Tarso Genro, ex-governo do RS e ex-ministro de Lula, comentou no X o “erro” do Jornal Nacional sobre a inflação e as refinarias da Petrobras, corrigido numa nota lida em 30 segundos pela âncora no sábado (11):
O Estado não é e nunca foi “transparente”, é opaco pela natureza das suas funções e oculto no emaranhado do seu Direito. Mas pode ser democrático, permeável, criador de instituições públicas (estatais ou não-estatais) que promovam melhores condições, para que as pessoas sejam mais iguais perante a lei. A imprensa, seja ela qual for, também não é, nunca foi e nem nunca será transparente. Trabalhando nela podem ter bons e maus jornalistas, que naturalmente devem proteger suas fontes e podem revelar, ou não, as informações que dispõem para ajudar – segundo a sua consciência moral – seus patrões ou arremeter contra seus interesses imediatos em determinados casos.
O Estado e a imprensa, todavia, têm uma diferença essencial, pois ambos também são “poderes de fato”, que sempre pautam a “grande política” nacional. Qual é essa diferença? O Estado pode ser controlado pela sociedade, nas eleições periódicas que mudam os seus Governos, segundo a Constituição do país; a imprensa não pode ser controlada pelos cidadãos do Estado porque ela integra um âmbito privado do poder constituído , que deve ser livre de censura e livre para circular.
É a Revolução Americana, a Revolução Francesa, a Constituinte de 88 que nos dizem isso. Essa diferença entre o Estado e a Imprensa – hereditária ou não, coloca uma questão importantíssima para as democracias atuais, em todo o mundo: se a liberdade de imprensa é um valor quase “absoluto” e, em algum momento – na defesa dos interesses ideológicos e “de partido” que ela defende – ela mente descaradamente, prejudicando o interesse público, como ela deve responder?
Não, certamente, pela imposição de uma censura policial, como era na época do regime militar, mas sendo empresas privadas que visam lucro e influência política, como é natural na democracia moderna, se a notícia é uma mentira dolosa construída como uma informação-mercadoria para dar uma vantagem política ou econômica para alguém, seus proprietários deveriam responder financeiramente, de forma proporcional ao prejuízo que causaram a sociedade, através da informação falsa que fizeram circular.
Nada é, porém, absolutamente transparente, nem o ser humano, nem o estado, nem as empresas, nem as “Transparências Internacionais”, pois a vida é um jogo de sombras em que “o respeito à alteridade não pode ser eliminado completamente.”
Só o totalitarismo absoluto é absolutamente transparente, pois ele diz, pela sua política e na voz da sua burocracia, o que realmente quer: a morte, a guerra, a devastação, a negação da ciência. E vejam, ele tem apoio numa certa parte da imprensa livre. Só a democracia radicalmente democrática, contudo, pode se aproximar da transparência, com a busca processual da verdade no contencioso político regulado pela lei, para que o mundo possa se tornar menos cruel e desavergonhado.
O que, aliás só será possível se sobrevivermos à ira genocida que tomou conta do Império e que a própria imprensa acrítica ajudou a naturalizar. A forma pela qual é perseguida a “transparência” na sociedade burguesa infodigital, que a relaciona apenas com a corrupção e a liberdade de informação, pode ser até uma forma de igualar os contrários. Se isso embrulha tudo no mesmo senso comum de urgência, todos os rituais, formas, especificidades, gravidades dos atos para cometer um crime, podem ficar igualados, independentemente da brutalidade social que deles resultam.
Assim já é possível perceber no senso comum, por exemplo, que um juiz que recebe legalmente um penduricalho, que deve ser eliminado por outra lei, pode ser igualado ao gestor de uma rachadinha, que quer ser Presidente, ou mesmo a um Presidente que cultuava a morte dos seus cidadãos, com a ferocidade doentia da sua ironia… ou até mesmo igualado a Daniel Vorcaro, que queria comprar a República e a consciência da nação inteira.
A comunicação rasa que iguala a todos já resultou em suicídios, estimulou assassinatos de pessoas e proporcionou a exibição pública de tormentos psíquicos, que já estão atravessando os limites da sanidade. O perigo é que esta coação sistêmica pode convencer a sociedade que todos somos iguais na loucura e na corrupção. E tudo se desfaça na falsa legitimidade da guerra e na luta sem travas de um contra o outro, sem uma pausa para refletir.
O Jornal Nacional fez uma reportagem de 5 minutos com um pseudo especialista que mentiu dizendo que a Petrobras não tem refinaria e aí faz uma retratação de 30 segundos. É muita safadeza bicho. https://t.co/ll4BhpgsPF
— Julio Freiress 🇧🇷 (@JFreiress_) April 12, 2026
