Meu café com Assange na prisão. Por Slavoj Žižek

Atualizado em 2 de dezembro de 2019 às 11:51

PUBLICADO NO BLOG DA BOITEMPO

POR SLAVOJ ZIZEK

Na semana passada visitei Julian Assange na prisão de Belmarsh, e um pequeno detalhe, em si mesmo insignificante, me chamou atenção como traço emblemático de como as prisões operam em relação ao nosso bem-estar (nós visitantes e detentos). Todos os guardas foram gentis e faziam questão de ressaltar que tudo que fazem é para o nosso próprio bem. Por exemplo, Assange está confinado em uma solitária 23 horas por dia. Ele precisa fazer todas as suas refeições sozinho em sua cela. No intervalo de uma hora em que lhe é permitido sair de seu cubículo, ele é proibido de se encontrar com outros prisioneiros e a comunicação com o guarda que o acompanha é reduzida ao mínimo. Qual é o sentido desse tratamento tão severo, visto que ele agora só está sob custódia protetiva? (Ele já cumpriu sua sentença na prisão e agora só está detido para evitar que ele escape da extradição.)

A explicação que me foi dada era previsível: “é para o próprio bem dele, como Assange é um traidor, odiado por muitos, ele pode sofrer algum ataque caso se misture com outras pessoas…” Mas o exemplo mais insano desse “cuidado para nosso próprio bem” aconteceu quando a assistente de Assange que me acompanhou nos trouxe uma xícara de café. O copo foi posto sobre a mesa onde eu e Julian estávamos sentados. Retirei a tampa de plástico do copo, dei um gole e o devolvi à mesa sem tampá-lo novamente. Imediatamente (não mais do que 2 ou 3 segundos depois) um guarda me abordou e gesticulou com as mãos indicando que eu deveria recolocar a tampa no café.

Tudo isso foi feito muito gentilmente – trata-se de uma prisão “humanista” se é que se pode falar nesses termos. Fiz conforme fui orientado, mas fiquei levemente surpreso com o pedido do guarda. Na saída, aproveitei para indagar alguns dos funcionários da prisão sobre o porquê disso. A explicação que veio, é claro, foi mais uma vez calorosa e humana. Algo do tipo: “É para seu próprio bem e proteção, senhor. Você estava sentado à mesa ao lado de um perigoso presidiário, provavelmente propenso a atos violentos. E ver entre vocês dois, e perto de seu rosto, um recipiente aberto cheio de café quente…” Senti um enorme calor em meu coração por ter sido tão bem-protegido e cuidado, e só imaginei a que tipo te ameaça eu estaria exposto se estivesse visitando Assange em uma prisão russa ou chinesa – os guardas daqueles países sem dúvida ignorariam tal nobre medida de segurança e me exporiam a um terrível perigo como esse!

Minha visita ocorreu dois dias depois da Suécia ter retirado seu pedido de extradição de Assange, claramente admitindo, depois de uma rodada adicional de interrogação de testemunhas, que não há fundamentos para respaldar uma condenação. No entanto, essa decisão aparece num contexto sinistro. Quando há duas demandas por extradição, um juiz precisa decidir o que vem primeiro, e se a Suécia fosse escolhida isso poderia comprometer a extradição aos EUA – além do risco de postergação indefinida, a própria opinião pública sueca poderia se virar contra ela… Agora, com apenas os EUA requerendo a extradição, a situação é muito mais clara.

Então agora é hora de fazer a pergunta elementar: a Suécia realmente precisou de 8 anos pra questionar duas testemunhas e assim estabelecer a inocência de Assange, arruinando sua vida nesse longo período e contribuindo para o assassinato de sua reputação? Agora está mais do que evidente que as acusações de estupro eram uma mentira, nem os órgãos estatais suecos nem a imprensa do Reino Unido que participou do assassinato de sua reputação tiveram a decência de oferecer um claro pedido de desculpas.

Onde estão agora todos aqueles jornalistas que escreveram que Assange deveria ser extraditado para a Suécia ao invés de para os EUA? Ou, aliás, aqueles que saíram falando por aí que Assange era paranoico, que não havia extradição alguma o esperando e que se ele deixasse a embaixada equatoriana ele seria liberto depois de duas semanas encarcerado, e que tudo que ele precisa temer e o próprio medo? Essa última afirmação é para mim uma espécie de prova negativa da inexistência de Deus: se houvesse um Deus justo, então um raio atingiria o autor dessa obscena paráfrase da famosa frase de F. D. Roosevelt da época da grande depressão.

Como eu já citei a China aqui, não posso me furtar a lembrar meus leitores do que desencadeou os enormes protestos em Hong Kong que vem se desenrolando por meses: a demanda de que Hong Kong aceite a lei que irá coagir autoridades de Hong Kong a extraditar seus cidadãos à China quando ela assim solicitar. Parece que o Reino Unido é muito mais subserviente aos EUA do que Hong Kong o é à China: o governo britânico não vê nada de problemático em extraditar aos EUA uma pessoa acusada de um crime político. A demanda chinesa é ainda mais justificada visto que Hong Kong é em última instância parte da China – a fórmula é “um país, dois sistemas”. Nesse sentido, a relação entre o Reino Unido e os EUA é obviamente a inversa: “dois países, um sistema” (o estadunidense, é claro). Propaga-se o Brexit como um meio de afirmar a soberania britânica e agora, com o caso de Assange, já podemos ver no que culmina tal soberania: subserviência às demandas caprichosas dos Estados Unidos.

Agora é a hora de todos os partidários honestos do Brexit se oporem firmemente à extradição de Assange. Não estamos mais lidando com uma questão política ou jurídica menor, mas com algo que diz respeito ao significado fundamental da nossa liberdade e dos nossos direitos humanos. Quando o público em geral compreenderá de uma vez por todas que a história de Assange é a história deles mesmos e que o destino deles será profundamente afetado pela decisão de extraditá-lo ou não? Devemos ajudar Julian não em virtude de alguma motivação humanitária vaga ou por simpatia diante de uma vítima miserável, mas sim por conta de uma preocupação com nosso próprio futuro.