Militares dos EUA que sobreviveram a ataque mais mortal do Irã acusam Pentágono de mentir

Atualizado em 9 de abril de 2026 às 17:08
Ataque do Irã a base dos EUA no Kuwait

Sobreviventes do ataque iraniano mais letal contra forças americanas desde o início do conflito contestaram a versão oficial do Pentágono e afirmaram que sua unidade, estacionada no Kuwait, estava perigosamente exposta. O bombardeio matou seis militares e deixou mais de 20 feridos.

Em seus primeiros relatos públicos, integrantes da base atingida descreveram à CBS News o que chamaram de falhas graves de preparação e proteção. Segundo eles, a narrativa apresentada pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, não corresponde ao que ocorreu no terreno.

Hegseth afirmou que um drone iraniano conseguiu “escapar” das defesas de uma posição fortificada. Os soldados discordam frontalmente: “Dizer que ‘um passou’ é falso. A unidade não estava preparada para se defender. Não era uma posição fortificada”, afirmou um dos militares feridos, sob anonimato.

Apesar das críticas, os sobreviventes destacaram a coragem e a rapidez dos colegas durante o ataque, o que ajudou a salvar vidas.

Ataque direto e devastador

Os relatos descrevem o que aconteceu em 1º de março, em uma instalação portuária no Kuwait com proteção limitada. Horas antes do ataque, alarmes indicaram a aproximação de um míssil, levando cerca de 60 soldados a se abrigarem em um bunker de concreto. Após o alerta de “tudo limpo”, eles retornaram ao trabalho.

Cerca de 30 minutos depois, um drone atingiu diretamente o centro de operações. “Tudo tremeu. Seus ouvidos zumbem, a visão fica turva, há poeira e fumaça por toda parte”, relatou um soldado.

A cena era descrita como caótica: ferimentos graves na cabeça, sangramentos intensos, tímpanos perfurados e estilhaços espalhados por todos os lados. O ataque matou seis militares — o mais letal desde 2021 — e feriu mais de 20.

Base vulnerável e decisões questionadas

Uma semana antes da Operação Fúria Épica, grande parte das tropas americanas havia sido retirada do Kuwait para áreas mais seguras, como Jordânia e Arábia Saudita.

A orientação, segundo militares, era clara: “sair do alvo”.

No entanto, dezenas de integrantes do 103º Comando de Sustentação do Exército receberam ordens diferentes: transferir-se para o Porto de Shuaiba, uma base menor e mais próxima da zona de risco.

Segundo os relatos, a estrutura era antiquada e inadequada para ameaças modernas:

  • Barreiras de concreto protegiam apenas contra explosões laterais
  • Não havia defesa contra ataques aéreos
  • Construções improvisadas de madeira e metal serviam como escritórios

“Do ponto de vista de defesa contra drones… não havia nenhuma”, disse um dos soldados.

Alguns militares afirmaram que já sabiam que o local constava como possível alvo iraniano, mas nunca receberam uma justificativa clara para a decisão de permanecer ali.

Foto obtida pela CBS News mostra danos do ataque de drone iraniano que matou seis militares dos EUA no Kuwait em 1º de março

“Foi caos total”

O ataque foi realizado com um drone iraniano do tipo Shahed, conhecido por ser barato e eficaz — uma arma que tem redefinido conflitos recentes, como na guerra da Ucrânia.

Quando o drone atingiu o local, o cenário rapidamente se tornou descontrolado. “Foi caos. Não havia uma fila de atendimento. Ou você estava de um lado do fogo ou do outro”, disse outro ferido.

Sem estrutura adequada, os próprios soldados improvisaram os primeiros socorros com torniquetes e bandagens. Veículos civis foram usados para transportar feridos até hospitais no Kuwait.

Um dos sobreviventes relatou a angústia de não conseguir retirar todos os colegas a tempo: “Sei que ainda havia soldados lá dentro que não tinham sido identificados ou evacuados.”

Versão oficial sob contestação

O Pentágono se recusou a comentar as acusações, alegando que o caso ainda está sob investigação. Já o secretário assistente de Defesa, Sean Parnell, afirmou que “todas as medidas possíveis” foram tomadas e que a instalação era protegida por muros de 1,80 metro.

Para os sobreviventes, a divergência não é apenas técnica, mas essencial: “Não quero diminuir o Exército, mas dizer a verdade é importante. Não vamos aprender com erros se fingirmos que eles não aconteceram.”

Um dos militares foi direto ao ponto ao ser questionado se o ataque poderia ter sido evitado: “Na minha opinião, absolutamente, sim.”

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.