Mestre da reportagem, José Silveira morre de covid aos 87 anos

Publicado originalmente no Associação Brasileira de Imprensa

José Silveira

A triste notícia se espalhou rapidamente e lotou, de imediato, as redes sociais, com mensagens de amizade, afeto e gratidão a José Silveira, grande jornalista, mestre de uma geração de também grandes jornalistas, que passou pelas mais importantes redações do país. Foi secretário de redação do Jornal do Brasil, chefe de redação da sucursal da Folha de S. Paulo, no Rio, pilotou o projeto de renovação do então jornal Ultima Hora. Silveira, 87 anos, morreu nesta terça-feira, 26, de Covid-19, no Rio de Janeiro.

Silveira deixou parte de sua história registrada no livro “Memórias da Imprensa Escrita”, organizado pelo jornalista Aziz Ahmed, lançado em setembro de 2018. Em seu depoimento, o gaúcho de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, conta como começou no jornalismo, em 1° de julho de 1954, no antigo semanário Hoje, de Porto Alegre. A matéria de estreia atendia à pauta do dono do jornal, Venâncio Toscano Barbosa: “Meu filho, você quer mesmo ser jornalista? Vai descobrir por que a manteiga desapareceu do mercado”.

Livro e documentário sobre ‘Jornal do Brasil’

Uma das edições mais marcantes do Jornal do Brasil – a do dia seguinte à promulgação do AI-5 – é tema da entrevista de José Silveira, chefe do copydesk e secretário de Redação do jornal durante décadas, à jornalista Belisa Ribeiro. O vídeo está online, em www.jbmemoria.com.br, e mostra como uma primeira página teve influência marcante na História do país.

“Seu” Silveira foi definido assim por Paulo Francis: “… Aquele José Silveira – o maior dos copydesks – pegou um artigo do Antônio Houaiss de oito laudas e transformou em duas. E não ficou faltando nada” (em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 26/8/1996).

O site integra o projeto Jornal do Brasil – História e memória, que vai gerar um livro, a ser lançado pela Editora Record, e um documentário em vídeo com entrevistas de jornalistas notáveis como Walter Fontoura, Janio de Freitas, Carlos Lemos, já gravados, e outros que, como Silveira, tornaram o JB um jornal inesquecível pela influência que teve nas grandes transformações do jornalismo brasileiro e na vida social e política do Brasil. A cada mês o site exibirá trechos destas entrevista em um total de doze “homens de ouro” do jornalismo, até a data de lançamento do livro.

No site também é possível ler relatos de profissionais que relembram seus melhores momentos vividos no jornal e ver as matérias a que se referem, com links diretos para a hemeroteca da Biblioteca Nacional, que digitalizou todos os exemplares do Jornal do Brasil, desde o primeiro, em 1891, até o final do jornal impresso, em agosto de 2010.

Fonte: Observatório da Imprensa

Depoimentos:

“Complicações decorrentes da Covid-19 levaram de nós há dois dias o amigo jornalista José Silveira. O corpo vai ser cremado, me informou a filha adotiva, a fotógrafa Isabela Kassov, que nos vai adiantar mais informações tão logo seja possível. Zé e sua mulher, Vera, estavam vivendo há alguns anos na casa de repouso da Fundação Humboldt, em Jacarepaguá. Foi um exemplo de jornalista para todos nós que tivemos a chance de conviver com ele. Que sua alma tome o caminho da Luz. A foto tem uns dois anos, num dos nossos encontros na casa de repouso, ele e Vera.”  Romildo Guerrante

“Mais um grande jornalista se vai, mas deixa importante legado sobre a fundamental importância da profissão do bem informar”. Paulo Jeronimo Sousa

“Silveira era imbatível em tantas coisas, entre elas dar os apelidos mais criativos! Ninguém escapava. Saudades, Silveira.”  Kristina Michaellis

“Grande jornalista e grande mestre meu e de minha geração no Jornal do Brasil.”  João Batista Abreu

“José Silveira era sinônimo de competência, caráter e humildade. Um craque na história do JB que o Romildo enalteceu e assino embaixo. Ele, como secretário da Redação e virtual chefe do copy (bons tempos) gostava de sacanear a economia. Vinha tantas matérias marretadas de SP com lobbies dos diversos setores (e as matérias abusavam do termo “o setor”, que quando virei pauteiro da Economia (75_76) ele sempre brincava “como está o setor hoje”. Quando o saudoso Paulo Henrique Amorim veio editar a Economia, em fins de 76, ele trouxe dois copys (Joaquim Campelo, mestre da língua, e José Carlos de Assis, que foi consolidar o material sobre as greves no ABC, trazido para as páginas da Economia pelo PHA). Adorava conversar com o Zé. O último papo, tem mais de dois anos, foi num banco a porta da Itália, na N. Sra da Paz, antes de ele se mudar.”  Gilbeto Menezes Corte.

“Jamais trabalhei diretamente com Silveira, mas tinha uma grande amizade por ele. Em 1980, quando cheguei em São Paulo, ele – então chefiando a sucursal da Folha no Rio – foi um dos que indicou meu nome ao Boris Casoy. Graças a isso trabalhei bons momentos na Folha e fiz ali ótimas amizades. A minha com ele cresceu mais ainda. Visitei-o, anos atrás, no Retiro onde ele morava com a mulher….. Está ai um nome para a nossa Cristina Serra promover com plantio de uma árvore na Mata Atlântica.”   Marcelo Auler

“Que tristeza. Silveira era um ícone, memória do jornalismo, um papo inteligente e sempre irônico. Além disso, era um folião de primeira hora. Sempre o encontrava nos blocos, que ele frequentou até onde teve energia. Que vá em paz e sua família fique bem.” Regina Zappa

“Aprendi tudo com Silveira quando entrei no JB, em 1969, na sede da Av. Rio Branco. Certa vez, coloquei um ” via de regra” em meu texto. Ele me chamou e rindo, disse: Vera,, via de regra é….( Impublicável). Nunca mais usei o termo. Ele tinha um humor muito especial. E sempre perguntava quem tinha interesse na matéria que o repórter fazia. – Olha, quando alguém lhe der entrevista, fique esperto e veja qual o interesse por trás – dizia.” Vera Perfeito

“Silveira era um ícone, memória do jornalismo, um papo inteligente e sempre irônico. Além disso, era um folião de primeira hora. Sempre o encontrava nos blocos, que ele frequentou até onde teve energia. Que vá em paz e sua família fique bem.” Cristina Piazeck

“José Silveira foi um dia melhores amigos que eu tive desde que entrei para o Jornal do Brasil. Grande incentivador, fazia questão de assinar minhas matérias, ainda que contrariando o chefe de reportagem, Lutero Soares, que veio a ser meu primeiro marido e achava que eu não podia assinar matérias, sob pena de o acusarem de protecionismo. Nunca em minha vida profissional recebi tanto apoio, tanta força e incentivo como desse querido e inesquecível amigo Zé, MUITO querido por várias gerações que tiveram o orgulho e a honra de trabalhar a seu lado e sugar tanta sabedoria e lucidez. VIVA JOSÉ SILVEIRA, MOTIVO DE ORGULHO PARA OS VERDADEIROS PROFISSIONAIS DO JORNALISMO! Descanse em PAZ!Cristine Ajuz

“O José Silveira foi um dos grandes jornalistas de uma geração de grandes jornalistas, de uma geração que viveu a renovação do jornalismo brasileiro nos anos 1950 e 1960, sofreu os horrores da ditadura militar sem abandonar a essência do jornalismo e nos ajudou na transição para a democracia, sempre do lado do bom jornalismo”Marcelo Beraba

“A última vez que encontrei com José Silveira foi em março de 2015, no Fiorentina, em homenagem organizada pelos amigos do antigo JB, em memória a Sergio Fleury e José Luiz Alcantara, que aliás, este último faz, exatamente no dia de hoje, seis anos de falecimento. Conversamos muito, felizes de nos rever. Lembramos dos tempos em que ele dirigiu a assessoria de imprensa da Vale do Rio Doce e que, com seu eterno dom de bom jornalista, sempre arranjava maneira de descolar entrevistas com os executivos da mineradora, que rendiam manchetes para editoria de Economia. Lembramos também da nossa origem gaúcha e dos encontros casuais nos domingos, no calçadão da praia de Ipanema, quando ele ainda morava no bairro. Sentado à mesa do quiosque no posto 10, cigarrinho acesso na mão, mesmo depois da cirurgia de safena, cuja cicatriz era aparente, Silveira dizia brincando : “Tomando o remedinho”, apontando, com humor, para o cigarro indevido.
Grande José Silveira! Vá em paz”.  Lívia Ferrari

“José Silveira, grande jornalista, foi mestre de uma geração de grandes repórteres, profissão fundamental para a sociedade. O jornalismo está de luto.” Vitor Iorio

“Tristeza. Soube que morreu o José Silveira, o melhor de todos os jornalistas que conheci numa redação. Sabia fazer, ensinava e gostava paca de colocar na rua um jornal bem feito respeitando o leitor. Tudo com seu humor cáustico e sua visão dos detalhes. Vai seu Zé, mas sua memória fica.” Álvaro Caldas

“Minha tristeza é imensa. Convivi com Seu Zé por quatro anos na sucursal da Folha, depois nos reencontramos no JB. Minha admiração por ele é imensurável. Sabia tudo de jornalismo, era crítico, exigente. Aprendi muito com ele, comentava os erros da imprensa com humor sarcástico. Tanto assim que fez um guia de poucas folhas orientando a equipe sobre o que não se deve escrever. Lembro-me ainda do “quem aborda é pirata”, “morreu ao dar entrada no hospital porque tinha uma guilhotina na porta”, “via de regra, as mulheres sabem”, e por aí ia. Foi o precursor dos manuais de redação. Era rigoroso, mandou o Perin medir a avenida Presidente Vargas e adjacências e verificar quantas pessoas cabiam em um metro quadrado para não errar a estimativa de público no Comício das Diretas, na Candelária. Ele gostava de ensinar, devo muito a ele, que me burilou como jornalista. Ele ensinava a pensar. A equipe era pequena e unida. Levava todo mundo pra casa dele, frequentada por gente alegre e inteligente. A mulher Vera e a filha Isabela sempre receptivas com tanta gente dentro de casa, muitas festas, muitos churrascos com carne que vinha do sul. Era muito querido e respeitado. Inesquecível. Meu querido Zé Silveira, você mora no meu coração”. Teca Lobo

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!