Mick Jagger está muito velho para ser pai? Por Paulo Nogueira

Destruindo o estigma antivelhice: Jagger
Destruindo o estigma antivelhice: Jagger

Li um artigo cuja autora dizia, condenatória: “Mick Jagger está velho para ser pai”. Não me lembro se ela colocava exclamação no final, mas o sentido era o mesmo.

Na verdade, ela parecia gritar sua reprovação diante da notícia de que Jagger, aos 72 anos, vai ser pai pela oitava vez. A mãe é uma bailarina de 29 anos.

A argumentação é que Jagger já não tem vigor para cuidar de uma criança. Ele não teria energia para acudi-la no meio da noite numa gripe, por exemplo. Outro ponto é que a criança logo seria órfã: a expectativa de vida de um homem na Inglaterra é de 79 anos.

A autora também lembrou as inevitáveis gozações, segundo ela.

Todos os pontos negativos da paternidade em idade avançada foram apontados. Mas e os demais? Foram esquecidos.

O amor, por exemplo. É o oitavo filho de Jagger. Obviamente, é um homem que gosta de ser pai. Quantos pais jovens simplesmente ignoram seus filhos? Ou, num divórcio, somem?

É preciso lembrar também que uma criança com sete irmãos jamais estará sozinha. Na morte do pai, terá muitos ombros com os quais compartilhar a dor.

E olhemos para o lado de Jagger.

Ele é velho para dançar aos 72, para cantar, para fazer excursões? Para o sexo?

Ele deveria estar pronto para morrer, apenas?

Num ensaio magnífico sobre a velhice, Cícero afirmou que todas as idades têm seu encanto. “Todo mundo anseia por viver muito, mas quando conseguem isso as pessoas se lamuriam”, escreveu Cícero.

Entre os encantos da vida, por que não o de ser pai aos 72 como Jagger?

A velhice é estigmatizada, e artigos como o da crítica de Jagger contribuem para isso. É como se a sociedade esperasse que você dissesse: “Me desculpem por ainda estar vivo”.

Jagger desmistifica a velhice, e deve ser aplaudido por isso. Não estou dizendo para todos os septuagenários imitá-lo e procriar alegre e livremente. O que digo é que a mensagem de Jagger às pessoas de sua geração é: “Vivam a vida”.

Os comentários do artigo não foram exatamente simpáticos à autora. O melhor deles, na minha opinião, dizia o seguinte: “Não é da sua conta”.

Concordo.

Não é da conta de ninguém se uma mulher decide não ter filhos. E também não é da conta de ninguém se um homem decide ter seu oitavo filho, como Jagger, aos 72.

Vivamos a vida. A nossa, não a dos outros. Já estaremos contribuindo, assim, para a paz universal.

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