Mensagens mostram que presidente do Paraguai mentiu e sabia de acordo secreto com o Brasil que lesava seu país

Benítez, do Paraguai, e Bolsonaro em Itaipú

O governo do presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, enfrenta uma crise política deflagrada pela assinatura de uma ata diplomática com o Brasil prevendo mudanças na distribuição de energia da hidrelétrica de Itaipu, controlada pelos dois países.

No texto, o Paraguai se comprometia a comprar energia mais cara. O pacto firmado em maio deste ano foi mantido clandestino até 24 de julho, quando o presidente da estatal Ande (Administração Nacional de Eletricidade), Pedro Ferreira, renunciou após discordar dos termos.

Benítez, aliado de Bolsonaro, cancelou o acordo para evitar o impeachment, mas os problemas continuam.

Interferências privadas e a precipitação de Jair Bolsonaro em baratear o custo doméstico da energia comprada de Itaipu arrastaram o Brasil para o olho do furacão.

O advogado José Rodríguez González, assessor do vice-presidente Hugo Velázquez, confessou à Procuradoria ter atuado nas negociações entre os dois países para beneficiar a empresa paulista Leros, comercializadora de energia.

O jornal ABC Color teve acesso a mensagens dando conta de que Mario Abdo Benítez sabia tudo o acordo, ao contrário do que vinha falando:

O presidente da República, Mario Abdo Benítez, recebeu pressão do Brasil para assinar o ato secreto de 24 de maio e o contrato regulatório.

Abdo Benítez não estava apenas ciente da seriedade do acordo secreto, como também pediu que ele permanecesse secreto, que nada fosse dito, e continuou insistindo para que o chefe da ANDE assinasse o contrato. Ele até escreveu que a ANDE não era a única coisa importante do Paraguai.

Nosso jornal tem acessado comunicações reveladoras que nos permitem entender as alternativas que cercaram a assinatura do acordo bilateral com a República Federativa do Brasil.

O conteúdo reflete as pressões e ameaças dos brasileiros, mas também as reações das autoridades paraguaias e da ANDE. Portanto, optamos por publicar esses detalhes que chegaram às nossas mãos – eles não são todos e provavelmente refletem apenas uma parte do processo – para que os cidadãos saibam em que ambiente o documento foi assinado.

O acordo foi assinado em segredo no dia 24 de maio em Brasília e reflete o cenário que se aproxima do Paraguai com vistas à renegociação de Itaipu em 2023.

Em 5 de março deste ano, o presidente Mario Abdo Benítez apressava a ANDE para resolver as coisas com a Eletrobrás e a Itaipu.

“PEDRO, apressa solução da ANDE Eletrobras. Está tudo parado. Temos que movimentar a economia, a Itaipu é uma ferramenta. Não se pode ganhar tudo em uma negociação”.

Ferreira respondeu que faria o melhor porque tudo o que os brasileiros impuseram aumentava as tarifas com impactos de até 400 milhões de dólares.

Na terça-feira, 12 de março, uma delegação chefiada pelo presidente viajou para o Brasil. Eles anunciaram que era para a renegociação do Anexo C do Tratado de Itaipu, juntamente com Bolsonaro.

Um dia antes dessa data, em 11 de março, o presidente escreveu para Ferreira: “Espero que não briguem entre si em Brasília. Seria a última gota. As pessoas observam e criticam. Se houver diferenças, elas não podem ficar públicas”.

Na mesma data, o ministro da Fazenda, Benigno López, também viajou ao Brasil em 12 de março e informou à imprensa brasileira que o acordo deveria ser “justo e rápido” entre as partes. Lopez participou de um jantar de luxo preparado em São Paulo pelo advogado e empresário Nelson Wiliams. (…)

Na sexta-feira, 5 de julho, às 3h55, o presidente escreve para Ferreira. “O Paraguai não pode ter duas posições diante dos brasileiros. Eu já perguntei a Luis (Castiglioni) o que você me perguntou. E ele concordou em enviar uma instrução escrita sobre a aprovação das atas e as instruções para o Ande. Espero que tudo corra bem e seja cumprido, ou o chanceler não terá autoridade alguma com o Brasil. É muito claro”.

Às 6:57 daquele dia, Ferreira vai mais longe que em todos os dias anteriores e escreve: “Presidente, se for de alguma utilidade, negocie minha cabeça e não o Ande. Eu vou entender e até mesmo apoiar essa posição.”

E acrescenta: “Eu sei o quão difícil é a posição do Presidente, mas não posso assinar algo contrário ao meu país, não conscientemente, e além de tudo algo que acho que vai te prejudicar muito.”

Estes são os documentos vazados para o nosso jornal. Nós ignoramos se depois deste dia houve mais conversas. Pedro Ferreira demitiu-se do cargo em 24 de julho.

 

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