Minha corrida atrás de Stieg Larsson e Lisbeth Salander pelas ruas frias de Estolcomo

ESTAMOS ANDANDO pelas ruas do centro de Estolcomo, o jornalista sueco Anders Hellberg e eu. São pouco mais de 13 horas de um dia frio, como é comum na cidade. Zero grau, por volta disso, mas a sensação de frio é ampliada pelo vento. Poucos dias antes, a situação era bem pior, me conta Hellberg. A temperatura estava em menos 20, e a neve densa dava a Estolcomo um branco fantasmagórico. É uma cidade belíssima, ainda que glacial, conforme escrevi num artigo recente.

Procuramos um restaurante para almoçar. Acabamos por nos decidir por uma cantina italiana, para meu conforto. Comida italiana, para pessoas com paladar pouco desenvolvido como o meu, não oferece risco. Um espaguete ou uma lasanha não podem ser tão ruins assim. Hellberg, 60 anos, é um dos bons repórteres suecos. Trabalha no jornal Dagens Nyheter, a segunda maior circulação da Suécia, com 350 000 exemplares diários. Ele tem os cabelos claros, como um sueco típico, e traços que me lembram alguém que, num primeiro momento, não identifico. Depois sim.

“Já disseram que você é a cara do David Letterman?”, pergunto a ele. Ele ri e aquiesce. “Uma vez fui a Nova York e as pessoas apontavam para mim”, ele diz. Tem a informalidade típica dos jornalistas do mundo todo, exceto os que trabalham em negócios e finanças. Nada de paletó e gravata, nada de abotoaduras, nada de gel no cabelo. É autor de três livros de não ficção, e tem a aversão clássica de todo repórter a editores que mexam no texto. “Enforco o editor se ele mexer no que eu escrevo”, ele diz, sorrindo, e leva as mãos ao pescoço para reforçar sua frase. Ele conversa em sueco com o garçom, e acabamos pedindo, os dois, uma lasanha que prestava sem encantar.

O enigma Larsson
O enigma Larsson

Estou ali com Hellberg, numa cantina de Estolcomo, porque, como um detetive, quero descobrir quem é Stieg Larsson, o autor da Trilogia Millenium, o maior fenômeno literário dos últimos anos. Ou melhor, quem foi ele, uma vez que Larsson morreu pouco antes que fosse publicado o primeiro livro da série, Os Homens que Não Amavam as Mulheres. A adaptação para o cinema vem fazendo sucesso no mundo todo. No Brasil, a estréia está marcada para 23 de abril. Larsson e Hellberg trabalharam juntos anos atrás na TT, uma agência sueca de notícias. Larsson era ilustrador e, segundo Hellberg, costumava levar os pequenos textos dos gráficos que fazia para que ele os examinasse.

Essa proximidade desperta não apenas meu interesse. “Na próxima semana, um repórter do New York Times vem conversar comigo”, ele me conta no restaurante. Hellberg diz ter ficado surpreso ao ler Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Menos porque jamais soubera que Larsson tinha pretensões de romancista e mais pelos textos que lera. “Ele não conseguia juntar frases que tivessem algum sentido”, afirma Hellberg. Segundo ele, os erros eram de toda natureza, de ortografia, de gramática e de sintaxe.

“O primeiro livro, principalmente, é muito bem escrito”, diz Hellberg. “Larsson não tinha condições de escrever daquele jeito.” Ele se refere ao original sueco. Existem ressalvas à tradução para o inglês. Tenho comigo, ali, o segundo livro da série. Hellberg o apanha, folheia rapidamente e cita, ligeiramente incomodado, aparentes equívocos colhidos em alta velocidade.

“Vocês trabalharam juntos no passado”, eu pondero. “Ele não poderia ter melhorado?” Hellberg faz que não com a cabeça. Estava dizendo que o jovem ilustrador que o consultava para textos curtos era, simplesmente, um caso perdido.

REFLITO SOBRE o assunto.

Nunca, na minha carreira, vi uma transformação radical numa prosa. Vi gente que escrevia com pompa de principiante enxugar as frases. Também conheci o oposto, redatores lacônicos que aprenderam a encorpar seus textos. Mas sempre havia uma base forte para as mudanças: pensamento lógico, correção no porruguês e capacidade de expressão.

Sapos que viram príncipes no estilo jamais conheci. Seria Larsson, como redator, um sapo? Ou Hellberg estava sendo rigoroso demais? A mesma avaliação negativa de Larsson como repórter fora feita por um outro ex-colega, Kurdo Baksi. Poderia, é claro, haver inveja nas críticas. Ou mesmo uma espécie de retaliação.

Com Hellberg numa cantina italiana em Estolcomo
Com Hellberg numa cantina italiana em Estolcomo

Larsson, pela boca de Mikael Blomkvist, o jornalista da trilogia, investiu como um vicking ensandecido contra a mídia sueca. Sobretudo a de negócios. Os jornalistas são “lacaios”
que “regurgitam”, sem qualquer crítica, as afirmações dos empresários e executivos. Blomkvist se diz “envergonhado” de pertencer à tribo.

Quando li o primeiro livro da série, esta foi uma passagem que particularmente me interessou, pelo minha trajetória em jornalismo de negócios. É, com certeza, a área mais difícil de ser coberta. Uma reportagem que desagrade uma empresa pode resultar, por exemplo, no cancelamento de uma campanha publicitária. É clássico o enfrentamento entre a revista americana Fortune e a GM. Uma reportagem de capa crítica da Fortune levou, nos anos 80, a GM, então o maior anunciante americano, a ameaçar tirar a revista de suas campanhas. A Fortune se antecipou e, epicamente, suspendeu os anúncios da GM.

Em democracias, é muito menos arriscado, para um jornalista, atacar o presidente da República do que um executivo de uma empresa. Fato.

Em ditaduras, isso muda, naturalmente.

Nascido numa família simples de uma cidadezinha do norte da Suécia, Stieg Larsson teve uma formação modesta. Estava longe de ser um intelectual quando, com a namorada Eva, se mudou para Estolcomo em meados dos anos 70. A única forma de conseguir emprego numa empresa jornalística, dados estes limites, era pela porta da diagramação, como era então chamado o departamento de arte, ou na fotografia. Era assim na Suécia e em todos os lugares, incluído o Brasil.

Larsson acabou na arte. A ânsia de escrever textos acabaria saciada plenamente anos depois, quando ele fundou uma pequena revista trimestral, a Expo, que foi a base da Millenium, a revista em que Blomkvist trabalha. Com as credenciais acanhadas, Larsson jamais penetrou no clube fechado da elite jornalística sueca.

O ressentimento fica claro em sua obra. Você percebe que ele escreveu com prazer as críticas ao jornalismo sueco. Não tinha o que perder. Se ocupasse uma posição elevada, ficaria numa situação complicada. Não era o caso.

Me pergunto, ali no restaurante, se Hellberg não está movido, ele também, pelo ressentimento. Larsson era voluptuosamente dedicado ao trabalho. Era um leitor ávido, um pesquisador insaciável. Poderia, desde que tivesse uma base razoável, progredir na prosa. Voltamos a falar disso ali na mesa. Hellberg se diz convencido de que Larsson simplesmente não tinha capacidade para escrever livros como os da trilogia.

Então o que teria acontecido?

Hellberg diz que só pode ter sido um trabalho da mulher de Larsson, Eva. Ao contrário do marido, Eva tem uma formação respeitável. É arquiteta, escreve artigos para a mídia sueca, e está prestes a lançar um livro sobre a vida com Larsson. A tese de Hellberg é que foi uma espécie de trabalho conjunto, em que Larsson entrou com as idéias e Eva com a edição e organização do texto.

O prédio em que fica a Expo, inspiração da Millenium da trilogia
O prédio em que fica a Expo, inspiração da Millenium da trilogia

MULHERES QUE AJUDAM maridos escritores não são novidade na literatura. Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, atribuía uma enorme parte de seu sucesso ao trabalho invisível da mulher, Vera. Ela era uma espécie de editora de Nabokov.

Terá sido esse o caso?

Meu trabalho de pesquisa — entrevistas, leituras de artigos e livros — me sugere que Eva foi uma espécie de Vera para Stieg Larsson. Carregou talvez o piano, mas não foi solista e nem uma parceira na base de 50%. Essa sensação seria depois reforçada numa conversa com uma jornalista da Expo. “O Stieg era diferente dos jornalistas daqui”, ela me disse. “Escrevia com paixão, com ênfase. A marca do jornalismo sueco é a objetividade fria.”  O resultado de minha missão em Estolcomo estará nas páginas da próxima edição da Época.

Terminado o almoço na cantina italiana, Hellberg toma um chá e eu um expresso. Ele recusara sobremesa. “Você pode, é magro”, eu digo, atracado a um creme bruleè. “Quero continuar”, ele diz.

Antes de nos despedirmos, pergunto a ele qual a razão do extraordinário sucesso da trilogia. A resposta é imediata. “Lisbeth Salander.”

Sobre isso todos concordam.

A sociopata de 24 anos cheia de tatuagens e piercings, uma hacker gótica que entende que os maus devem morrer, é a obra magna de Stieg Larsson, o escritor que não viveu para ver a glória milionária que cobriu o mundo que ele criou.

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