‘Me sinto traído pelos mercenários do meu time’: o desabafo de um palmeirense desiludido

Rebaixamento duas vezes em tão pouco tempo mexeu com a cabeça de um torcedor fanático

Barcos, o Pirata, foi um dos raros que honraram o manto verde

Acordei na segunda. Começo de semana é sempre difícil, e ontem eu tive um senhor embate logo após o banho matinal. Ao abrir a gaveta das camisetas e observar as opções eu hesitei. Há algum tempo eu não pensava duas vezes para vestir o manto verde após uma derrota maiúscula (e vocês bem sabem que não me faltaram oportunidades), mas ultimamente isso não tem acontecido com tanta facilidade. O motivo não é a qualidade questionável do plantel do Palmeiras – nenhum time consegue manter um nível elevado de jogadores e futebol durante toda a história. O Corinthians ficou 23 anos na fila; o São Paulo passou a década de 60 sem levantar uma taça; o Santos ganhou um título entre 1979 e 1997. O meu time, apesar de ter levado a Copa do Brasil, está numa fase terrível, algo que os fatos mostram ser natural. A série B não assusta, já estivemos lá e eu recordo 2003 com carinho – fui em quase todos os jogos do campeonato no antigo Palestra Itália (que será sempre mais confortável do que qualquer arena). Não há motivos para alardes. Não viraremos uma Lusa ou Guarani, como muitos profetizam. No chancesNo way.

O que me incomoda são outras questões. Mais especificamente, duas questões.

A primeira delas é a torcida. Costuma-se dizer que jogador de futebol é burro, e isso me parece verdade em muitos casos. No entanto, eu tenho a impressão de que mais burro ainda é o torcedor. Ou melhor, os supostos torcedores – não vamos cometer injustiças.

Torcedor é aquele que apóia, incentiva, estimula. A palavra em inglês, supporter, é muito mais clara: aquele que sustenta. Mas nós sabemos que a última coisa que grande parte da torcida brasileira faz é dar suporte ao time. Os torcedores normalmente são mimados, agem conforme seus desejos são atendidos ou não. Se o time vai bem lotam estádio, se o time vai mal picham muro (isso quando não há ameaças e agressões). Desculpe-me, mas eu só tenho uma definição para isso: burrice. Incentivar, para tirar um time do buraco, é muito mais efetivo do que pressionar.

A torcida do Palmeiras é um exemplo de distorção do conceito, e isso me causa tristeza e desgosto. Muitos dizem que a culpa da possível queda do Verdão para a série B é de Luiz Felipe Scolari, outros dizem que é do elenco – eu digo que é da torcida. Quando a situação começou a ficar bem apertada para o Palmeiras, no começo do segundo turno, eu tive uma grata surpresa ao ver os jogos contra Sport e Ponte Preta. Foram duas partidas no Pacaembu que juntas superaram a marca dos 60.000 pagantes e deram ao Palestra 6 pontos, 6 gols e muita esperança. Nessa toada e com os ânimos renovados com o novo comandante Gilson Kleina, o Palmeiras ia usar a força que a torcida estava mostrando para engolir o Coritiba (que na altura era o primeiro time fora da zona de rebaixamento) no próximo jogo em casa. Algo me dizia que o Verdão também ia atropelar Cruzeiro, Botafogo e até Fluminense nas partidas que seguissem na capital paulista.

Mas o meu repentino encanto com a torcida palmeirense foi mais rápido do que os piques de Mirandinha no auge de seu condicionamento físico.

Na 25ª rodada, no clássico contra o Corinthians, os torcedores aprontaram após uma derrota doída. Revoltados, eles arrumaram briga, invadiram camarotes e quebraram o estádio Paulo Machado de Carvalho. O resultado foi a perda de mando para os próximos quatro jogos (já citados acima) que o Palmeiras faria em casa. Aquilo me deixou arrasado. Ali eu percebi que a torcida poderia se tornar o grande carrasco da segunda queda alviverde para a divisão inferior. Depois disso, só tristeza. Os resultados do Verdão foram de mal a pior e então deu-se início a covarde rotina: ameaça aos jogadores, pichação de muro e toda aquela palhaçada que já estamos acostumados. Me dói dizer, mas na minha breve história apaixonada de palmeirense eu tive mais desgosto do que orgulho com a torcida.

A segunda questão são os jogadores. Nosso colunista inglês Scoot Moore, em seus textos sobre o esporte, vem insistindo em destacar a triste postura dos atletas no futebol atual. Aquela história de jogar com o coração praticamente não existe mais e, de tão utópico que se tornou, ninguém mais cobra essa atitude. Mas, no mínimo, tem de ter dignidade.

Quando eu comecei a perceber que, enquanto me contorcia no sofá pedindo por um gol aos quarenta do segundo, os caras estavam jogando com pura displicência, eu broxei. Era para isso que eu torcia? Eu reservava meu dia e minhas emoções para ver um bunda mole dar um passe desprezível e nem ao menos demonstrar uma reação de insatisfação? Por que esses cretinos mereciam meu sofrimento? Será que eles sabiam que aquele chute grotesco e distraído no fim do jogo tinha o poder de tirar o meu sono? Pode cair, pode ir para o inferno se demonstrar honra, compromisso, hombridade, mas o pouco caso de determinados atletas tira o sentido do (até então) maior esporte de todos. Não precisa beijar escudo, mas tem que revelar que se importa com o time – e isso não se faz em entrevistas, se faz dentro de campo. É uma arrancada a mais, é um passe simples (que mostra que se joga para o time e não para si), é ir aos treinos, é uma passada de mão na cabeça ao errar um chute.

Não é só o torcedor que ama o time: o time também ama o torcedor. E eu não tenho me sentido amado.

Este texto foi publicado no Diário do Centro do Mundo em 13 de novembro de 2012

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