Reportagem exclusiva: Entenda a polêmica que levou o humorista Léo Lins a ser processado pela comunidade autista

Léo Lins e a namorada

Por Hellen Alves

O humorista Léo Lins, integrante do programa The Night com Danilo Gentili no SBT, está sendo processado após se envolver em uma polêmica com a comunidade autista depois da ‘brincadeira’ da namorada, atriz e ex-panicat Aline Mineiro. 

Conhecido por piadas ácidas, Lins corre o risco de ser condenado à prisão de um a três anos e multa por induzir ou incitar a discriminação de pessoa em razão de sua deficiência, como previsto na Lei de Inclusão da Pessoa com Deficiência nº 13.146/15.

Em seu artigo 4º, essa lei prevê que “toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação”.

Como as declarações foram realizadas por intermédio de meios de comunicação social, a pena ainda pode aumentar para dois a cinco anos de prisão.

‘Um pouco autista’, o capacitismo e ‘Autismo não é adjetivo’

Na sexta (18/09), dia do aniversário de Aline, ela compartilhou um story no Instagram no qual faz o seguinte comentário sobre o comportamento do namorado:

‘Olha o Leozinho, em todas as festas ele é assim, ele senta, não fala nada, é um pouco autista. Ele sempre é assim, ele é uma pessoa… é na vida, ele é realmente cancelado’. 

Nas imagens, o rapaz aparece sentado e isolado no canto de um sofá e esse comportamento, para o casal, estaria associado a  pessoas do Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

Veja vídeo abaixo:

Depois desta publicação, as redes sociais do casal foram invadidas por membros da comunidade autista, que apontaram o preconceito e capacitismo presente na fala da Aline. Eles demonstraram revolta por meio da hashtag ‘Autismo não é adjetivo’ e também por meio de uma petição para que o humorista seja investigado pelo Ministério Público.

O capacitismo corresponde à ideia de que existe um padrão corporal e neurológico; e aqueles que não se enquadram nesse ideal não podem participar plenamente das atividades sociais. Trata-se de uma forma de discriminação sofrida por pessoas com deficiência, como as que têm Transtorno do Espectro Autista.

Depois de receber críticas pelo comentário da namorada, Lins começou a responder internautas e chegou a convidar seus seguidores para ‘brincarem’ com a situação nos comentários. “Aos meus seguidores que gostam de se divertir, convido a irem nos comentários da minha última postagem”, escreveu.

Uma das mães da comunidade autista enviou uma mensagem para o humorista pedindo para que a Aline se retratasse pela comentário e recebeu uma resposta com expressões sexuais e pornográficas: ”Eu tentei, eu até pedi para ela aconselhar vocês a enfiarem um pênis gigantesco na boca”.

Repercussão e resposta da comunidade autista

Após o ocorrido, o apresentador Marcos Mion, que é pai de um menino autista chamado Romero e representante da luta contra a discriminação de pessoas autistas, publicou um vídeo no qual aponta o ‘campo de batalha’ que surgiu em torno do caso.

‘Eu exijo respeito a todos os autistas, mas, gente, eu tenho discernimento, maturidade e compaixão para saber que as pessoas cometem esse crime de forma inocente, por falta de conhecimento (…) Eu acredito, sinceramente, que ela não falou por maldade, mas também sei que teria acabado na hora se ela tivesse acatados aos primeiros pedidos para ela se retratar, para usar aquele momento como algo positivo para o autismo’, disse Mion.

Ele comentou que teve acesso à resposta da assessora da Aline afirmando que não tinha necessidade que ela se desculpasse e pediu para a comunidade manter o respeito, pois o caso seguiria na Justiça.

O apresentador é assessorado por Fatima de Kwant, que é mãe de três filhos e o mais novo, Edinho, tem autismo; especialista em autismo e coidealizadora da Rede Unificada Nacional e Internacional pelos Direitos dos Autistas (Reunida). Ela acompanhou o ocorrido de perto e orientou a comunidade por meio de diversas publicações no Instagram.

‘A gente já deu nosso recado. Há dias somos ignorados ou mais chacoalhados ainda. O que a gente faz? A gente se apoia nos nossos direitos. (…) No cenário horrível que surgiu com a resistência em pedir desculpas (como se fosse vergonha, ao invés de ser uma atitude nobre), acontece o que aconteceu: muito baixo astral, baixaria por parte do rapaz (não da Aline, não se esqueçam) e a devolução de comentários maldosos, o que não é bacana para a imagem da Comunidade. (…) O que adianta é seguir pedindo a retratação por meio daquilo que a gente tem: a lei do nosso lado’, escreveu Fátima em um dos posts.

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Pedido à Comunidade que me segue: NÃO DEVOLVAM AS OFENSAS A gente já deu nosso recado. Há dias somos ignorados ou mais chacoalhados ainda. O que a gente faz? A gente se apoia nos nossos DIREITOS. A situação era simples: A pessoa usa a palavra indevidamente, sem saber que não é correto. A comunidade pede retratação, a pessoa entende que é discriminação, se desculpa e aproveita para aprender o que é autismo. Isso num cenário ideal. No cenário horrível que surgiu com a resistência em pedir desculpas (como se fosse vergonha, ao invés de ser uma atitude nobre), acontece o que aconteceu: muito baixo astral, baixaria por parte do rapaz (não da Aline, não se esqueçam) e a devolução de comentários maldosos, o que não é bacana para a imagem da Comunidade. Quem me segue, sabe que eu sempre peço paz, até na hora de fazer guerra. Não dá para gastar energia amassando pedra. Postar os prints incitou algumas pessoas a devolverem ofensas terríveis, indo ao perfil dos artistas falar barbaridades. Será que isso adianta? Não adianta, gente. O que adianta é seguir pedindo a retratação por meio daquilo que a gente tem: a lei do nosso lado. Vamos ser espertos e manter o equilíbrio. Nós vamos estar acima, não abaixo do nível demonstrado até agora. Quem é da paz e quer se unir para fazer o certo: pedir retratação, e se apoiar nas leis, vem comigo e com a REUNIDA. Hoje, ao meio dia, faço uma live com os AUTISTAS, os protagonistas dessa história. Eles vão dizer o que é ser autista e por que não se deve usar interno como adjetivo. Vão falar com propriedade, e com a dignidade que me faz admira-los a cada dia. Edinho também tem uma mensagem que eu vou ler. Confesso que chorei quando ele escreveu. Saiu do seu coração amoroso e com a sabedoria e lucidez que tantos autistas tem. @fatimadekwant #fatimadekwant #autismo #direitosdosautistas #lbi #ofensanão #autismonãoéadjetivo

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Fátima conta que acionou o conselho jurídico da Reunida para lidar com o caso após receber grande volume de prints. A Comissão da Pessoa com Deficiência do Conselho da OAB de Minas Gerais emitiu nota, em que critica o humorista pelos ‘ataques e fotos que ridicularizam pessoas autistas’. 

‘Mister salientar que as ofensas as quais foram realizadas, não se confundem com o instituto da “liberdade de expressão”, nem a arte de expressá-las’, diz trecho da nota, que afirma também ter encaminhado ofício ao Ministério Público para que este tome medidas cabíveis.

A mãe de um menino autista de 2 anos e 1 mês, que recebeu a mensagem com expressões pornográficas, registrou boletim de ocorrência contra Léo Lins e está processando o humorista. ‘O que me motivou a processá-lo foi o jogo que ele fez, onde começou a perseguição com muito autistas e seus familiares. E a resposta que ele me deu também, que faz apologia ao estupro e denigre a mulher’, contou.

Ela disse que a princípio acreditou que ela (Aline) falou por ignorância sobre a realidade dos autistas e seus familiares, mas, ao ignorar os pedidos de retratação, a atriz teria reforçado estereótipos sobre os autistas.

‘Acredito que toda essa repercussão mostrou que a comunidade autista é forte e está cansada de brincadeiras que nos ofendem’, concluiu a mãe citada que está processando Léo Lins.

Leandro Mathias de Novaes, advogado criminalista e representante legal dessa mãe, afirmou que acredita na máxima de que “o meu direito termina, quando inicia o seu”.

“Ao expor opinião contraria à legislação incorre em suas consequências, no mais, quando se é pessoa midiática que consegue engajamento gigantesco em apenas um post, o que segue é uma devastadora consequência”, disse Novaes.

Ele também ressaltou o excelente trabalho realizado pela 1ª Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência (DPPD) em São Paulo e pela Reunida em apoio à causa autista.

“Uma pessoa que sofre uma condição especial, seja ela qual for, sempre merece um respeito maior, pois essas superam-se a cada dia e muitas vezes um simples ato de andar se torna algo quase impossível”, completou.

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) reúne desordens do desenvolvimento neurológico presentes desde o nascimento ou começo da infância.

As pessoas dentro do espectro podem apresentar déficit na comunicação ou interação social, padrões restritos e repetições de comportamentos – como movimentos contínuos, interesses fixos – e hipersensibilidade a estímulos sensoriais, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-5, que é referência mundial de critérios para diagnósticos. Mas cada uma delas será afetada em intensidades diferentes, resultando em situações particulares.

Sarita Melo, 27 anos, mãe de Elisa de 1 ano e 8 meses, afirma que viu na fala da Aline uma oportunidade de ensinar para as pessoas que ser autista é um mundo de infinitas possibilidades e não só “ser sozinho”, “quieto” ou “cancelado”.

‘Ela (Aline) empodera pessoas preconceituosas a achar que é “normal” você fazer uma brincadeira com uma deficiência’, diz Sarita. Ela relata que a comunidade autista foi alvo de ataques dos fãs que gostam de “humor negro” de Léo Lins, após o humorista tomar partido no caso.

Embora pessoas dentro do espectro possam apresentar déficit na interação social, utilizar esta característica para resumir o que é o autismo corresponde à reprodução de um estereótipo, pois, ‘nem todos os autistas serão quietos e sozinhos’, aponta Sarita.

Tom Cruise e Dustin Hoffman, em Rain Mann, filme que o casal Léo Lins e Aline deveriam ver. E aprender!

Pedido de desculpas e resposta

Na segunda (28), 10 dias após o início da polêmica, Léo Lins e Aline Mineiro publicaram um vídeo nas redes sociais para ‘apontar os fatos’.

Aline afirma que existem duas visões para quem assistiu o vídeo no qual ela diz que o namorado é ‘um pouco autista’. Ela reconhece que o dia-a-dia das famílias de autistas não é fácil porque ‘é preciso lutar por inclusão e por exames específicos’ que muitas não têm condições financeiras de arcar.

‘Quem não conhece muito a causa e fora desse dia-a-dia não faz essa associação da palavra a algo pejorativo. Vai achar que é uma brincadeira como muita gente faz, que é muito normal’, disse Aline.

Ela também disse que a palavra autista é originada do grego ‘autos’ que representaria uma ‘voltar-se para dentro’ e apontou que, no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o Transtorno do Espectro Autista é caracterizado por três sintomas específicos, sendo um deles a dificuldade de interação social ao qual Aline associou Lins.

‘De forma alguma, de todo o meu coração, de forma alguma foi de uma forma pejorativa’, enfatizou.

Durante o vídeo, Aline citou também que, ao chamar o namorado de ‘cancelado’, ela não estava fazendo relação ao autismo, mas uma brincadeira realizada por eles e seus seguidores.

O casal contou que permaneceu em silêncio durante este período, pois estavam recebendo muitos ameaças e não enxergavam espaço para dialogo. Aline menciona que chegou a conversar com Fatima de Kwant, mas, após dificuldades de contato, a assessora de Mion orientou seus seguidores, por meio de post no Instagram, a fazerem boletim de ocorrência com prints.

“Eu peço desculpas pelas mães de autistas que me mandaram mensagens educadas, que não compactuam com a mesma agressividade”, afirmou Aline ao dizer que foi alvo de ataques.

Léo Lins afirmou que é a favor do ‘bom senso’ e contra a ‘tortura digital’. ‘Começaram com ameaças, intimidação, denuncias ao perfil, ameaças às marcas, ameaças à família. Será que isso é para mudar a pessoa ou é só por ego?’, perguntou o humorista.

Ele contou que teve contato com o apresentador Marcos Mion antes deste publicar vídeo se posicionando sobre o ocorrido e discordou da colocação de Mion sobre a relação entre o autismo e o racismo.

‘A gente não quer guerra, a gente quer apresentar os fatos e encerrar isso’, disse Aline, e Lins concordou.

Com relação à resposta grosseira dada por Lins a uma das mães que pediu ao humorista para que Aline se retratasse, ele afirmou que se tratou de uma piada e que essa mãe ‘perseguiu’ a Aline para que ela ‘perdesse tudo’ – apresentando prints dos comentários.

Léo Lins deveria saber que liberdade de expressão não pode ser invocada para encobrir ofensas e humilhações.

‘Eu respondi com uma piada. Nossa, mas uma piada muito grosseira, mas uma piada, e, em momento algum, eu repostei essa piada. Essa piada foi endereçada a ela. É a maneira que um humorista utiliza’, disse ele.

Lins também comentou sobre as montagens que começaram a surgir nas redes atribuindo a resposta ao ‘Autizando’, perfil criado por Carol Nobre, que tem autismo leve, para divulgar informações sobre o Espectro.

Ele afirmou que a proporção do caso foi tão grande que conseguiram o telefone da mãe dele e afirmaram que estavam com um cadáver que tinha o nome de Lins. O humorista relatou que seus familiares foram ameaçados e que a ‘tormenta’ só acabaria quando eles se retratassem.

Aline e Lins relatam que receberam contato de membros da comunidade autista que ‘pensam diferente de todos os ataques’ que eles receberam.

Eles afirmaram também que a monetização do vídeo será doado para a causa autista e que publicarão conteúdo para ajudar na conscientização das pessoas sobre o autismo.

Ainda no dia 28, o The Night de Danilo Gentili recebeu o programador e gamer Willian Chimura, que é autista e especialista em informática na educação, para uma conversa sobre o Transtorno do Espectro Autista e durante a entrevista Léo Lins se desculpou diante do convidado e também perante toda a comunidade autista.

Procurado por e-mail e redes sociais, o humorista não se manifestou até a publicação desta reportagem. Caso o faça, o texto será atualizado. Aline Mineiro preferiu não comentar sobre o caso.

Piada, Léo Lins? Conta outra.