Meu delírio comunista é Juliana Paes inteligente, Ludmilla na quarentena e vacina no braço do povo. Por Nathalí

Juliana Paes em manifestação pró-golpe em 2016

Depois de vestir a camisa da CBF e ajudar a eleger um genocida, a atriz bolsonarista Juliana Paes entrou na brincadeira dos pseudo-isentões: “Eu, Bolsominion?”, escreveu em suas redes em dezembro do ano passado, convencendo um total de zero pessoas.

Agora, ela parece ter desistido de esconder sua posição política assassina: criticou a CPI da COVID a plenos pulmões, valendo-se do mais baixo argumento: uma “sororidade” que jamais, sob nenhuma hipótese, seria neste momento cobrada por quem de fato compreende o que é o feminismo.

“Certa ou errada? não importa. Intimidação, coação, fala interrompida. Mulher merece respeito em qualquer ambiente”, escreveu, em uma defesa à médica negacionista Nise Yamaguchi.

Ah, pronto: a essa altura do campeonato, a global que apoia o presidente das “fraquejadas” quer, convenientemente, posar de feministona.

Nada novo sob o sol: as mais privilegiadas, não raramente, se valem do feminismo quando lhes convém enquanto ajudam a colocar os inimigos das mulheres no poder.

A novidade aqui é que se admita dizer, no país das valas comuns, das mais de 500 mil mortes e pouco mais de 22% da população vacinada, que “não importa” se a médica negacionista está certa ou errada.

Importa, sim. Ah, se importa.

Para as famílias das vítimas, importa. Pra quem se sente agredido pela realização da Copa América sobre os corpos dos brasileiros mortos por seu próprio governo, importa. Já para quem “não ultrapassa a bolha da classe alta”, como bem disse o ator sensatíssimo Icaro Silva, não importa, mesmo.

Ter que lidar com apelos por sororidade a uma negacionista que comissivamente tem ajudado a dizimar a população brasileira é um insulto – mais um neste país de insultos. Mas nada se compara ao vídeo medonho publicado por Juliana após a repercussão negativa de sua tentativa de defesa a Yamaguchi.

Ao reclamar da cobrança por se posicionar politicamente, disse não concordar com as “ideais arrogantes de extrema-direita” ou com “delírios comunistas da extrema-esquerda”.

“Não, não sou ‘bolsominion’, como adora acreditar quem não me conhece de perto. Tenho críticas severas a esse que nos governa. Por outro lado, eu tampouco quero que governe essa oposição que se insinua para o futuro. Onde eu tô? Em um ambiente que não me sinto representada por ninguém.”

É difícil, não apenas pra mim, entender o que afinal esta criatura quer dizer com “delírios comunistas”, mas é fácil identificar a falsa simetria que ela tenta nos empurrar goela abaixo: como se esquerda e direita se equivalessem, como se a “arrogância da direita” – que é, na verdade, nesses tempos, um claro projeto de genocídio – fosse comparável aos tais “delírios comunistas” da esquerda.

A atriz foi criticada publicamente por vários artistas – Letícia Sabatella, Icaro Silva, Patrícia Pilar, Bruno Gagliasso – mas ninguém foi tão preciso quanto Samantha Schmütz – ainda imbuída de justíssima revolta pela morte do ator e amigo Paulo Gustavo.

“Quem fala de comunismo em qualquer contexto político desse país não sabe do que se trata o comunismo e nem o Brasil”, escreveu.

De fato, Juliana Paes é leviana ao falar de comunismo sem fazer ideia do que isso possa significar – um clássico do bolsonarismo – e, mais do que isso, cita uma ‘polarização’ que já não existe.

Nós não estamos mais vivendo uma polarização. Estamos vivendo a necropolítica em toda a sua crueza e violência. Estamos sendo mortos pelo Estado, impiedosamente. Neste momento, não cabem mais falsas simetrias. Não cabe mais opor Lula e Bolsonaro. “O que dá para opor é morte e vida”, como escreveu Ícaro Silva, cirúrgico.

Afora que, pode reparar:  geralmente quem reclama por não querer se posicionar já se posicionou à extrema-direita, ao lado dos genocidas, já vestiu camisa da CBF, já comeu filé mignon em frente à FIESP, etc. etc.

Quem diz “Fora Bolsonaro e Fora Lula” – como escreveu a ex-BBB Sarah Andrade (que passou de favorita a bolsominion burra depois de ter esbanjado negacionismo em rede nacional) ao sair em defesa de Juliana Paes, sem sombra de dúvidas votará em Bolsonaro novamente em 2022, só não tem coragem de dizer isso agora, quando dizê-lo equivale a confessar-se genocida por legenda.

“Fora Bolsonaro” não equivale a “Fora Lula” porque não é pura e simplesmente a rejeição a um candidato, é a rejeição a uma política de morte.

Quem não compreende isso – que é o mínimo – não tem o direito de ir a público pedir respeito, sororidade, igualdade ou o que quer que seja.

Aliás, por falar em “não ter o direito”, quem também saiu em defesa de Juliana Paes foi a funkeira Ludmilla, a mesma que faz show no Copacabana Pallace no meio de uma pandemia e vive vive postando stories aglomerando como se não houvesse um vírus mortal no ar.

Referindo-se a Samantha Schmütz, a cantora postou um tuíte tomando partido na treta e deletou em seguida:

“Aquela atriz que tá revoltada com o mundo xingando geral, botando a culpa em todo mundo, e quem não tem, inclusive me atacou, e eu só queria a tranquilidade e paciência da Juliana Para responder, o que tem de errado nisso?”

Cara de pau tem limites, amiga. Se você escolheu viver como se a pandemia não existisse e não tivesse matado mais de meio milhão de pessoas, sustente a sua escolha. Aglomere, do alto de seus privilégios, mas lide com as críticas mais do que justas de quem não pretende permitir que negacionistas saiam impunes. (“Tem que sustentar o deboche”. TODDYNHO, Jojô).

O que a Regina Duarte da Nova Era – e aqueles que ousam defendê-la publicamente – tem não é “tranquilidade e paciência”, é uma cara de pau sem limites. Além, é claro, do privilégio de poder falar merda sem maiores consequências.

Meu delírio comunista é Juliana Paes calada, Ludmilla cumprindo a quarentena e vacina no braço do povo.