Minha experiência com os índios guarani-caiovás

Não foi fácil lidar com a morte, por degola, de meu amigo Ademir, guarani-caiová

Essas crianças são brasileiras?

 

Nasci em Mato Grosso do Sul, que tem a segunda maior população indígena do Brasil, mas foi só aos 20 anos que eu realmente conversei com indígenas. Antes disso eu conheci até coreanos e poloneses durante uma viagem à Europa. Coreanos e poloneses. Sério. É claro que eu já tinha visto vários índios, principalmente vendendo milho na Feira Central e no Mercado Municipal, e já tinha ido com a escola ao Museu do Índio e a uma das aldeias urbanas de Campo Grande. Mas nunca tinha realmente convivido com nenhum deles. A aproximação aconteceu durante um curso de audiovisual no Pontão de Cultura Guaicuru, onde eu era colega de cinco indígenas que moravam em aldeias do estado e vinham para Campo Grande no período dos módulos mensais. Foi mergulhada na questão indígena que eu vivi o momento mais delicado da minha (breve) vida jornalística e talvez da minha vida pessoal.

Eu estava no terceiro ano da faculdade e naquele semestre a minha turma era responsável pela produção do jornal do curso, o Projétil. Decidimos fazer uma das edições inteira sobre a temática indígena e eu estava escrevendo os perfis de dois colegas do curso no Pontão, que eram Guarani/Caiovás, muito talentosos com a câmera na mão. No final do processo de redação, um deles foi assassinado durante uma briga na aldeia. Milhares de pessoas são assassinadas no mundo por dia, eu sei. Mas é que conectar meu amigo Ademir — que respondeu a meu último e-mail com a última linha em cor de rosa como sinal de agrado, que escolheu o Titanic do Cameron como filme preferido, que apenas começara a fazer o curso de Matemática em uma cidade vizinha, adorava futebol e sonhava conhecer Brasília — ao cara que foi apartar uma briga em uma festa e foi degolado com um facão de cortar cana não foi, não é (ninguém disse que seria) fácil. O assassino também foi degolado logo depois pelos amigos do Ademir.

Depois disso eu fiz estágio no Ministério Público Federal (MPF) e descobri como a disputa de terras em Mato Grosso do Sul é delicada. Hoje trabalho em um núcleo de pesquisas indígenas em uma universidade e percebo que, entre as sete etnias indígenas que existem no estado, os Guarani/Caiová vivem a situação mais trágica. É por isso que em muitas das poucas vezes que a mídia aborda a questão deles, eles são tratados como estatística ou problema mais do que como seres humanos. Muitas vezes o lado negativo desaba na cabeça da gente mesmo.

A jornalista Camila Emboava, no Pantanal

Na última semana, uma carta (veja aqui) de um grupo Guarani/Caiová finalmente despertou a atenção da mídia e causou comoção nacional e internacional. Eles ocupam a área que chamam de Pyelito Kue, e que oficialmente ainda é a fazenda Cambará. Segundo o Ministério Público Federal, eles vivem em 2 hectares que são parte da área de reserva de mata nativa da fazenda de 762 hectares. Uma nota técnica feita por antropólogos, publicada pela Funai em março deste ano, concluiu que as terras são de ocupação tradicional Guarani e Caiová. Até o fim de agosto de 2011 eles estavam acampados do lado de fora da fazenda, na margem da estrada, e foram atacados (veja notícia).

Não é segredo para ninguém em Mato Grosso do Sul que esses ataques acontecem. Em agosto deste ano, um fazendeiro de Paranhos, também no sul do estado, declarou abertamente a um site de notícias que haveria guerra contra os índios que ocuparam a fazenda dele (veja a notícia e o video). Alguns dias antes, uma bebê de nove meses de idade morreu e um idoso ‘desapareceu’ depois de um confronto na área. Mesmo assim, os índios prometeram resistir, como os de Pyelito Kue.

As notícias sobre a carta escrita pelos indígenas de Pyelito tiveram grande repercussão por conta do suposto suicídio coletivo. Apesar do engano na interpretação do conteúdo, também não faz mal trazer o suicídio indígena à tona. Segundo o Mapa da Violência no Brasil, publicado pelo IBGE em 2011, a média de suicídios em Mato Grosso do Sul é 34 vezes maior do que no resto do país, puxada pelos suicídio indígenas. Como o Brasil é grande isso não chega a fazer com que a taxa de suicídios brasileira fique elevada, mas se considerarmos apenas meu estado, a taxa de 446 suicídios de jovens por 100 mil habitantes não é comparável nem aos países que têm índices considerados trágicos. Em outros lugares do mundo, o suicídio é mais comum entre pessoas um pouco mais velhas, enquanto em Mato Grosso do Sul mais jovens se suicidam. E quando é tão expressiva a quantidade de jovens que se matam, fica evidente que isso tem a ver com a falta de perspectiva.

O fato é que, mesmo com a afobação do ativismo online, que inevitavelmente leva a alguns clichês e enganos, a mobilização da sociedade tem sido comovente. Nos comentários dos leitores dos sites e nas redes sociais, muitos ‘não indígenas’ se esforçaram em encontrar uma solução para o tema. Muita gente acrescentou o sobrenome “Guarani Caiová” ao perfil do Facebook. Houve até quem propusesse uma vaquinha online para comprar as terras.

O MPF já recorreu na justiça contra a retirada dos indígenas de Pyelito Kue e estes já disseram que não pensam em se suicidar, mas que vão resistir ao despejo até o fim. A questão é toda essa – eles vão resistir como têm resistido há séculos. A luta tem menos a ver com as 170 vidas que hoje sobrevivem na fazenda Cambará e mais a ver com a resistência de um povo. Para realmente existirem, os Guarani/Caiovás precisam das áreas que reivindicam, os tekohas – em guarani ‘teko’ (= costume, modo de ser) e ‘ha’ (= lugar).

O problema é que a retirada dos indígenas dos tekohas e o confinamento deles em reservas aconteceram justamente para viabilizar a instalação do agronegócio. E é assim que é produzida a cana, o milho, a soja e o gado para exportação em parceria com multinacionais. O filme Terra Vermelha, de Marco Bechis, produção brasileira e italiana, tem uma das cenas que eu considero mais fortes do cinema brasileiro. Durante uma retomada, um fazendeiro conversa com o líder dos indígenas, pega um punhado de terra nas mãos e argumenta que a família dele trabalha naquela terra há três gerações plantando comida para as pessoas comerem. O índio pega um punhado de terra e come. A terra pertence a alguns, outros pertencem a ela.

Além de refletir sobre a sobrevivência ou não dos 170 indígenas de Pyelito Kue, o Brasil (que sou eu, você e principalmente nós) precisa decidir se os guarani/kaiovás também são brasileiros apesar das diferenças culturais. Se existe espaço para brasileiros que têm um modo de vida diferente. Se a multiculturalidade é ou não utopia quando está em jogo o poder econômico. Na Constituição de 88 está escrita uma das respostas possíveis: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”

A Constituição previa que a demarcação ocorresse em cinco anos.  Mas a Constituição, pelo menos neste caso, tem valido pouco.

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