Miguel Ángel tem um filho. Por Moisés Mendes

Miguel Ángel Spinella tem um filho
Miguel Ángel Spinella tem um filho
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG DO AUTOR

Todos os anos, nessa época, o jornal argentino Página 12 faz o que um dia o jornalismo brasileiro aprenderá a fazer: publica, por vários dias, fotos e mensagens escritas por familiares e amigos de desaparecidos políticos na ditadura.

É uma página emocionante de declarações de afeto e de amor e das mais variadas formas de recordar.
Entre as fotos publicadas esses dias, entre cartas, poemas e outras lembranças, está essa de Miguel Ángel Spinella. A mensagem diz apenas: tem um filho.
Os argentinos mantêm viva a memória do horror, para que preservem também a memória dos seus mortos e desaparecidos.
Preservar a memória é mais do que prestar homenagens. É celebrar os que lutaram e é também manter-se em alerta no combate permanente contra o fascismo.
Preservar a memória é estar sempre atento. É pegar pela mão os jovens que precisam saber de coisas terríveis que eles não viveram.
No Uruguai, sempre no dia 20 de março, há 25 anos, familiares e amigos de desaparecidos políticos saem às ruas com retratos dos seus mortos que lutaram contra os ditadores.
É a Marcha do Silêncio, que teve outros formatos em 2020 e este ano por causa da pandemia.
Nós esquecemos tanto o que vivemos sob a ditadura que aqui o maior de todos os torturadores é elogiado pelo presidente da República. E não acontece nada. Na Argentina e no Uruguai é diferente.

A marcha do silêncio

Miguel Ángel Spinella tem um filho. Foi preso e desapareceu em 1978 aos 25 anos.