Mercedes fecha atividades em Juiz de Fora e pode deixar 900 desempregados. Por Rafaella Dotta

Empresa tem pretensão de transferir a maioria das atividades para o porto de Vitória (ES) / Foto: Divulgação/Mercedes-Benz

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR RAFAELLA DOTTA

A cidade de Juiz de Fora, na zona da mata mineira, poderia estar celebrando as duas décadas da presença da empresa Mercedes-Benz. Porém, um anúncio da empresa de que pretende mudar a maior parte da fábrica para outros estados encheu o aniversário de preocupações. Estima-se que 900 trabalhadores serão demitidos e que a economia da região sofra uma baixa.

A empresa confirma a pretensão de transferir a maioria das atividades para o porto de Vitória (ES) e para São Bernardo do Campo (SP). Atualmente, a fábrica de caminhões em Juiz de Fora é considerada uma das mais modernas da América Latina. Em uma audiência pública na Câmara Municipal de Juiz de Fora, na segunda (15), o diretor de comunicação da Mercedes-Benz Brasil, Luiz Carlos Moraes, sustentou que a empresa continua a apostar no mercado brasileiro, mas está se mudando para aumentar sua eficiência.

“Nós precisamos de crescimento e só crescimento faz aumentar o número de empregos”, afirma. “A logística Rio de Janeiro – Minas Gerais não funciona. Vamos atacar os problemas. Não podem transferir para nós um problema que é de infraestrutura”, cobrou o diretor de comunicação da Mercedes, se referindo aos poderes públicos. Luiz Carlos ainda comenta que as vendas de caminhões no Brasil caíram de 172 mil unidades em 2011 para 75 mil em 2017.

Prefeitura cobra governo de Minas

O prefeito Antônio Almas (PSDB), presente na audiência, afirma que procurou parlamentares do Senado e da Câmara Federal para auxiliar na solução do problema. “Na verdade, a Prefeitura e a Câmara Municipal são os menores atores. Os grandes atores são a Assembleia Legislativa, Governo do Estado, Congresso Nacional e a Presidência da República. São eles que têm relação mais direta com a diretoria da empresa”, argumenta.

Trabalhadores e responsabilidade social

Os funcionários e funcionárias da Mercedes-Benz Juiz de Fora são cerca de 1.150 e, destes, 900 podem perder o emprego. Eles se amedrontam de fazer parte dos 13 milhões de desempregados do país, o que indica dificuldade na procura por uma nova ocupação. E consideram injusto que, depois de anos, percam a estabilidade trabalhista sem reconhecimentos da empresa à qual se dedicaram.

Durante a audiência pública, o presidente da Federação Estadual dos Metalúrgicos, Marco Antônio de Jesus, argumenta que o governo de Minas forneceu um grande incentivo (financiamento, terreno e fiscal) em 1999, na implantação da Mercedes, e cobra que a empresa responda a esse investimento com responsabilidade social.

Uma matéria do jornal Folha de S. Paulo, de fevereiro de 1999, aponta que a empresa recebeu R$ 770 milhões do governo de Itamar Franco, através do Fundo de Desenvolvimento de Indústrias Estratégicas e do Fundo de Incentivo à Industrialização. O valor corresponderia hoje a R$ 3,6 bilhões, corrigidos pelo IGP-M.

Segundo o sindicato, na negociação entre Mercedes e trabalhadores que aconteceu na terça (16), a empresa confirmou que fechará parte das atividades já em maio, atingindo 215 trabalhadores, sendo 15 diretos, que se manterão na empresa, e 200 terceirizados. A justificativa, informa o sindicato, seria que o governo do Espírito Santo se comprometeu a regularizar os documentos para os caminhões em 4 dias a partir da sua produção, enquanto no estado de Minas isso demora cerca de 20 dias.

A empresa teria anunciado ainda que em junho de 2020 pretende diminuir a produção de caminhões Actros em Juiz de Fora, mantendo apenas a produção de cabines. Podem ser demitidos 700 trabalhadores diretos. O resultado da negociação é de que o sindicato, junto à empresa, pensará em outros produtos para que a fábrica em Juiz de Fora não paralise.

Mercedes, Fiat e a guerra fiscal

“Hoje o Brasil vive uma guerra fiscal entre os estados. Basta ver o pacote que o governador de São Paulo lançou. Minas Gerais tem um dos maiores ICMSs do país e precisa rever alguns posicionamentos. A guerra fiscal não é só na Mercedes. Há rumores de que a Fiat já mandou parte da fábrica para Pernambuco e agora está discutindo a ida de toda a fábrica pra lá”, comenta João César da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora.

O governo de Minas foi procurado, e respondeu que existe o compromisso em manter a fábrica, mas não divulgou mais detalhes.  O deputado Betão (PT) apresentou sete requerimentos à ALMG. Dentre eles, um pedido de levantamento de informações sobre financiamentos e outros benefícios que o Estado tenha dado às empresas desde 1996.

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