“Meu amigo morreu”: o desabafo de um colega de Fachin é atualizado pelo vexame casuísta no STF

Wilson Ramos Filho e o ex-amigo Fachin

Não há nada mais devastador e revelador que a palavra de um amigo decepcionado.

Em abril de 2018, o professor de direito Wilson Ramos Filho publicou um texto no Facebook sobre Edson Fachin.  

Intitulado “Meu amigo morreu”, ele não cita Fachin, mas fala da relação de ambos desde a universidade, em 1976.

A publicação datava do dia 5, quando o ex-colega negou liminar do STF para suspender a prisão do ex-presidente. 

“Apoiei-o quando quis ser nomeado, não sem antes enfaticamente desaconselhar”, escreveu Ramos Filho, o “Xixo”.

“Dizia-lhe que aquilo iria acabar com a vida dele, que perderia a privacidade, a liberdade e teria que conviver com um monte de gente que nada tem a ver conosco”.

Em junho, Ramos Filho ainda chamaria Fachin de “verme”. 

“Ele tanto fez que conseguiu. E desse jeito ele morreu.”

O enterro só terminou nesta quinta, 15, com Fachin abraçado ao que restou da Lava Jato.

Que não descanse em paz.

“Meu Amigo Morreu”

Entramos juntos na faculdade, em 1976. Fizemos política estudantil, perdendo todas as eleições. Rimos e choramos variadas vezes. Na vida é assim. Celebramos o nascimento de sua filha bem antes da nossa formatura.

Meu amigo, inteligência vivaz, sempre tinha uma tirada, um sujeito de espírito. Nunca nos afastamos. Ele foi ser advogado público, lecionava Civil. Eu, advogado trabalhista.

Tivemos muitas causas em comum, defendendo coletivos vulneráveis.

Por culpa dele, grande incentivador, voltei para a vida acadêmica sem abandonar as lutas sociais. Devo-lhe isso. Um grande sujeito.

Sempre houve reciprocidade, entretanto. Quando sua companheira precisou, eu era dirigente estadual da OAB. Na segunda vez deu certo. Fui de conselheiro em conselheiro por ela, não como favor. Ela tinha todas as credenciais e era a melhor opção.

Meu amigo queria ser magnífico, com maiúscula. Novamente me envolvi por inteiro na pré-campanha. Na última hora, achou melhor não disputar.

Meu amigo não gostava de perder.

Fizemos viagens juntos, pelo Brasil, ao México, à Europa. Algumas vezes em casais, outras só os meninos, oportunidades em que esticávamos a prosa no bar dos hotéis. Eu adorava a sagacidade dele. Era um sujeito adorável sob vários aspectos.

Apoiei-o quando quis ser nomeado, não sem antes enfaticamente desaconselhar. Dizia-lhe que aquilo lá iria acabar com a vida dele, perderia a privacidade, a liberdade e teria que conviver com um monte de gente que nada tem a ver conosco.

Sentia-se convocado. Quase como se fosse predestinado. Ele tanto fez que conseguiu. Cumprimentei-o, explicitando que desta última vez, a em que ele foi escolhido, meu candidato era outro. Elegante, compreendeu. Era muito gentil esse meu falecido amigo.

E deste jeito morreu. Não posso dizer que foi surpreendente seu passamento. Já vinha dando sinais. Não foi uma morte súbita. Mas muito me entristeceu.

A morte tem dessas coisas, ainda que esperada ao cabo de longa enfermidade ou ultrapassado o limite razoável de anos, deixa um vazio, um aperto no peito, uma angústia, sei lá.

No fundo, até o último momento, ficamos com a irracional esperança de que a morte não ocorra. Morrendo, só restam as virtudes. Na morte é assim.

Morreu. Foi um grande amigo. Nunca mais riremos, choraremos, tomaremos vinho ou chimarrão. E já sinto saudades do meu finado amigo.

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