Médico é afastado depois de investigação que apontou indícios de que abreviava a vida de pacientes na UTI. Por Daniel Trevisan

Médico Gustavo Deboni

Numa atitude rara, o Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina suspendeu, por unanimidade, o médico Gustavo Deboni da Silva do exercício da profissão por seis meses, prazo em que deverá concluir a a investigação das denúncias de que ele, trabalhando na UTI do hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, abreviou a vida de pelo menos oito pacientes.

O médico também trabalhava no Hospital Ruth Cardoso, em Camboriú.

Deboni foi denunciada pela Universidade do Vale do Itajaí, onde dava aula, em representação encaminhada ao Ministério Público do Estado de Santa Catarina.

O promotor  Maury Roberto Viviani começou a investigar o caso em março deste ano, por meio de um inquérito civil. Ele ouviu testemunhas e solicitou ao Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina que verificasse os fatos denunciados, com a a análise técnica de prontuários de pacientes que, nos últimos dois anos, teriam sido atendidos por Gustavo no último dia de vida ou que tiveram o óbito declarado pelo profissional.

Segundo o promotor, há indícios de que Gustavo Deboni teria abreviado a vida de pelo menos oito pessoas entre 2017 e 2019.

De posse dessas informações, ele abriu Ação Civil Pública para afastamento cautelar do médico e a proibição do exercício de atividade médica pelo SUS em Itajaí.

Ao mesmo tempo,  determinou à Polícia Civil que instaure inquérito para apurar a prática de homicídios.

O CRM, por sua vez, suspendeu o médico de imediato, enquanto também avança na apuração administrativa, que pode levar à cassação do seu diploma.

Deboni estava com a carreira em ascensão. Em maio, juntamente com o secretário de Saúde de Santa Catarina, André Motta, ele abriu o I Congresso Online de Medicina de Emergência, realizado pela Associação Brasileira de Medicina de Emergência.

O evento teve cerca de 15 mil inscrições e discutiu técnicas de enfrentamento da covid-19 em sua fase mais aguda, a da intubação, nas unidades de terapia intensiva, onde Deboni trabalhava.

Deboni era o responsável pela gerência médica no hospital e também sócio de empresa privada que oferecia serviço de saúde.

Em 2010, ele foi denunciado por efetuar cobrança por fora, no valor de R$ 5 mil, para fazer cirurgia pelo SUS. A paciente morreu, e o caso foi denunciado. Mas não houve punição para ele.

Em manifestação na imprensa local, o médico Deboni declarou sempre ter exercido a medicina de forma íntegra e ética nos 20 anos de carreira. Segundo ele, tudo será esclarecido em breve.

Quanto à suspensão das atividades profissionais determinada pelo CRM, declarou:

“Sobre a decisão preliminar, não tive ainda a oportunidade de me defender, que reafirmo, será realizada da forma correta. Isso apenas representa uma questão política em virtude do cargo que ocupava.”

Não é a primeira vez que um profissional de medicina é denunciado por abreviar a vida de pacientes.

Há mais de 21 anos, o auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães foi preso sob acusação de acelerar a morte de pessoas internadas no Hospital Salgado Filho, no Méier.

Ele passou a ser conhecido como “Anjo da Morte” e, pelo que se apurou, matava os pacientes para que os familiares fossem abordados por agentes funerários em seu plantão e, assim, ele recebesse propina.

Édson foi condenado a 76 anos de prisão, no julgamento de cinco casos. Acredita-se, no entanto, que ele teria sido responsável pela morte de mais de 100 pessoas.

Ele cumpre pena na Polinter, no Rio de Janeiro, e segundo outros presos, ainda ajuda a cuidar de colegas que passam mal.

Em 2012, em Curitiba, a médica Virgínia Soares de Souza foi denunciada também por provocar a morte de pacientes.

Denunciada e processada, acabou absolvida pelo Tribunal do Júri por falta de provas, mas ainda responde a outras denúncias, apresentadas depois.

A última informação pública que se teve sobre ela é que vivia reclusa em seu apartamento.

Gustavo Deboni é agora o profissional apresentado como o oposto do que se espera de um profissional de saúde.

Em vez de lutar pela vida, promoveriam a morte.

O afastamento é provisório, e é bom que todos os casos sejam, de maneira transparente, esclarecidos.

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