
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou nesta quinta-feira (2), em entrevista à Rádio Gaúcha, que Michelle Bolsonaro não quer participar da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pode até desistir da disputa por uma vaga no Senado. A declaração ocorre em meio à crise aberta entre a ex-primeira-dama e o enteado, que expôs um racha no bolsonarismo.
“Eu sinto que ela não quer participar”, disse Valdemar ao ser questionado sobre a presença de Michelle na campanha. Apesar da avaliação, o dirigente afirmou que a situação entre ela e Flávio estaria resolvida após reunião realizada com o senador na quarta-feira (1º).
“O Flávio está tocando a campanha para frente, a Michelle resolveu sair da presidência do PL Mulher e nós estamos tocando a nossa vida”, afirmou. Para Valdemar, a saída da ex-primeira-dama representa uma baixa importante para a sigla, especialmente pela força dela entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas.
Segundo o presidente do PL, Michelle comunicou pessoalmente, na terça-feira (30), que queria deixar o comando do PL Mulher. Na mesma conversa, teria sinalizado que talvez não concorra ao Senado. “Ela me disse que queria sair da presidência do partido. Eu não tenho o que fazer, que talvez não fosse candidata a senadora”, relatou. “Ela fez um trabalho no PL Mulher que eu não sei se outra mulher teria condições de fazer”, completou.
Veja o momento da fala:
Valdemar também criticou Michelle por compartilhar um vídeo do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) sobre festas que teriam sido promovidas por Daniel Vorcaro, do Banco Master. Para ele, a ex-primeira-dama errou ao divulgar um conteúdo sem confirmação.
“Olha, ela fez muito mal de pôr o vídeo do Garotinho. O Garotinho não tem credibilidade”, disse. “O posicionamento da presidente Michelle, e eu tenho ela no melhor conceito do mundo, foi desaprovado”, acrescentou.
A crise começou na quarta-feira (24), quando Michelle publicou dois vídeos nas redes sociais afirmando ter sido maltratada e humilhada por Flávio. Ela expôs uma briga com o senador e disse que os dois não se falam desde o fim de 2025.
A discussão envolve a disputa pelo palanque do PL no Ceará, onde o partido tentou se aproximar do ex-governador Ciro Gomes (PSDB), movimento criticado por Michelle.
A ex-primeira-dama negou que tenha feito o depoimento para tentar substituir Flávio como presidenciável e rebateu “fofoqueiros vazadores” que, segundo ela, espalharam a versão de que estaria incomodada com a escolha do senador para a disputa ao Planalto.
Levantamento da consultoria Bites obtido pelo Globo mostra que a crise abriu uma frente de ataques contra Michelle dentro da própria direita. Desde 27 de junho, um terço das 300 mil menções à ex-primeira-dama nas redes sociais trazia críticas. Nos últimos cinco dias, 103 mil publicações associaram Michelle a nomes distantes do núcleo de Flávio ou a atacaram diretamente.
Entre os termos usados nas críticas aparecem Michelle Firmo, nome de solteira da ex-primeira-dama, e “Dona Michelle”, em tom irônico. Ela também passou a ser chamada de “traidora” e de “feminista” por perfis bolsonaristas. O movimento atingiu aliadas como Damares Alves, Tereza Cristina e Celina Leão.
“Os dados mostram que a direita se sente autorizada a atacar Michelle. As publicações do campo bolsonarista trazem, sobretudo, críticas à ex-primeira-dama e a aliadas, que acabam se prejudicando no segmento”, afirmou André Eler, diretor técnico da Bites.
A saída de Michelle do PL Mulher amplia o desgaste da pré-campanha de Flávio, que tenta reduzir a rejeição entre eleitoras. O caso também reacendeu críticas sobre a relação do senador com Daniel Vorcaro, apontada por aliados como um dos principais focos de vulnerabilidade da candidatura.