Médico de Hospital da USP diz que não atenderá petistas: “Cansado de tanta ignorância”

Atualizado em 28 de outubro de 2026 às 21:10
O médico do Hospital Universitário da USP Leomar Arroyo: atendimento exclusivo para bolsonaristas (crédito: arquivo pessoal)

O servidor e médico ortopedista Leomar Arroyo trabalha há mais de 30 anos no Hospital Universitário da USP, na zona oeste da capital paulista. Seu salário público é de R$ 35 mil, para trabalhar por meio período, por 24 horas semanais. O doutor ainda complementa sua renda atuando como médico particular em uma clínica no Pacaembu, bairro nobre de São Paulo. Em suas redes sociais (que, agora, estão todas fechadas), costuma postar imagens de bons momentos de sua vida, muitos deles de copo na mão, em viagens e restaurantes.

Nada disso significa, porém, que Leomar Arroyo esteja feliz. Na verdade, ele está muito chateado. E a culpa é do PT.

Na última segunda-feira (26), um dia após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para seu quarto mandato presidencial, dr. Leomar, que acaba de completar 70 anos, foi à sua página no Facebook anunciar uma decisão que acabara de tomar: ele não atenderia, dali em diante, qualquer paciente que fosse petista.

Em linguagem confusa e marcada pelo incorformismo com a democracia e pelos erros gramaticais, o veterano médico assim explicou a sua decisão:

“Eu quero que pacientes meus que votaram no PT não me procurem mais.

Existem muitos médicos petistas muito bons a maioria nunca foram médicos e sempre foram ligados a política (SIC).

Já estou velho e não aguento mais tanta ignorância. Com profundo desânimo vou tentar voltar a trabalhar sempre em condições precárias que foram dadas por esse governo corrupto (SIC).”

O Hospital Universitário da USP é um órgão auxiliar que pertence à estrutura da Universidade de São Paulo (USP), vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, cujo governador é Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito, inclusive, com o voto do dr. Leomar Arroyo.

O doutor Leomar Arroyo trabalha em um hospital público, mas não quer mais saber de atender pacientes petistas (crédito: reprodução)

Conforme apurou a reportagem do DCM, a postagem do servidor caiu como uma bomba no HU-USP, foi o assunto de todas as conversas nos últimos dois dias. Em um grupo de WhatsApp dos funcionários, chamado “Administradores HU”, o print da publicação do médico bolsonarista gerou intensa revolta, até porque enfermeiras e outros funcionários aproveitaram para relatar mensagens grosseiras que Arroyo costumava deixar nas páginas de quem manifestasse apoio a Lula durante este processo eleitoral.

O desconforto foi tamanho que o chefe da clínica médica do HU-USP, dr. Rodrigo Dias Olmos, advertiu o colega que aquela postagem trazia em si ilegalidades que poderiam levar à abertura de um processo administrativo contra o bolsonarista de jaleco.

De fato, a Constituição Federal assegura que ninguém seja privado de direitos por motivo de convicção política e garante igualdade sem discriminação. Isso é especialmente forte quando se trata de serviço público, atendimento conveniado ou situação de urgência (art. 5º, caput e VIII).

Já o Código de Ética Médica proíbe o médico de deixar de atender paciente quando não houver outro médico ou serviço disponível. Também proíbe o abandono de paciente sob seus cuidados (arts. 33 e 36). A legislação penal também pune o condicionamento indevido de atendimento médico-hospitalar emergencial (Lei nº 12.653/2012).

Devidamente informado sobre as irregularidades que cometera, Leomar Arroyo decidiu apagar a postagem e fechar as suas redes sociais, o que não diminuiu a revolta de seus colegas e subordinados.

O DCM enviou mensagens e tentou por três vezes contato telefônico com Leomar Arroyo, que não atendeu aos chamados nem respondeu às mensagens. Este veículo de comunicação também enviou mensagem à administração do Hospital Universitário, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.