Militarização da saúde: chave da nossa tragédia. Por Emir Sader

O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello: o que ele faz além de computar mortos?

Como se previa, maio está sendo um mês trágico para o Brasil e para os brasileiros. Se acelera de maneira incontrolável o número de mortos pela pandemia. E nada se faz prever que junho seja diferente, porque nem Bolsonaro, nem os militares que ocupam o Ministério da Saúde tomam qualquer medida para se contrapor a essa tendência trágica.

A militarização do governo é produto da perda da capacidade de governar o país por parte de Bolsonaro, tanto ele pessoalmente, como a perda de equipe para governar o pais. Foi apelando, cada vez mais, para militares, que foram ocupando, cada vez mais, o governo.

No Palácio do Planalto são três que ocupam cargos estratégicos. Militares que foram assumindo responsabilidades cada vez maiores no governo. No conjunto do governo, se contam mais de 3 mil militares. E, no Ministério da Saúde, já se contam em dezenas, incluindo o que ocupa o cargo de ministro – dito interino, mas já com promessa de que continuará por um bom tempo, por ser um “bom gestor” (sic) – e os principais cargos no Ministério.

Esta situação sintetiza dois dos problemas mais graves que o Brasil vive: a militarização de um governo que não preside o país e a renúncia a qualquer plano de ação contra a pandemia, que mata mais de mil pessoas por dia. A militarização da saúde resume as tragédias que nós vivemos.

A incapacidade de governo de Bolsonaro já era evidente ao final do seu primeiro ano. A economia se mantinha estagnada, 12 milhões estavam desempregados, 38 milhões no trabalho precário. As projeções para o segundo ano não eram diferentes.

O estilo de ação do presidente se mostrava incapaz de agregar até os seus. Ele foi perdendo apoios, especialmente dos formadores de opinião que haviam estado com ele. O desempenho de Bolsonaro nesse primeiro ano foi um streap-tease do que ele é, de quem governa com ele, de para quem ele governa, do seu caráter e das duas enormes fraquezas.

A chegada da pandemia tornou-se uma tragédia para o Brasil. Com um sistema de saúde pública enfraquecido, sem um presidente com capacidade de comando e legitimidade, com o aprofundamento das desigualdades sociais. Rapidamente as mortes chegaram a mil por dia, dezenas de milhares de brasileiros ja morreram e outros devem morrer nos próximos meses.

Enquanto isso, um militar imbecil, completamente alheio à saúde publica no Brasil, ocupa o Ministério da Saúde, que deveria ser ocupado por pessoas altamente competentes, se mostra absolutamente incapaz de corresponder ao que o Brasil precisa. Despede o pessoal que restava e entulhou o ministério de militares, em um dos mais vergonhosos episódios políticos da história do pais.

Os militares assumem a responsabilidade de conduzir o Brasil na pior crise de saúde pública que já vivemos, sem capacidade de dar resposta a qualquer dos graves problemas que o país enfrenta. A cada dia, com o anúncio de mais de mil mortes, não dizem nada, não têm nada a dizer, burocraticamente somam as vítimas. Como se eles não fossem culpados por essas mortes, pelo sofrimento de mais de mil famílias a mais a cada dia.

Bolsonaro e os militares – comprometendo mais ainda as FFAA – têm as mãos sujas de sangue por essas mortes. O presidente nem toca no tema da pandemia. Está preocupado com salvar seus filhos das garras da justiça e não tentar salvar os milhares de brasileiros que morrem a cada dia. Um governo criminoso faz demagogia com as vítimas da pandemia e da recessão econômica, enquanto finge dirigir o país.

O Congresso tem que chamar imediatamente quem ocupa o cargo de ministro da Saúde, para cobrar o que ele e os militares que o acompanham fazem para brecar a sangria de mortes que o país vive. Para saber o que eles pretendem fazer, além de computar as vítimas diárias.

Temos que ser capazes de fazer com que a pandemia se torne o problema da atenção do país, a questão mais importante que os brasileiros vivem. A democracia está em risco, mas a vida de milhões de brasileiros também, e antes de tudo.

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PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR.

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