
Menos de 1% dos milionários brasileiros decide sair do país anualmente — e essa taxa vem caindo desde 2017, segundo dados inéditos da Receita Federal obtidos pela BBC News Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Os números ajudam a dimensionar um debate antigo: estaria o Brasil vivendo uma “fuga de ricos”, intensificada pela proposta de reforma do Imposto de Renda, que aumenta a tributação sobre quem ganha mais de R$ 600 mil por ano?
Apesar da projeção da consultoria Henley & Partners — que estimou a saída de 1,2 mil milionários em 2025, um salto de 50% sobre o ano anterior —, os dados oficiais indicam que, proporcionalmente, esse êxodo é pequeno e não acompanha o crescimento do número de milionários no Brasil.
A evolução da saída de milionários
Na série histórica da Receita, iniciada em 2011, o pico de saídas ocorreu em 2017, quando o país enfrentava crise política, recessão e a Lava Jato. Naquele ano, quase 1% dos milionários brasileiros entregou a declaração de saída definitiva, documento exigido de quem muda de residência fiscal.
Depois de uma queda durante a pandemia, as saídas voltaram a crescer desde 2022, mas sem repetir o impacto de 2017. Em 2025, até agosto, 1.446 milionários deixaram o Brasil — número absoluto expressivo, mas que corresponde a menos de 0,5% do total de milionários no país.
Por que a taxa importa mais que o número absoluto
Especialistas alertam que olhar apenas para o total de saídas pode dar a impressão de uma fuga em massa. Mas o número de milionários brasileiros quadruplicou em 12 anos: eram 81 mil em 2011 e passaram a mais de 366 mil em 2023.
Com isso, mesmo que centenas de pessoas deixem o país a cada ano, a proporção em relação ao total segue baixa. “Há uma saída constante, mas pequena, em torno de 0,5% ao ano na média do período. Essa taxa está diminuindo, em parte pelo maior intercâmbio de informações fiscais entre países”, avalia Pedro Humberto Carvalho Jr., pesquisador do Ipea.

Tributação explica a saída?
Para alguns consultores, mudanças na política tributária podem incentivar milionários a buscar residência em países com benefícios fiscais. Mas economistas como Sérgio Gobetti, também do Ipea, afirmam que a reforma do IR em discussão não é suficiente para provocar uma fuga em massa.
Mesmo com a proposta de tributar dividendos em 10%, o Brasil ainda estaria abaixo da média de taxação da OCDE. “Os privilégios de quem é muito rico aqui não desaparecem com essa reforma”, observa Gobetti.
Destinos preferidos
Entre os principais destinos dos milionários brasileiros que formalizaram a saída em 2025 estão Estados Unidos, Portugal, Reino Unido, Uruguai e Espanha. Países como Uruguai e Portugal oferecem regimes especiais de isenção para novos residentes de alta renda, o que ajuda a explicar sua atratividade.