aqui.

– Eu não acredito que isso vá acontecer, mas me sentiria enganado se Sérgio Moro diminuísse o ritmo da Lavajato. Neste caso, ele se revelaria igual aos políticos que tanto condenamos.

No fim da história, o que restou é um país dividido nas ruas, mas muito parecido nos salões acarpetados do poder.

Kassab e Dilma que o digam.

Rogério e a mulher Helen
Rogério e a mulher Helen

 

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