Milhares de venezuelanos voltam a seu país devido à crise do coronavírus. Por Fania Rodrigues

Venezuelanos rumo à fronteira de volta a seu país

POR FANIA RODRIGUES, de Caracas

As rodovias colombianas estão lotadas outra vez de venezuelanos que caminham centenas de quilômetros em busca de uma vida melhor. Três anos após o auge da migração venezuelana a cena se repete, mas dessa vez o caminho é em direção contrária. Milhares de pessoas estão saindo principalmente do Peru, Equador e Colômbia e voltando à Venezuela.

O jovem Tony Vasquez, de 21 anos, decidiu deixar o Peru, no início de março, depois que o governo peruano adotou a quarentena como medida para conter o contágio do coronavírus.

Durante o período de um ano, trabalhou em vários lugares, mas conta que nem todos os patrões pagavam. “Alguns se aproveitavam da nossa situação de imigrante. Por último, trabalhei em uma fábrica de papelão e em um restaurante, mas só ganhava o suficiente para sobreviver”, diz.

Com a quarentena a situação ficou insustentável para os venezuelanos, pois muitos vivem com o dinheiro que ganham no dia. E o governo peruano não ofereceu uma solução social aos imigrantes. Tal como saiu da Venezuela, Tony colocou a mochila nas costas e começou a caminhar, na esperança de conseguir carona pelo caminho.

Foi assim que chegou na fronteira do Peru com o Equador. “Meu dinheiro acabou. Tive que parar em uma cidade próxima à fronteira e minha família me mandou dinheiro da Venezuela”, afirma.

Mas, a parte mais difícil ainda estaria por vir. Todas os limites fronteiriço dessa região estão fechados nesse momento, devido a pandemia do covid-19.

“Conseguimos cruzar a primeira fronteira, mas o serviço migratório entre o Equador e a Colômbia não está funcionando e tivemos que pagar atravessadores para passar por um caminho ilegal. Cruzamos pelas montanhas, no meio do mato, quase selva”, conta o venezuelano.

A jornada foi longa e com muitas dificuldades: cansaço, fome, frio e preocupação, de quando e como iria chegar ao seu país. “Quando cruzei a fronteira da Venezuela pensei: já estou em casa”, diz Tony, em entrevista por telefone. Ele já está no estado venezuelano de Yaracuy, na região norte da Venezuela, onde o esperava sua família.

Assim também, a vendedora ambulante Yara Vicente decidiu que já era hora de voltar à Venezuela. Saiu de Bogotá, no último domingo, levando o filho de três anos e acompanhada de outras três pessoas de sua família.

Já havia caminhado mais de 100 km quando nossa equipe conseguiu falar com a ela, com a ajuda do diretor da Fundação Banquete do Bronx, Orlando Beltran, que colaborou com essa reportagem.

Yara conta que os imigrantes não estão recebendo nenhum tipo de assistência por parte do governo colombiano, nem do grupo político do líder opositor venezuelano Juan Guaidó, reconhecido pela administração de Ivan Duque como o presidente interino da Venezuela.

“Fomos ao serviço de migração dessa região, próximo à Bogotá, e também à sede do governo do estado. Disseram que não estão ajudando a nenhum venezuelano nessa crise do coronavírus”, relata.

Outro grupo de venezuelanos, que fazem a mesma travessia, afirma que foi até a “embaixada venezuelana em Bogotá”, administrada por Juan Guaidó. “Fomos e não havia ninguém, tudo estava fechado”, afirma um dos venezuelanos em vídeo enviado à nossa equipe de reportagem.

Entregados a própria sorte, os venezuelanos agora fogem, não apenas da pobreza que encontraram nesses países, mas também do coronavírus.

Nos últimos 15 dias, mais de 6 mil cidadãos ingressaram pela fronteira do estado venezuelano de Táchira, através da Ponte Internacional Simón Bolívar, considerada um dos passos fronteiriços com o trânsito de pessoas mais intenso do continente, depois fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Já no estado de Apure, mais ao sul da fronteira, ingressaram cerca de 2 mil venezuelanos, no mesmo período. Nesse caso, a maioria está voltando do Peru e do Equador.

Os relatos de quem chega são comoventes. Um dos voluntários dos abrigos para os imigrantes, que estão próximos à Ponte Internacional José Antônio Páez, de Apure, Matias Pacheco, falou com nossa reportagem e contou o que tem visto e ouvido dos venezuelanos que estão retornando.

“Escutei relatos de gente que caminhou até 17 dias seguidos para chegar à Venezuela. Estão com bolhas nos pés, com os pés inchados e até sangrando. Então o atendimento médico que recebem é primeiramente para atender a situação dos pés e também do coronavírus”, destaca.

Uma vez em território venezuelano, o governo de Nicolás Maduro estabeleceu alguns protocolos de atendimento. Depois do registro migratório, os cidadãos recebem atendimento médico e realizam exame para o coronavírus. São recebidos em um abrigo público, onde guardam quarentena de 15 dias.

Durante esse tempo é fornecida alimentação e remédios de forma gratuita. Depois são transportados em ônibus públicos até seus estados correspondentes. Antes de partir realizam outro exame para descartar o contágio de coronavírus.

Para voltar não tem ajuda internacional

Enquanto venezuelanos caminham até 17 dias seguidos, com os pés sangrando e cheios bolhas, o serviço humanitário para prestar assistência a esses cidadãos sul-americanos virou um negócio bilionário.

Entre 2017 e 2019, os Estados Unidos forneceram mais de U$ 656 milhões (R$ 3,3 bi) em assistência humanitária. Isso inclui mais de U$ 467 milhões (R$ 2,3 bi) para apoiar aos venezuelanos que imigraram.

E cerca de U$ 190 milhões (R$ 950 milhões) para atender projetos humanitários dentro da Venezuela. As informações são da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, pela sigla em inglês).

Além do mais, os recursos destinados a assistência humanitária a imigrantes venezuelanos, esse ano, podem superaram todos os recordes. Isso porque a USAID informou recentemente que foram solicitados aos doadores internacionais (fundos de investimentos sociais, ONGs e governos) cerca de U$ 2,1 bilhões (R$ 10,5 bi) para apoiar a resposta humanitária na Venezuela em 2020.

Desse montante, um total de U$ 1,35 bilhão (R$ 6,7 bi) será designado a atender imigrantes venezuelanos em 17 países da América Latina e do Caribe.

Triagem de cidadãos venezuelanos

Nos primeiros dois meses do ano foram entregues U$ 110 milhões (R$ 550 milhões) por doadores internacionais. “A maioria de desses recursos são recebidos por ONGs vinculadas à oposição da Venezuela, cujos recursos são administrados no exterior e muitas vezes nem entram na Venezuela”, afirma o deputado opositor José Brito (partido Primeiro Justicia), ex-aliado de Juan Guaidó.

A USAID opera com mais de 75 organizações, em 231 municípios em todos os 24 estados da Venezuela. Entretanto, na página web da USAID as informações relacionadas aos recursos enviadas às ONGs venezuelanas e a organismos internacionais para atender o problema da crise nesse país não estão discriminados, ou seja, deveria haver uma lista pública de organizações e quanto receberam para executar projetos.

O que aparece são os valores separados por fundos de investimentos, como por exemplo, alimentação, saúde, educação, etc. A Venezuela é o único país da América Latina onde que a USAID não detalha essas informações.

Apesar de recursos como esses, os organismos humanitários, como Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e ONGs de assistência humanitária, já não atendem aos venezuelanos, como o fizerem quando estavam saindo da Venezuela.

O diretor da Fundação Banquete do Bronx explica a situação. “Esses organismos e ONGs atenderam a situação dos venezuelanos quando eles queriam sair da Venezuela. Agora é muito diferente, já não tem mais a questão política, o drama é pelo coronavírus e pela ‘coronafome’. Os organismos internacionais desapareceram”, diz Orlando Beltran.

Além disso, os governos da Colômbia e do Venezuela estão com relações diplomáticas cortadas, desde fevereiro de 2019. Por isso dificulta gestão da crise dos imigrantes venezuelanos em território colombiano. E apesar de que o trânsito migratório entre os dois países está proibido, devido à pandemia, foi aberto um canal humanitário para permitir o ingresso desses venezuelanos.

Um dos motivos desse regresso massivo é que a Venezuela conseguiu controlar o contágio coronavírus. Atualmente, o país tem uma das menores taxas de contágio da América do Sul e foi a nação que realizou o maior número de testes de covid-19 na região. O governo venezuelano já executou cerca de 250 mil testes rápidos.

Além disso, a crise econômica provocada pela pandemia do coronavírus está entre as principais razões para a volta a casa, mas não é a única. Também estão os despejos forçados e a discriminação.

“A xenofobia que existia contra os venezuelanos foi acentuada com o coronavírus, estão usando isso como elemento de pressão para expulsá-los”, diz Pacheco.

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