Menos de 1% dos milionários brasileiros deixa o país a cada ano, mostra Receita

Atualizado em 29 de agosto de 2025 às 17:16
Agentes da Receita Federal. Foto: reprodução

Menos de 1% dos milionários brasileiros decide sair do país anualmente — e essa taxa vem caindo desde 2017, segundo dados inéditos da Receita Federal obtidos pela BBC News Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Os números ajudam a dimensionar um debate antigo: estaria o Brasil vivendo uma “fuga de ricos”, intensificada pela proposta de reforma do Imposto de Renda, que aumenta a tributação sobre quem ganha mais de R$ 600 mil por ano?

Apesar da projeção da consultoria Henley & Partners — que estimou a saída de 1,2 mil milionários em 2025, um salto de 50% sobre o ano anterior —, os dados oficiais indicam que, proporcionalmente, esse êxodo é pequeno e não acompanha o crescimento do número de milionários no Brasil.

A evolução da saída de milionários

Na série histórica da Receita, iniciada em 2011, o pico de saídas ocorreu em 2017, quando o país enfrentava crise política, recessão e a Lava Jato. Naquele ano, quase 1% dos milionários brasileiros entregou a declaração de saída definitiva, documento exigido de quem muda de residência fiscal.

Depois de uma queda durante a pandemia, as saídas voltaram a crescer desde 2022, mas sem repetir o impacto de 2017. Em 2025, até agosto, 1.446 milionários deixaram o Brasil — número absoluto expressivo, mas que corresponde a menos de 0,5% do total de milionários no país.

Por que a taxa importa mais que o número absoluto

Especialistas alertam que olhar apenas para o total de saídas pode dar a impressão de uma fuga em massa. Mas o número de milionários brasileiros quadruplicou em 12 anos: eram 81 mil em 2011 e passaram a mais de 366 mil em 2023.

Com isso, mesmo que centenas de pessoas deixem o país a cada ano, a proporção em relação ao total segue baixa. “Há uma saída constante, mas pequena, em torno de 0,5% ao ano na média do período. Essa taxa está diminuindo, em parte pelo maior intercâmbio de informações fiscais entre países”, avalia Pedro Humberto Carvalho Jr., pesquisador do Ipea.

Sede da Receita Federal. Foto: reprodução

Tributação explica a saída?

Para alguns consultores, mudanças na política tributária podem incentivar milionários a buscar residência em países com benefícios fiscais. Mas economistas como Sérgio Gobetti, também do Ipea, afirmam que a reforma do IR em discussão não é suficiente para provocar uma fuga em massa.

Mesmo com a proposta de tributar dividendos em 10%, o Brasil ainda estaria abaixo da média de taxação da OCDE. “Os privilégios de quem é muito rico aqui não desaparecem com essa reforma”, observa Gobetti.

Destinos preferidos

Entre os principais destinos dos milionários brasileiros que formalizaram a saída em 2025 estão Estados Unidos, Portugal, Reino Unido, Uruguai e Espanha. Países como Uruguai e Portugal oferecem regimes especiais de isenção para novos residentes de alta renda, o que ajuda a explicar sua atratividade.