Meu 2010 segundo Epicuro

As crianças estão bem: na sala de Ranelagh Gardens com o pai

Epicuro, com razão, afirmou que a fonte primeira de felicidade está na ausência de dores – físicas e mentais.

Importante: ele disse isso tendo uma capacidade extraordinária de suportar dor e extrair contentamento mesmo em circunstâncias extremas de sofrimento. Em sua agonia final, ele disse a um amigo que o visitava que estava feliz ali, por ter alguém querido por perto.

Logo depois morreu.

Bem, este intróito foi para dizer que, pelos critérios de Epicuro, 2010 foi um ano bom para mim. Mais um,

Minha saúde foi boa. Não tive dores, crises de saúde, achaques. Joguei tênis quando pude, caminhei com disposição pelas ruas da Europa.

Mentalmente, sem ter alcançado nenhum nirvana, tive em 2010 uma paz aceitável. Numa escala de 0 a 10, 7. Dá para passar de ano direto, segundo a contagem escolar de meus anos de estudante.

Profissionalmente, me consolidei na mídia digital. Um movimento estrategicamente necessário. Também fiz uma troca boa da Editora Globo para a Editora Abril. Me sinto em casa na Abril enquanto na Globo sempre me vi como um estranho.

Também avencei num projeto que é caro: um livro sobre o jornalismo e os jornalistas.

As crianças estão bem. Estão aproveitando a temporada européia do pai muito bem. Têm hoje uma visão cosmopolita do mundo, não paroquial.

Li bons livros, escrevi bastante, viajei para lugares interessantes. Quando imaginei que conheceria Oslo, a avançada capital da Noruega? E Davos, na neve que deixa os Alpes com uma beleza esbranquiçada assombrosa? Vi na Museum Square, em Amsterdã, a derrota da Holanda na final da Copa. Revisitei o Parreirinha, uma casa de fados em Lisboa.

Deitei na grama do Hurlingham Park no verão para ler.

Vi Paul McCartney no Hyde Park e Ray Davies no Southbank Centre.

Comi a quiche Lorraine do Pain Quotidien de Parsons Green, tomei o sorvete de chocolate da Pizza Express, reencontrei o Club Sandwich da Champs Elysee.

Me dei um iPad, que me oferece numa tela portátil, ao mesmo tempo, uma livraria, uma biblioteca e uma banca de jornais.

Mamãe.

Mamãe está bem assistida.

Gostaria que ela estivesse lépida como sempre para que eu pudesse trazê-la para Londres por algum tempo. Costumava levar minha mãe nas viagens que fazia com a família. Ela era a primeira a arrumar as malas.

Bem, esta é uma sombra num ano que num modo geral foi ensolarado.

Boy, you’re gonna carry that weight for a long time.

Agora, bem-vindo 2011.